terça-feira, 28 de julho de 2026

A magnanimidade e a fraqueza

Há uma diferença, que os antigos conheciam bem e que nós, modernos apressados, tendemos a confundir, entre a generosidade e a fraqueza. A generosidade é virtude ativa, escolha consciente de quem tem o poder de destruir e decide, por uma espécie de graça interior, não o exercer inteiramente. A fraqueza é ausência — ausência de força, de concentração, de destino cumprido. O problema — e aqui está o nó górdio que Alexandre jamais soube desfazer com elegância, optando sempre pela espada — é que, vistas de fora, as duas se parecem com perturbadora fidelidade. O leão que abandona a presa a meio caminho tanto pode ser o leão magnânimo quanto o leão que simplesmente cansou. E cabe à história, essa narradora implacável e sem pressa, distinguir um do outro.

Sport 1 x 1 Cuiabá

Ora, o que aconteceu ontem na Ilha do Retiro — essa fortaleza vermelha e preta que a cidade de Maurício de Nassau jamais teria deixado construir, mas que a Pernambuco insurgente, esta sim, merecia — foi precisamente esse equívoco de leitura que os adversários cometem com o Sport há décadas. O Cuiabá, saído do coração do Brasil continental e seco como a caatinga no auge do verão, veio à Ilha convicto de que poderia sair com alguma coisa. E saiu. Mas enganam-se os que leem nisso uma limitação do Leão; o Leão simplesmente exerceu, no minuto setenta e cinco, aquela generosidade que os inimigos interpretam como fraqueza e que os iniciados sabem ser outra coisa: a deixa cavalheiresca de quem já escreveu o capítulo seguinte e não precisa, hoje, de capítulos perfeitos.

Pedro Perotti foi o instrumento da vontade rubro-negra no minuto cinquenta e três. Chute do centro da área, ao centro do gol — descrição fria que não faz jus ao que foi, na verdade, um ato de afirmação: o Sport comunicando ao adversário, à torcida, ao universo em geral, que estava ali, presente, vivo, com os dentes à mostra. Vinte e três milhões de rubro-negros ergueram-se, invisíveis mas sentidos, de suas cadeiras espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. O gol de Perotti não foi apenas um gol; foi uma declaração de princípios. E por vinte e dois minutos, o princípio se sustentou.

Depois veio Fábio Gomes, de cabeça, num cruzamento de Kauan Cristtyan que encontrou o canto superior esquerdo com aquela precisão irritante que os gols adversários reservam para seus momentos de maior insolência. O empate não foi cedido por falta de vontade, nem por falta de qualidade — foi cedido pela geometria traiçoeira do futebol, essa ciência imprecisa que de vez em quando, como já escrevi aqui por ocasião da cabeçada do destino que nos custou pontos amargos meses atrás, decide que a bola descreverá exatamente o arco que não deveria descrever. O Sport, com sessenta e sete vírgula sete por cento da posse, com dezessete chutes e a autoridade de quem domina o jogo no próprio reduto, não mereceu empatar. Mas o futebol, como Deus segundo Santo Agostinho, não é obrigado a merecer nossas aprovações.

E no entanto — e este "e no entanto" carrega o peso de uma conjunção adversativa que os gramáticos jamais esgotarão — há algo de digno neste ponto arranhado à quermesse cuiabana. A cavalheiria que custou reinos na França medieval, como já me detive a explorar neste blog, aqui não custou nada de vital: custou um ponto, apenas um, num campeonato que ainda tem léguas a percorrer. O Sport permanece na briga. O Sport permanece de pé. E o Cuiabá — coitado, mato-grossense, desorientado na umidade pesada do Recife — foi para casa com um ponto que o Leão, em sua magnanimidade involuntária, acabou por lhe conceder.

Mas que não se confunda a análise com a resignação. Dezessete chutes e apenas três no gol é o número que incomoda, que coça, que não deixa o cronista dormir em paz. É o número que sussurra: havia mais ali; havia uma vitória represada nos pés dos jogadores que não encontrou a saída. O talento existia — e este blog não tem por hábito mentir para consolar. O que faltou foi a pontaria fina, aquela frieza de toureiro no momento da estocada definitiva que transforma domínio em resultado. Aprende-se isso. Aprende-se com partidas exatamente como esta.

O Leão empatou. O Leão dominou. O Leão saiu da Ilha sem a vitória que o desempenho pedia, mas com a dignidade que a camisa exige. São coisas distintas, e às vezes é preciso separar o tecido fino do que foi de verdade grandioso — a posse, a pressão, a vontade — do tecido grosso do resultado que o calendário registrará com sua frieza burocrática. O calendário é impiedoso. A história, porém, lê nas entrelinhas.

A fera não se satisfez. E isso, convenhamos, é muito mais perigoso do que a fera saciada.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A longa sombra do minuto oitenta e oito

Há uma figura que os gregos conheciam bem e que os modernos, distraídos com suas telas e suas presas, teimam em ignorar: a figura do Daemon, o espírito intermediário que habita o espaço entre o homem e os deuses, que não é nem providência nem acaso, mas aquela força oblíqua e caprichosa que resolve, nas horas finais das coisas, mudar a inclinação do prato da balança. Não o destino na sua forma majestosa e trágica, não a fortuna cega girando sua roda com indiferença olímpica — mas o Daemon miúdo, o duende da décima última hora, aquele que espera o homem repousar na certeza para então, com um sorriso de menino mal-criado, tirar o tapete.

Sport 1 x 1 Goiás

A Serrinha, em Goiânia, é um estádio de nomes sonoros e memórias provincianas; um lugar onde o Esmeraldino da capital goiana imagina ser grande, onde a torcida verde faz barulho suficiente para convencer a si mesma. O Sport Club do Recife foi até lá, nesta quarta-feira de julho, com a postura de quem não pediu licença para entrar. E não pediu mesmo. Biel enxergou o corredor que outros não enxergariam, serviu Pedro Perotti com a precisão de quem conhece a geometria do campo como arquiteto conhece uma planta baixa, e Perotti — com o pé direito, com aquela frieza de mercenário que sabe o preço do gol — encaixou na parte de baixo do ângulo direito. Goiás 0, Sport 1. O relógio marcava vinte e dois minutos. O Leão rugiu, e o silêncio que se seguiu nas arquibancadas esmeraldinas foi o silêncio específico de quem ainda não entendeu o que acabou de acontecer.

Durante sessenta e seis longos minutos, o Sport tratou aquele placar como quem trata uma herança modesta mas legítima: com cuidado, sem ostentação, com a consciência de que não se dilapida o que foi ganho com suor e talento. A posse de bola era do Goiás — quarenta e três vírgula três por cento não mentem e não lisonjam, dizem o que é —, mas posse não é domínio, e domínio não é gol, e gol é a única linguagem que a tabela da Série B é capaz de ler. O rubro-negro de Pernambuco chutou seis vezes, três enquadradas, e administrou o que tinha com a economia de quem percorreu longa estrada e sabe que a água no cantil não é infinita.

E então, nos estertores do jogo — no minuto oitenta e oito, quando já se contavam os segundos com os dedos — apareceu o Daemon. Luiz Felipe tocou para Djalma Silva, e Djalma Silva, de fora da área, com o pé esquerdo, achou o ângulo superior esquerdo com aquela insolência específica do gol que não devia entrar. Não havia, na lógica da partida, justificativa alguma para aquele arremate resultar em gol. Havia, talvez, uma justificativa cósmica: a de que o universo, de vez em quando, precisa lembrar ao torcedor rubro-negro que a paz definitiva não está entre as concessões disponíveis. O empate chegou não porque o Goiás era melhor. Chegou porque o Daemon quis assim, às 88 do segundo tempo, no fundo de um estádio de província.

Mas aqui o cronista, que já escreveu sobre pêndulos e sobre taças retiradas na beira dos lábios, não cairá na armadilha do lamento puro. O Sport foi a Goiânia, cidade de outro estado, fuso de outro temperamento, e esteve à frente durante quase todo o jogo. Não recuou em covardia, não se aninhou atrás de uma linha baixa implorando para que o tempo corresse depressa — jogou com a altivez que se espera de um clube de cento e vinte anos de história, de um clube que carrega no escudo o leão amarelo como quem carrega uma certidão de nobreza. Que o Daemon lhe tenha roubado dois pontos no final não apaga o que foi construído do primeiro ao octogésimo sétimo minuto.

A magnanimidade — e os leitores deste blog saberão que essa palavra já compareceu aqui antes, não como ornamento mas como conceito central — tem também uma versão involuntária: a do generoso que reparte o que não queria repartir, que concede o ponto que merecia ser seu. O Sport, esta noite na Serrinha, foi magnânimo à revelia. Deu ao Esmeraldino a esmola de um empate que ele não tinha construído para merecer. Chamemos isso, se quisermos ser cavalheiros, de um gesto nobre. Se quisermos ser honestos, chamemos de injustiça miúda, daquelas que o tempo absorve sem cerimônia.

O Leão volta para a Ilha do Retiro com um ponto na bagagem e com a convicção, que nada nesta noite foi capaz de abalar, de que o caminho é este. A Série B é uma maratona de estações, não um sprint de fim de tarde, e cada ponto arrancado de uma praça adversária tem um peso específico que a tabela registra em números mas que os vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este país entendem na carne. O empate dói, sim; seria desonesto negar. Mas a dor de hoje é o combustível de amanhã.

O Daemon que roubou o segundo ponto na Serrinha haverá de encontrar o Leão em melhor humor na próxima vez.

domingo, 19 de julho de 2026

A cavalheiria e o punhal

Há uma virtude que, mal praticada, se converte em vício — e o que é mais perturbador: converte-se num vício que se parece, perigosamente, com a própria virtude. Falo da cavalheiria. Aquela disposição nobre, herdada dos paladinos de Carlos Magno e dos cavaleiros errantes que Cervantes imortalizou com tanta ternura e tanta ironia, de dar ao inimigo mais do que ele merece; de proteger o fraco quando o fraco já está prostrado; de estender a mão quando bastaria erguer o pé. A cavalheiria, na guerra, já custou reinos. Em Crécy, em Azincourt, os nobres franceses cavalgaram em formação perfeita, com estandartes reluzentes e armaduras polidas, contra as flechas inglesas — e morreram, cavalheiros até o fim, com a elegância impecável de quem não aprendeu que a guerra não lê os manuais de etiqueta. O futebol, que é uma guerra com apito e chuteiras, não é diferente.

Porque existe, no futebol, um pecado que não se chama derrota. Chama-se concessão. É o ato de ter o adversário rendido, a fortaleza tomada, o estandarte plantado no campo inimigo — e, por um excesso de nobreza mal colocada, por um momento de distração que a história não perdoa, devolver ao vencido aquilo que ele jamais deveria ter recuperado. Os romanos, que entendiam de conquistas, tinham um ditado: parcere subiectis et debellare superbos — poupar os submissos e abater os soberbos. O problema é que o Operário Ferroviário, de Ponta Grossa, não veio à Ilha do Retiro como submisso. Veio com a cara de quem não leu Virgílio e não pretende ler.

O Leão abriu os portões da Ilha num sábado de julho — e o visitante entrou antes mesmo que o anfitrião tivesse tempo de se sentar. Aos seis minutos, uma investida pelas franjas da esquerda, Hildeberto servindo Aylon com a precisão seca de quem não veio passeando, e a bola foi parar no canto inferior como uma sentença ditada em voz alta: zero a um. Vinte e quatro milhões de rubro-negros, cada qual em seu sofá, cadeira ou arquibancada, experimentaram aquela familiar contração de estômago que só os torcedores do Sport sabem nomear com precisão. Mas o Leão, que conhece as regras dessa guerra mais do que qualquer mapa-múndi de futebol poderia indicar, não demorou. Aos dezessete minutos, Biel — com aquela irreverência de quem sabe exatamente onde o goleiro não vai chegar — expeliu um chute do centro da área que foi pousar no canto superior esquerdo com a arrogância elegante dos gols bonitos. Um a um. O equilíbrio restaurado. A ordem natural do cosmos, ainda que provisória, reafirmada.

O segundo tempo abriu com o Sport em modo conquistador. O Operário ainda mal havia arrumado as malas na área de retaguarda quando Biel — outra vez ele, esse Biel que parece ter feito um pacto com as musas do futebol — serviu Fábio Matheus na entrada da área, e Fábio Matheus colocou a bola no canto inferior direito de fora da caixa com a frieza de quem nunca na vida errou um chute desse tipo. 

Dois a um. E foi nesse momento que a cavalheiria entrou em campo — não convocada, não escolhida, mas infiltrada, sub-reptícia, como um espião que se veste de aliado. 

O Sport tinha o jogo. Tinha a vantagem. Tinha — e aqui a palavra é deliberada — o direito à vitória. Mas o futebol, que é teólogo disfarçado de espetáculo, não aceita que o direito e o resultado coincidam sem o pagamento de uma taxa.

Aos oitenta e seis minutos — faltavam apenas quatro para o apito final, apenas quatro, uma eternidade suficiente para um destino descuidado agir — Gabriel Feliciano cruzou da direita com o capricho de quem estava guardando aquele cruzamento para o momento mais dramático possível, e Vinícius Diniz cabecou ao canto. Dois a dois. O ponto que a crônica do pêndulo, aqui mesmo neste blog, havia anunciado com antecedência quase profética: o universo que oscila, que pune o imóvel, que cobra do distante. O Operário empatou como os franceses em Agincourt deveriam ter batido em retirada — tarde demais, mas com eficiência suficiente para estragar o dia.

Que se diga, em defesa do Leão: vinte e três chutes, cinquenta e cinco por cento de posse, oito finalizações no alvo — um domínio que os números registram com a fidelidade de um notário, e que o placar traiu com a imparcialidade bruta dos números que não guardam rancor. Vinte e quatro faltas cometidas — sim, vinte e quatro, o que sugere um Sport que brigou, que não se entregou, que usou as próprias infrações como prova de que estava lá, presente, disputando cada centímetro da Ilha como se cada centímetro fosse patrimônio irrenunciável. Não foi uma noite de acomodamento. Não foi sonolência. Foi, talvez, o excesso oposto: a grandeza que deixa frestas.

O empate, convenhamos, tem a sua dignidade. Magnanimidade real, como aqui já se escreveu quando de outra ocasião semelhante — o Leão que, podendo esmagar, concede ao visitante o ponto que a cavalheiria mal aplicada distribuiu no minuto oitenta e seis. Mas a diferença, esta semana, é que o ponto concedido não foi por generosidade de alma: foi por um instante de descuido que o calendário vai cobrar com juros compostos. A Série B não tem paciência com empates que poderiam ser vitórias. E o Leão, que conhece esse campeonato pela textura áspera das promoções e dos sofrimentos, sabe disso melhor do que ninguém.

O punhal estava na bainha. Faltou sacá-lo quatro minutos antes.

sábado, 11 de julho de 2026

O pêndulo e a graça

Há uma lei física que o futebol, com sua insolente vocação para a metáfora, resolve transformar em lei moral: o pêndulo que oscila para um lado oscila, com igual ímpeto, para o outro. Não há repouso no meio do arco — o repouso é ilusão, é pausa estratégica do destino antes de retomar o balanço. Foucault demonstrou, com o seu célebre pêndulo no Panteão de Paris, que a Terra gira enquanto o fio oscila; que o universo todo se move enquanto o homem jura que está parado. O futebol não é diferente: o time que parece dominar é aquele sobre o qual o pêndulo está prestes a cair; o time que parece perdido é aquele que sente, na sola da chuteira, a Terra girar sob seus pés e o fio começando a voltar.

Sport 3 x 3 Botafogo-SP

Pois foi exatamente isso — a física implacável do pêndulo — o que se viu na Ilha do Retiro na noite desta sexta, perante o Botafogo de Ribeirão Preto, essa equipe alvinegra do interior paulista que chegou à nossa casa como chegam as tempestades de verão: sem avisar, com estrondo súbito e chuva torrencial. Dois a zero no primeiro tempo. Dois gols em que o Sport parecia ter esquecido, momentaneamente, que existe a categoria "defesa"; dois gols em que o time parecia dormir, parecia esquecer a grandeza do manto sagrado que envergava sobre os ombros; dois miseráveis gols — o de Hugo Zé Hugo pelo ângulo direito, lançado por Everton Morelli como flecha, e o de Rafael Gava na penalidade, com a serenidade insuportável de quem já sabe onde vai colocar a bola antes mesmo de correr para bater — que fizeram vinte e quatro milhões de rubro-negros sentirem aquela náusea familiar, aquela vertigem específica do torcedor do Leão que reconhece a tonalidade exata do sofrimento. Nunca duvide do Sport. 

Mas o pêndulo voltou. Começou a voltar ainda nos estertores do primeiro tempo, quase como se Chrystian Barletta não aceitasse jantar com tamanha amargura: um chute do centro da área, colocado no canto superior direito com a naturalidade de quem pratica o gesto bonito desde que aprendeu a andar, e de repente era Sport um, Botafogo dois, e a Ilha acordava de seu torpor coletivo. O segundo gol veio da cabeça de Benevenuto — o zagueiro que, receba-se a informação com a seriedade que ela merece, também sabe aparecer quando é preciso —, encontrando o canto inferior esquerdo após cruzamento de Clayson, e o empate estava feito como se nunca tivesse sido outra coisa. O Sport tinha setenta e um por cento da posse, vinte chutes tentados: a fisionomia de uma equipe que não pede permissão para jogar.

E então o pêndulo voltou para o outro lado, como o pêndulo faz — porque é essa a sua natureza, e a natureza não lê os nossos roteiros sentimentais. Patrick Brey, de cabeça, pelo alto, da esquerda da pequena área, colocou o Botafogo paulista outra vez à frente, assistido pelo mesmo Rafael Gava que havia chutado o pênalti com tal calma que ficamos com raiva retroativa. Três a dois. Setenta e seis minutos jogados, catorze para acabar, e os vinte e sete milhões de rubro-negros espalhados pelo Brasil — e pelo mundo, que o nosso amor não tem fronteiras geográficas sensatas — entraram naquele estado meditativo particular que o torcedor do Sport conhece como a palma da mão: a mistura de esperança com terror, de fé com superstição, de prece com xingamento.

O que veio depois merece ser descrito com a voz que se usa para os momentos em que o destino, afinal de contas, tem pena de nós. Nos acréscimos do segundo tempo, penalidade para o Leão. Chrystian Barletta, o mesmo que havia aberto a reação, que havia anunciado no primeiro tempo que este Sport não aceitaria o vexame como sobremesa, se aproximou da marca de cal com a serenidade de quem já sabe onde vai colocar a bola. Ao centro. Com o pé esquerdo. Como se fosse a coisa mais simples do mundo empatar um jogo aos noventa e seis minutos depois de ter passado boa parte da tarde correndo atrás do placar. Simples para os fracos de espírito é celebrar quando está ganhando; é no instante de máxima pressão que a grandeza se revela sem retoque.

Escrevi aqui, na semana passada, sobre a injustiça do momento — sobre aquela crueldade miúda e específica do gol que entra quando não devia. Pois bem: hoje a injustiça foi, por assim dizer, democratizada. O Botafogo de Ribeirão Preto provou o que é marcar dois gols na Ilha e ver a Ilha responder; provar o empate, perder o empate, e ver o empate ser arrancado das entranhas do relógio como quem arranca uma confissão de uma pedra. Há uma certa poética nisso. Não é a poética que eu escolheria — preferiria, em tese, a poética da vitória limpa e folgada; mas o futebol, como todo grande artista, não consulta as nossas preferências antes de compor.

Três a três. O pêndulo parou, por esta tarde, no meio do arco. A Terra continua girando sob o fio; o fio continua oscilando; e os quase trinta milhões de rubro-negros continuam, como sempre, de pé.

O Leão não dorme, senhores. Ele oscila.

domingo, 5 de julho de 2026

A cabeçada do destino

Há uma espécie de injustiça que não se encontra nos códigos, que não tem tribunal competente nem jurisprudência capaz de remediar: a injustiça do momento. Não a injustiça da história longa, que o tempo costuma corrigir com a lentidão paciente dos séculos — essa, ao menos, cede. Falo da outra, a miúda e cruel, a que se consuma num instante preciso e deixa o homem de queixo caído e alma tonta, sem sequer a consolação de uma explicação razoável. É a injustiça do gol que entra quando não devia entrar, da cabeçada que encontra o canto impossível como se o destino tivesse marcado o ponto exato da queda e enviado um executor de confiança para cumprir o serviço.

Sport 0 x 1 Criciúma

Os físicos, esses poetas de jaleco, têm um conceito que me acompanha desde o ginásio: o caos determinístico. A ideia de que sistemas perfeitamente ordenados podem, a partir de uma perturbação infinitesimal, produzir resultados radicalmente imprevistos. Uma borboleta bate as asas no Amazonas; uma tempestade assola Tóquio. Um centímetro a mais na trajetória de uma bola; um Leão derrotado em Santa Catarina. O problema do caos, porém, é que ele não distribui os seus favores com equidade: há times que vivem no olho da borboleta, e há times que vivem na tempestade. Neste sábado de julho, no Heriberto Hülse, o Sport Club do Recife viveu a tempestade.

Waguininho. O nome, convenhamos, não tem o peso épico de um Aquiles ou de um Cipião. Não ressoa nos salões da história como os grandes algores da humanidade. E, no entanto, foi ele — precisamente ele, no minuto vinte e nove do primeiro tempo — quem se ergueu entre os corpos e enviou a cabeça contra o centro da área com a convicção inabalável de quem cumpre uma missão recebida em sonho. A bola foi ao canto esquerdo com uma delicadeza traiçoeira, aquela que os carrascos aprendem quando querem que a vítima quase não sinta. Um a zero. E o Criciúma, esse tigre catarinense de listra amarela e memória curta, acreditou que havia vencido o universo.

Mas eis o que os números contam, e que nenhum placar tem jurisdição para apagar: o Sport teve cinquenta e quatro vírgula cinco por cento da bola. Catorze chutes tentados; quatro no alvo. Dezessete faltas cometidas — dezessete! — o que é, a seu modo, a prova de que o Leão estava presente, corporal, físico, vivo, reclamando palmo a palmo o chão que pisava. Não foi um time apagado, resignado, macambúzio, desses que aparecem em campo com a expressão de quem já consultou o horóscopo e sabe que o dia não será bom. Foi um time que jogou. Que pressionou. Que, por obra de um acaso furioso, levou o único gol da partida e não conseguiu, apesar de todas as suas tentativas, perfurar a muralha adversária.

Isto me recorda aquela frase que Dostoiévski colocou na boca do príncipe Míchkin: "A beleza salvará o mundo." Não disse que a beleza vencerá todas as batalhas, note-se bem. Disse que salvará. Há uma diferença abissal entre vencer e salvar, entre conquistar e preservar. O Sport, neste sábado no sul do país, não venceu. Mas salvou algo mais precioso que um placar: salvou a sua própria imagem de time que luta, que se impõe, que não entrega os pontos com a comodidade dos que já desistiram de existir com dignidade. Cinquenta e quatro por cento da bola é uma afirmação de identidade. É o Leão dizendo ao mundo que ainda existe.

Depois do que escrevi sobre a taça e a sede, sobre as derrotas que chegam justamente quando o homem parece mais próximo de beber — sinto, desta vez, algo diferente no ar. Não a resignação amarga, não o desespero que corrói. Sinto aquela espécie de fúria fria que os grandes times acumulam nas partidas que não deveriam ter perdido, e que se converte, nas partidas seguintes, em energia suficiente para derrubar muralhas. Os vinte e um milhões de rubro-negros que acompanharam este jogo — de longe, de perto, pelo celular na fila do banco ou pelo rádio na cozinha em chamas — sabem, com a sabedoria que só o amor incondicional concede, que o Leão não perdeu a guerra. Perdeu uma escaramuça. Num dia cinza. Num estádio que não é o seu.

O Heriberto Hülse ficará de pé. O placar ficará registrado. Waguininho terá o seu instante de glória catarinense, seu momento de cabeçada ao canto esquerdo, seu minuto vinte e nove imortalizado nas estatísticas de uma Série B que ainda tem muito chão pela frente. Mas o Sport Club do Recife voltará — voltará com a sua história de noventa anos, com as suas estrelas no peito, com a fome que só cresce quando se nega o pão. E ninguém, em sã consciência, deveria querer estar do outro lado quando esse apetite se converter em gol.

O Leão não saciou a fome hoje. Isso o torna mais perigoso.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

A taça e a sede

Há uma crueldade particular nos destinos que se interrompem justamente quando pareciam prontos para se cumprir. Não a crueldade rude e direta do destino que nega tudo desde o princípio — essa, ao menos, tem a honestidade de não prometer. Falo da outra, da pior: aquela que concede, que acena, que deixa o homem provar o vinho na beira dos lábios, e então retira a taça com a precisão fria de um carrasco bem pago. Os gregos tinham um nome para isso: a hybris dos deuses — não a arrogância humana, como se costuma dizer, mas a crueldade divina de elevar o mortal até o patamar em que a queda se torna espetáculo. Tântalo não merecia a sede eterna. Merecia a água. E foi exatamente isso que o condenou.

Sport 1 x 2 Fortaleza

No Castelão, sob o céu nordestino que não pertence ao Leão mas que um dia haverá de temê-lo, o Sport Club do Recife viveu, no domingo passado, a parábola do suplício tantaliano em toda a sua perfídia. Sessenta por cento da posse de bola — sessenta! —, dezesseis tentativas de rasgar a tela do destino, a dominância técnica e territorial de quem não veio a Fortaleza para fazer turismo, mas para disputar. E, no entanto. E, no entanto. Rodrigo Santos, aos vinte e oito minutos, com um chute colocado da intermediária que não merecia entrar em nenhum jogo que pretendesse ser justo, abriu o placar para o triângulo cearense. Primeiro golpe da taça retirada.

Mas o Leão — e é aqui que a história se torna bela, que a crónica ganha a dignidade que merece — não aceitou o suplício. Pedro Perotti, de cabeça, aos sessenta e nove minutos, em mergulho audacioso dentro da pequena área, converteu o empate com a precisão de quem não sabe o significado da palavra resignação. Sim, meus amigos, aquele gol de Perotti não foi apenas um gol; foi uma declaração filosófica, uma recusa categórica ao papel de figurante que os donos da casa tentavam impor ao visitante rubro-negro. Vinte e dois milhões de torcedores, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, sentiram no peito aquele cabeceio como se fosse o próprio coração do clube a bater mais alto.

E então Tântalo voltou a estender a mão. E a água voltou a recuar. Nos acréscimos — nos acréscimos, senhoras e senhores, nesse território infame onde a injustiça se esconde atrás do cronômetro —, Welliton, com assistência de Juan Miritello, devolveu à casa tricolor a vitória que o Sport havia, com pleno direito e merecimento, lhe subtraído. Chute no ângulo, no último suspiro, no instante em que o empate já parecia um resultado razoável para uma noite tão bem disputada. Não, não foi merecimento, não foi justiça, não foi razoável, não. Foram os deuses caprichosos. Foi Tântalo. Foi a taça retirada.

Seria fácil, neste momento, entregar-me ao lamento. Seria fácil e seria humano. Mas há uma coisa que este cronista aprendeu — ao longo de décadas de Ilha do Retiro, de glórias e de purgações — a distinguir: a diferença entre um time que perde porque é inferior e um time que perde porque os deuses, naquela noite específica, decidiram ser cruéis. Não é a mesma coisa. É uma diferença moral, ontológica, de natureza. O Sport que dominou o segundo tempo em Fortaleza, que pressionou, que igualou, que tinha sessenta por cento da bola, não é um time que teme o rebaixamento; é um time a se temer o contrário: a ascensão inevitável que os adversários ainda não processaram.

O que se viu no Castelão foi, na essência, um time construindo aos poucos a consciência de sua própria grandeza. Como escreveu certa vez aquele rapaz de Florença, que entendia de infernos melhor do que ninguém: o caminho que leva ao paraíso passa, com frequência, pelos territórios mais sombrios, pelos círculos onde a injustiça tem nome e endereço. O Sport está nesse caminho. A Série B é o inferno que precede o purgatório que precede a glória. E o clube do Recife, fundado em mil e novecentos e cinco por homens que não tinham medo de nada, não vai tremer diante de um resultado amargo em terras alheias.

A taça foi retirada. Mas Tântalo, por fim, foi libertado. E a fome que o suplício criou é a fome mais perigosa que existe.

Que os cearenses aproveitem o desempate. O Leão não se permitirá sentir sede para sempre.

terça-feira, 16 de junho de 2026

A magnanimidade dos reis

Há uma virtude que os povos antigos consideravam superior à própria vitória: a magnanimidade. Não a condescendência do poderoso que olha para baixo com pena mal disfarçada, não a arrogância disfarçada de generosidade — mas a magnanimidade genuína, aquela que os romanos chamavam de magnanimus, a grandeza de alma que se manifesta precisamente quando o grande poderia esmagar e, por nobre capricho, escolhe não esmagar. Augusto, depois de Actium, poderia ter enchido o Fórum Romano de cabeças cortadas. Não o fez. Não porque lhe faltasse poder, mas porque lhe sobrava grandeza. E foi essa grandeza, mais do que qualquer legião, que lhe garantiu o título de primeiro entre os homens.

Sport 0 x 0 São Bernardo

O Sport Club do Recife chegou ao Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, com aquela pose serena e levemente intimidante de quem sabe o que é, sabe o que carrega, e não precisa de alardes para provar coisa alguma. Sessenta e três por cento de posse de bola — sessenta e três por cento, senhoras e senhores — e vinte e três chutes, seis deles exigindo atenção do guardião adversário. Não é o retrato de um time acuado. É o retrato de um imperador que passeia pelos corredores do palácio do vizinho com as mãos nas costas, curioso, dominante, sem pressa de declarar guerra.

O São Bernardo, time que ostenta o nome de uma cidade industrial, de estradas e de fumaça, tentou o que pôde dentro do que lhe era permitido: resistir. E há uma certa dignidade nisso, não vou negar. Como há dignidade na tartaruga que se fecha na própria carapaça diante do leão. A carapaça segura. O leão, todavia, não deixa de ser leão.

Vinte e três chutes e o gol que não veio. Isso, convenhamos, é o tipo de coisa que faz o cronista buscar consolo nos clássicos — e os encontra, felizmente, porque os clássicos têm consolo para tudo. Hesíodo já sabia que os deuses escondem o fogo dos homens por puro capricho; Tchekhov sabia que o arma do primeiro ato nem sempre dispara; e qualquer torcedor do Leão com mais de quarenta anos sabe que há noites em que a bola simplesmente não quer entrar, como se o próprio universo tivesse decidido adiar a festa por razões que só ele conhece. O Sport criou; o Sport pressionou; o Sport mandou no jogo de ponta a ponta. A bola, que é democrática e às vezes idiota, permaneceu longe das redes.

Mas voltemos à magnanimidade, que é onde esta crônica quer chegar. Empatar contra o São Bernardo, fora de casa, dominando a partida com a displicência aristocrática de quem tem outras guerras maiores para vencer, não é derrota. Não é sequer tropeço — e digo isso lembrando do que escrevi aqui há algumas semanas, sobre a pedra no caminho e a moira dos gregos. Aquele era um tropeço com sabor de injustiça. Isso aqui é outra coisa: é o grande navegador que, no meio de um cruzeiro tranquilo, encontra vento contrário por uma hora e chega ao porto com quarenta minutos de atraso. Incomoda. Não abala.

Vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este país de dimensões bíblicas sabem, no fundo de suas almas feridas e esperançosas, que um time que domina com sessenta e três por cento de posse, que arrisca vinte e três vezes, que não se curva, que não recua, que não entrega — esse time não está perdendo tempo. Esse time está amadurecendo. Está afinando o instrumento antes do concerto. E o concerto, que fique claro, está próximo.

A grandeza de Augusto não estava em Actium. Estava nos quarenta anos que se seguiram. O Leão está no meio do caminho, de pé, com sessenta e três por cento da bola e vinte e três razões para acreditar que o gol virá. Virá com a inevitabilidade das coisas que foram muito desejadas por gente que não tem o hábito de desistir.

Que o São Bernardo guarde bem essa carapaça. Na próxima vez, pode não ser suficiente.

domingo, 31 de maio de 2026

O filho pródigo da Ilha

Há uma figura que atravessa os séculos com uma tenacidade que confunde e emociona: a do filho que retorna. Não o filho que jamais partiu, que ficou na varanda contemplando o horizonte com olhos mortiços e alma entorpecida pelo conforto da mesmice — esse não tem história, não tem épica, não tem canção. O filho que retorna é aquele que saiu, que errou, que se perdeu nos descaminhos do mundo, que comeu pão amargo na mesa de estranhos e dormiu sob céus que não eram os seus; e que, num determinado instante, reconhece nos próprios passos o caminho de volta para casa. Lucas narrou essa parábola com uma delicadeza quase cruel; Dostoievski a reescreveu em prosa de fogo nos subterrâneos da alma russa. O que ambos entenderam, cada qual a seu modo, é que o regresso não é fraqueza. É, na verdade, a forma mais elevada de coragem.

Sport 2 x 0 Náutico

A Ilha do Retiro — e o próprio nome já é uma parábola, já é uma promessa, já é um destino — recebeu ontem, sob o céu de um maio que teima em não se despedir, aquele Náutico que por tantas décadas foi o vizinho incômodo, o primo encrenqueiro, o rival de bairro que aparece na festa sem ser chamado e ainda tem a petulância de disputar o último pedaço do bolo. O clássico pernambucano tem desse sabor: não é rivalidade de estádio apenas, é rivalidade de rua, de calçada, de família dividida à mesa do almoço. E é precisamente por isso que vencer o Náutico não é apenas vencer um adversário — é uma afirmação de território, de identidade, de que esta cidade é vermelha e preta e continua pertencendo a quem sempre pertenceu.

Chrystian Barletta, esse rapaz de chuteiras furiosas e temperamento de gladiador, foi o instrumento escolhido pelo destino para executar a sentença. Aos vinte e oito minutos, a pena máxima — que o vulgo chama de pênalti com aquela displicência de quem não entende o peso do momento — convertida com a frieza de quem nunca duvidou da própria pontaria: canto esquerdo, fundo da rede, silêncio dos visitantes, explosão dos que vestem o rubro-negro. Uma estocada de espadachim que aprendeu a matar com precisão cirúrgica. O mesmo Chrystian voltaria ao palco no ocaso da partida, já aos oitenta e três minutos, desta vez recebendo o passe de Carlos De Peña, o uruguaio de alma tangueira e cruzamentos que parecem rasgar as veias da América Latina, para concluir de perto, com a naturalidade de quem está em casa, porque estava, literalmente, em casa. Dois a zero. Jogo encerrado. Julgamento proferido.

Dirão os mal-avisados que o Sport dominou pouco a posse de bola; que os números frios apontam para apenas 39 por cento do tempo com a redonda nos pés; que os chutes foram apenas oito, míseros oito, como se a eficiência de um predador se medisse pela quantidade de garras e não pela precisão da dentada. Absurdo. O leão não precisa correr atrás de toda gazela que passa; ele escolhe, ele aguarda, ele ataca quando o momento convém. E quando ataca, a conta se paga em sangue.

O Náutico, o velho Timbu — e é preciso ter alguma compaixão pelo vizinho que saiu da Ilha com as mãos abanando, mancando e machucado — tentou o que podia com o que tinha. Mas há derrotas que não são acidentes; são, antes, a revelação de uma hierarquia que o tempo inscreveu em letras maiúsculas na história do futebol pernambucano. E resistir ao Sport na Ilha, especialmente a um Sport que encontrou o ritmo e o gosto do sangue, é exercício de futilidade heróica. Os visitantes foram desbaratados sem violência excessiva, como se desfaz um castelo de areia: gentilmente, com a maré certa, no momento oportuno.

Depois do que escrevi na quarta passada sobre a odisseia rubro-negra — aquele elã homérico do viajante que insiste em voltar para casa —, esta vitória tem um sabor particular de continuidade, de narrativa que se recusa a encerrar em nota trágica. A Série B é um labirinto de armadilhas e ilusões, e cada vitória no clássico é um fio de Ariadne que nos guia um passo a mais para fora do labirinto. Essa vitória confirma o que a anterior apenas insinuava: este Sport não está apenas jogando, está construindo. E há uma diferença enorme entre um time que acumula resultados e um time que ergue um monumento.

O Sport venceu o clássico, fez dois, manteve o zero, mandou recado à tabela e à galera, e fez tudo isso com dezoito faltas cometidas que dizem, sem pudor, que este elenco não veio para dançar quadrilha. Veio para brigar pela Série A, com as unhas, com os dentes, com a alma que a camisa vermelha e preta exige de quem a veste.

O filho pródigo foi recebido com festa. E a festa, senhoras e senhores, está apenas começando.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Ano que vem, em Jerusalém!

Não há reino, por mais ungido pelos céus, por mais cingido de muralhas e de fé, que não conheça a véspera de sua própria queda. As cidades santas ardem; os estandartes tombam; os mantos sagrados rasgam-se; as torres que pareciam eternas viram pó sob o vento do deserto. E, no entanto, há uma verdade que os séculos não lograram desmentir: a grandeza de um rei jamais se mede pela muralha que ruiu, mas pelas batalhas que ele venceu quando ninguém, em sã consciência, lhe dava o direito de vencer.

Balduíno era o quarto de seu nome e reinou em Jerusalém num corpo que os deuses pareciam ter amaldiçoado. Leproso desde os treze anos, a carne lentamente abandonando-o, cego no fim, sem o uso das próprias mãos, foi levado em liteira ao campo de Montgisard — e ali, com um punhado de cavaleiros, desbaratou a hoste imensa de Saladino, que descia como maré sobre o seu pequeno reino. Imaginem a cena: um Rei fraco, doentio, um menino moribundo, erguendo a Vera Cruz acima da própria ruína, fazendo recuar o maior sultão que o Oriente já produziu...! Houve glória mais improvável? Houve heroísmo mais sincero? Houve coragem mais pura do que a daquele que combate já sabendo que o seu corpo o trai?

Saladino também era grande — cavalheiresco, paciente, inexorável como a areia. Sabia esperar. E esperou. Morto Balduíno, o reino que ele segurara começou a esfarelar; e em Hattin, anos depois, sob um sol que cozinhava as armaduras, a cidade santa enfim se rendeu ao crescente. Mas Hattin não foi a derrota de Balduíno. A lenda do rei leproso vive em Montgisard, não na muralha que outros não souberam defender.



Pois bem, amigos. Poucos dias atrás eu escrevia, nestas mesmas linhas, sobre o covil do inimigo conquistado — sobre a viagem ao Castelão, sobre os dois a um trazidos do território hostil como quem traz despojos de uma cruzada vitoriosa. Aquele, senhoras e senhores, foi o nosso Montgisard. E ontem, sob os refletores da Ilha do Retiro, restava apenas guardar a cidade. Apenas segurar a muralha. O Leão jogava pelo empate; tinha o reino nas mãos.

E então as luzes tremeluziram. Não é invenção de cronista: os refletores oscilaram, a partida atrasou cinco minutos, e quem tem olhos para os augúrios sentiu um arrepio. Ainda assim o Leão atacou primeiro, e atacou bem: Perotti, de fora da área, lançou um petardo que morreu nas mãos de um demônio pagão travestido de goleiro. Mais tarde, Felipinho cruzou, Madson subiu mais alto que toda a defesa cearense e cabeceou com a fúria de quem quer emoldurar a vaga — e de novo aquele João Ricardo, muralha de carne e reflexo, de turbante e iatagã, espalmou o que parecia gol. A Vera Cruz fora erguida. Faltou apenas que o céu olhasse.

Mistérios da Providência e do Olimpo do Futebol: o céu não olhou. Aos trinta e cinco, Mucuri cruzou, Miritello subiu, e a primeira ferida igualou o duelo das duas mãos. Depois veio Vitinho, e a cidade santa caiu. Coisa pouca para narrar e muita para sentir. Mas que ninguém ouse dizer que o Leão tombou por covardia: bateu à porta, esmurrou a muralha adversária, e foi detido não pela própria fraqueza, mas por um goleiro de pedra e por aquele azar antigo a que os gregos davam o nome de moira e nós, mais pobres, chamamos apenas de noite ruim. Ao Fortaleza, esse Saladino do Pici que segue cavalheiro rumo à sua final, conceda-se esta noite — com a serenidade de quem sabe que a glória maior já fora escrita no deserto, e não aqui.

Porque a cinza, vinte e cinco milhões de rubro-negros bem o sabem, é o leito da fênix. Há outra cruzada à espera, há uma Série B inteira por reconquistar, há o regresso à corte de onde nunca deveríamos ter saído. Jerusalém cai uma noite; a fé que a ergueu não cabe em muralha alguma.

Balduíno venceu deitado. O Leão de pé derrubará fortalezas e restaurará a glória do manto rubro-negro. Ano que vem, em Jerusalém.

domingo, 24 de maio de 2026

O grito do viajante

Há algo de profundamente homérico na condição do viajante que parte sem a certeza do regresso: aquele que abandona o porto familiar, enfrenta mares hostis e povos estranhos, e precisa, a cada aurora, reconquistar o direito de seguir em frente. Odisseu não era o mais forte dos guerreiros aqueus; não possuía a fúria de Aquiles nem a envergadura de Ájax. Tinha, porém, o que os deuses concedem apenas aos eleitos: a capacidade de resistir, de dobrar-se sem quebrar, de encontrar no último átimo o caminho de volta para casa. É esse o dom dos grandes. É essa a marca dos que foram feitos para durar.

Sport 1 x 0 Juventude

Ironia dos deuses. O Sport trafega há meses por esses mares bravios da Série B — longe do Olimpo que lhe é de direito, longe das iluminadas noites da primeira divisão, visitando portos de segunda categoria que jamais o merecem como hóspede. E no último sábado, na austera e fria Caxias do Sul, naquele estádio do Alfredo Jaconi que se ergue entre pinheiros como um forte de guerra sulista, o Leão do Recife enfrentou a resistência do Juventude com a paciência do navegante que sabe que a tempestade passa e que o porto, por mais distante que pareça, existe. Sempre existiu.

Não foi espetáculo dos deuses, confessemo-lo sem desvelo: quarenta e sete por cento de posse de bola, treze faltas cometidas, apenas duas finalizações que olharam de verdade para o gol adversário. A geometria fria dos números diria, ao observador desavisado, que o Sport esteve contido, macambúzio quase, cerceado pelo ímpeto dos gaúchos em sua própria casa. Digo contido — e poderia dizer mais: pressionado, acuado por instantes, testado na fé. Mas que digo? O Sport não se abateu. O Sport nunca se abate. Há uma teimosia rubro-negra que desafia a lógica, que insulta a estatística, que ri na cara da adversidade como Odisseu ria dos pretendentes que julgavam Ítaca já conquistada.

E foi então que, aos oitenta e dois minutos de batalha, quando o Juventude já pensava ter segurado o empate como quem segura o ouro com as mãos trêmulas, foi então, eu dizia, que Chrystian Barletta, com a visão do estrategista que enxerga o que os outros não veem, encontrou Iury Castilho; e Iury, com aquela frieza beneditina de quem sabe que este é o momento para o qual nasceu, ajeitou o corpo, mirou o canto inferior esquerdo e, com uma batida de pé direito de fora da área que cortou o ar frio serrano como uma lança atirada pelos deuses, fez a bola beijar a rede do Juventude. Um a zero. Apenas um. Mas que um: esse um que vale mais do que centenas de chutes errados, mais do que anos de silêncio, mais do que toda a quietude daquela noite gaúcha que tentou engolir o Leão e não conseguiu.

O Juventude ficou ali, atordoado, tentando entender o que o havia atropelado naqueles últimos minutos. Há quase compaixão a despertar, é verdade, pela velha Caxias que viu seu estádio silenciar num instante; mas o cosmos não distribui vitórias por piedade — distribui-as por mérito, por persistência, por aquela virtude silenciosa de quem aguenta o oitavo, o nono e o décimo assalto sem cair. Os vinte e um milhões de rubro-negros espalhados pelos quatro cantos deste país, do Recife quente à diáspora longínqua, sentiram naquele gol tardio a confirmação do que sempre souberam: o Leão pode demorar, mas chega.

A Série B é longa, seus mares são traiçoeiros e seus escolhos são muitos. Mas Odisseu chegou a Ítaca. E o Sport chegará ao seu destino.

A jornada continua. E o Leão rugiu em Caxias do Sul.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O leão no covil do inimigo

Todos sabem, percebem, entendem facilmente que o território do inimigo é o lugar onde os fracos definham e os grandes se consagram. Os espartanos — esses homens de ferro que bebiam cicuta com a mesma serenidade com que bebiam vinho — não temiam a batalha em campo adverso; ao contrário, era precisamente ali, cercados de hostilidade, longe dos aplausos domésticos, que a virtude guerreira se manifestava em seu estado mais puro e mais belo. Porque é fácil ser herói em casa, rodeado de afeto e de familiaridade; o verdadeiro teste da grandeza é suportar, e vencer!, quando tudo conspira contra.

Sport 2 x 1 Fortaleza

O Fortaleza é, convenhamos, um adversário de respeito: digo isso sem ironia e sem condescendência. O Tricolor cearense construiu, nos últimos anos, uma reputação de fortaleza (valha-nos aqui o trocadilho involuntário) particularmente no seu domínio: o Castelão, aquela arena monumental que ergue seus muros cinzentos à beira do sertão nordestino como uma cidadela medieval. Ali o Fortaleza recebe os adversários com a arrogância de quem conhece cada palmo do chão, cada rajada do vento, cada grito da sua massa. Ali já ocorreu de times de todas as estirpes chegarem confiantes e partirem cabisbaixos, com a certeza amarga de que haviam subestimado o poderio da casa. Não é, portanto, território para pernetas nem para corações tímidos.

E foi exatamente nesse covil — nessa arena que deveria ser tumba de esperanças rubro-negras — que o Glorioso Sport Club do Recife entrou com a soberba discreta dos que sabem o que valem. Sim, senhoras e senhores: o Leão do Recife, visitante na Copa do Nordeste, em pleno Castelão, diante da massa tricolor que urrava como se urrava antigamente nas arenas romanas, não apenas compareceu; dominou, sofreu, resistiu e, no fim, venceu. Dois a um. Placar curto na frieza dos algarismos, mas imenso, imensurável, no que representa para os quase vinte e dois milhões de rubro-negros espalhados pelo mundo.

No início da partida, como sói acontecer nessas batalhas épicas, por um instante, um suspiro, um átimo, parece que o time da casa chegou a acreditar que o destino lhe sorria, que a lógica do futebol e da geografia lhe seria favorável, que o Leão, longe de sua Ilha amada, se dobrava. Tudo ilusão, tudo miragem. O Leão não pediu licença. Simplesmente entrou e tomou o que era seu. Meteu logo dois gols e escancarou o placar. Ali já era.

Que digo? Já era antes de começar, quando o sagrado manto rubro-negro entrou no Castelão com a coragem dos gladiadores que diziam morituri te salutant diante dos imperadores. Perdão, que me confundo com o latim. Ontem o esquete sagrado do Sport gritou galhardamente Vini, Vidi, Vici! na cara dos cearenses. Vitória fora de casa, na Copa do Nordeste, diante de um adversário que se julgava senhor absoluto do seu destino naquela noite: isso não é detalhe, não é circunstância menor a ser varrida para debaixo do tapete das estatísticas. É sinal. É a manifestação concreta daquela verdade espartana que evoquei no início: os grandes não escolhem o campo de batalha, fazem do campo de batalha, qualquer campo, o lugar da sua consagração. E o Sport, com dois gols marcados no coração do Ceará, escreveu mais um capítulo dessa história longa, teimosa e gloriosa.

O Fortaleza ficará, certamente, a remoer a derrota — esse gosto amargo que os derrotados carregam por dias, semanas, à procura de uma explicação que a lógica jamais fornece completamente. Porque não há lógica que explique o Leão quando ele decide que é hora. Há apenas a constatação, sempre tardia, de que se deveria ter tomado mais cuidado com a fera.

Sim, amigos. Ontem à noite, no covil do inimigo, quem jantou foi o Leão.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A pedra no caminho

Há uma certa beleza cruel no tropicão — não naquele tropeço doméstico, banal, de quem escorrega no próprio quintal por distração ou preguiça, mas no tropeço que vem carregado de injustiça, de fatalidade, de uma daquelas ironias que os gregos chamavam de moira e que os modernos, menos poéticos, chamam simplesmente de azar. Drummond, o poeta de Itabira, sabia disso quando escreveu seu verso mais célebre: no meio do caminho tinha uma pedra. A pedra não tem sentimentos. A pedra não raciocina. A pedra apenas está — e o viajante, por mais nobre que seja seu destino, por mais firmes que sejam seus passos, às vezes tropeça nela. Não porque seja fraco. Não porque mereça a queda. Mas porque a pedra, naquele dia, estava exatamente onde o destino, com sua ironia característica, a havia colocado.

Sport 1 x 2 CRB

Pois bem: na noite deste décimo sétimo dia de maio de dois mil e vinte e seis, uma pedra chamada CRB postou-se no meio do caminho do Sport Club do Recife. Não foi uma pedra gloriosa, daquelas que esculpem herois e forjam lendas; foi uma pedra pálida, alagoana, que pouco tinha a oferecer além da obstinação de quem nada tem a perder. E o Leão — meu Leão, o Leão de vinte e um milhões de rubro-negros espalhados pelos quatro cantos deste país — tropeçou. A Ilha do Retiro, aquele templo erguido sobre a memória de gerações de fiéis, assistiu calada a um resultado que a lógica repudia e que a história certamente saberá julgar com mais justiça do que o placar frio e impassível.

O CRB, como convém às criaturas que sabem que o tempo lhes é curto, lançou-se à tarefa de morder cedo. Foi o tal Mikael — nome de anjo para uma alma de salteador — quem, aos trinta e nove minutos do primeiro tempo, deu o primeiro golpe: um remate rasteiro e covarde, do tipo que os deuses do futebol jamais deveriam consentir, que entrou no alto da direita para inaugurar o marcador. A maldição do ex. A Ilha respirou fundo. O Leão recompôs a juba. Havia tempo. Havia história. Havia força. Mas o destino, como já dissemos, ontem era uma pedra — e o segundo golpe veio antes que o Sport pudesse reunir as suas forças. Aos cinquenta e nove minutos, um certo Danielzinho — nome diminutivo para uma afronta de tamanho considerável — colocou a segunda pedra no caminho do Leão, desta feita com um chute do centro da área para o canto inferior esquerdo que fez o silêncio na Ilha ficar ainda mais pesado, ainda mais denso, ainda mais ilegítimo.

Mas aqui reside a grandeza irredutível do Sport Clube do Recife: ele não se curva. Jamais se curvou; não vai começar agora. Aos setenta e oito minutos, como se a história precisasse registrar que o Leão esteve presente mesmo nas horas mais adversas, Pedro Perotti — com a ajuda providencial de Iury Castilho, que serviu o companheiro com a generosidade dos que acreditam — aproveitou a posição dentro da pequena área e colocou a bola no centro do gol com o pé esquerdo, devolvendo ao placar ao menos o mínimo de dignidade que a noite merecia. Um gol que não foi suficiente para vencer, mas que bastou para lembrar — ao CRB, à Série B e ao mundo inteiro — com quem estão lidando. O Sport terminou o jogo com cinquenta e cinco por cento de posse de bola, com treze chutes, com quatorze faltas cometidas por um adversário que entendia que só a violência da marcação poderia conter o que a técnica jamais conteria. Disse muito, esse número. Disse quase tudo.

Drummond, depois de encontrar a pedra no meio do caminho, não parou. Nunca parou. Continuou seu verso, continuou sua vida, continuou sua poesia — e a pedra ficou para trás, eternizada apenas como obstáculo superado, como ponto de passagem, como episódio menor de uma trajetória maior. É assim que vinte e um milhões de rubro-negros deverão encarar esta tarde de maio: não como tragédia, não como sinal de fraqueza, mas como a pedra drummondiana — inevitável, momentânea, incapaz de deter quem tem um destino à frente. O Leão sangrou na Ilha do Retiro; mas os leões sangram, e isso não os torna menos leões.

A pedra ficou no caminho. O Leão segue.

domingo, 10 de maio de 2026

A fênix sobre Campinas

Há uma lei não escrita, anterior ao futebol, anterior mesmo à civilização, que rege o movimento dos seres verdadeiramente grandes: eles podem ser derrubados, podem ser vergados, podem ser lançados ao chão com toda a violência que o acaso e o destino conspirem — mas não morrem. A fênix, aquela ave prodigiosa dos mitos do Oriente, não temia a chama porque sabia, em algum recôndito de sua natureza imortal, que de toda cinza nasce uma criatura mais formidável, mais ígnea, mais viva do que aquela que existia antes do fogo. Os egípcios a chamavam de benu; os gregos a batizaram com o nome que ficou para a eternidade. Mas seja qual for o nome que se dê, o fenômeno é sempre o mesmo: a destruição que pretendia ser definitiva converte-se, pela alquimia do espírito indomável, em ressurreição.

Sport 3 x 1 Ponte Preta

Pois bem, senhoras e senhores — o Sport Clube do Recife esteve em Campinas neste nono dia de maio de dois mil e vinte e seis, em casa alheia, no Moisés Lucarelli, palco de uma Ponte Preta que sonhava transformar a tarde em pesadelo visitante. E por vinte e três minutos — vinte e três, não mais — o pesadelo ensaiou sua forma: Danilo Barcelos, de cabeça, enviou a bola ao canto inferior com a convicção de quem crê ter decidido o destino. O Leão havia sofrido o primeiro bote. Caíra, brevíssimo, ao chão. Mas, tal qual a fênix sobre as próprias cinzas, levantou-se com uma pressa que beirava o desprezo pelo abatimento.

Porque Chrystian Barletta — este moço que parece ter sido forjado em oficina especial, onde se fundem a velocidade do trovão e a inteligência do estrategista — tomou a partida nas mãos com uma autoridade que nenhum adversário, nenhuma torcida campineira, nenhum destino desfavorável conseguiu lhe subtrair. Primeiro, serviu Felipinho com um passe de toureiro, preciso e cirúrgico, para que o camisa leonino fuzilasse o canto inferior e devolvesse à partida seu equilíbrio natural — que é, convém que se diga, o equilíbrio em que o Sport impera. Depois, já nos acrésimos do primeiro tempo, foi o próprio Chrystian quem, diante da marca do pênalti, olhou para a bola, olhou para o goleiro, e bateu para o centro com a fleuma de quem sabe que a fênix não erra duas vezes. Dois a um. A ressurreição estava consumada — faltava apenas a apoteose.

E ela veio, como sempre vem para os grandes: com elegância. Pedro Perotti, assistido pelo onipresente Chrystian — que neste dia parecia ter multiplicado a si mesmo pelos quatro cantos do campo —, disparou da entrada da área um projétil que encontrou o canto superior esquerdo com uma precisão que só os deuses da geometria poderiam aplaudir. Três a um. A Ponte Preta, que minutos antes sonhara com uma tarde gloriosa, olhava para o placar com a expressão perplexa de quem se vê, de repente, transformado em coadjuvante do próprio espetáculo. Que se faça justiça à velha Macaca: ela lutou, ela tentou, ela ousou cuspir fogo na direção do Leão. O Leão simplesmente o absorveu e o devolveu triplicado.

Cinquenta e dois vírgula quatro por cento de posse, dez finalizações, quatro no alvo — os números frios confirmam o que a narrativa já revelara com muito mais beleza: o Sport não apenas venceu; governou. Governou o espaço, governou o tempo, governou a narrativa daquele retângulo verde com a soberania tranquila de quem não precisa gritar para ser ouvido. Vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este Brasil e pelo mundo sentiram, cada um à sua maneira, o calor familiar daquela tarde — o calor de pertencer a algo que, mesmo quando tomba, renasce sempre maior e mais ardente do que era antes da queda.

A fênix não teme a chama. Nunca temeu. E esta tarde, em Campinas, ela voltou a provar por quê.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

A fortaleza que não cede

Há uma verdade que os séculos não lograram apagar, verdade que Tucídides percebeu antes de nós e que os construtores de muralhas repetiram em pedra e argamassa por todo o mundo conhecido: a resistência não é, em sua essência, um ato de força bruta — é, antes de tudo, um ato de vontade. Espartanos que resistiram nas Termópilas não eram maiores nem mais numerosos do que os persas que avançavam sobre eles como maré; eram, porém, animados por algo que não se mede em número de lanças ou cavaleiros: a convicção profunda de que aquele chão, aquele palmo de terra, não seria cedido. Jamais. A fortaleza não é feita de pedra, senhoras e senhores — é feita de alma.

Sport 1 x 0 ASA

Pois bem. Há, na Ilha do Retiro, algo da têmpera das Termópilas. Um espírito que se encarna no calcário daquelas arquibancadas, que sobe pelo ar carregado de suor e de canto e se deposita no peito de quem veste a camisa listrada de rubro e negro. Quem já pôs os pés naquele estádio sabe do que falo — sabe que a Ilha não é apenas um campo, não é apenas uma praça esportiva como tantas outras que espraiadas pelo Brasil afora compõem a paisagem do futebol. A Ilha é um organismo vivo, um ser que respira, que urge, que exige. E nesta quarta-feira do sexto dia de maio do ano de 2026, ela exigiu — e foi atendida.

O adversário desta tarde, o ASA de Arapiraca — essa tropa alagoana de esperanças tenazes e disposição inegável — chegou à Ilha com o ardor de quem tem algo a provar. E provou, sim, que não é tolo, que não é partido fácil, que sabe se organizar no campo e dificultar os caminhos do Leão. Mas há certas correntes contra as quais não se pode nadar por tempo demasiado longo; há certas marés que, por mais que o nadador se esforce, o empurram de volta à praia. O Sport, com a pachorra aristocrática de quem conhece o próprio valor, foi construindo sua pressão — aquela pressão silenciosa, quase litúrgica, que antecede o inevitável como o trovão antecede o raio.

E o inevitável veio. Veio com a precisão de quem não desperdiça o momento que o destino concede, veio com a energia represada de um clube que tem na Copa do Nordeste não apenas uma competição, mas uma declaração de pertencimento ao grande cenário do futebol desta terra vermelha de sol e de paixão. O gol que sagrou os três pontos foi o gol que a Ilha esperava, que os milhares que lá estavam pressentiam desde o apito inicial; foi aquele instante em que o cosmos, como dizem os físicos do espírito, se ordenou. O Leão rugiu. O ASA, que combateu com honra, curvou a cabeça — não com vergonha, mas com a dignidade de quem reconhece que, naquele retângulo, havia uma força maior em ação.

O resultado, um modesto 1 a 0 no árido vocabulário dos marcadores, não diz quase nada do que realmente se passou ali. Digo "quase nada" — e poderia dizer mais: não diz a ansiedade contida nas arquibancadas, não diz o esforço coletivo de um elenco que aprendeu, às duras penas das temporadas anteriores, que vitórias magras defendidas com unhas e dentes valem tanto quanto goleadas festivas. Valem mais, talvez. Porque ensinam algo que a fartura não ensina: que o resultado pertence a quem tem a coragem de sustentá-lo até o apito final, que a glória não é dada mas sim arrancada do peito do tempo.

Vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este mundo de Deus — em Recife, no Agreste, no sertão seco e bravo, no Sul e no exterior onde a diáspora pernambucana plantou bandeiras — souberam desta vitória e sentiram no peito aquela centelha conhecida. Aquela faísca que não se apaga. O Sport segue em frente na Copa do Nordeste com a solenidade de quem nunca duvidou que estava destinado a avançar, que a Ilha é fortaleza e não apenas estádio, que o Leão que ali habita não pede licença para ser grande — simplesmente o é.

As muralhas resistiram. O Leão reina.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O punho da Ilha

Há uma lei, tão antiga quanto os primeiros homens que se reuniram em campo aberto para disputar o favor dos deuses, segundo a qual a força verdadeira não se mede pelo fulgor dos dias fáceis — mede-se, isso sim, pela têmpera forjada nos dias de provação, pelo punho que se ergue com mais ímpeto precisamente quando o destino parece conspirar em sentido contrário. Os estoicos sabiam disso. Sêneca o proclamou com a clareza de quem já havia visto o Império tremer. E o futebol — essa liturgia coletiva, essa catedral sem teto erguida sobre gramados e suor — não faz mais que repetir, domingo após domingo, sábado após sábado, a mesma lição que a filosofia clássica nos legou: a virtude não é ornamento, é estrutura; não é pose, é osso.

Sport 2 x 0 Ceará

Conto mais. Havia, nos escritos de Marco Aurélio, uma noção que os comentadores modernos raramente saboreiam com o devido vagar: a de que o cosmos possui uma ordem imanente, uma lógica invisível que preside o movimento dos astros e dos homens, e que a tarefa do ser virtuoso é simplesmente alinhar-se a essa ordem — não forçá-la, não adulterá-la, mas reconhecê-la e obedecer-lhe com a dignidade de quem sabe que a desordem é sempre passageira. O caos, dizia o imperador-filósofo, é apenas a ordem que ainda não se revelou. E eu, junto com vinte e um milhões de rubro-negros, digo que há uma Ilha no Recife onde essa ordem cósmica tem endereço fixo, CEP conhecido, arquibancadas que rugem como a memória viva de tudo que já foi e de tudo que há de vir.

Neste domingo de maio, sob o céu de uma Ilha do Retiro que parecia ter guardado para si um tanto da fúria dos ventos do Atlântico, o Sport Clube do Recife recebeu o Ceará Sporting Club — time de tradição honesta, de gente que entende de bola, de nordestinos que carregam no peito o orgulho de Porangabuçu — e a eles mostrou, com a solenidade implacável de quem cumpre um rito, o que significa jogar em casa quando a casa é sagrada. O primeiro gol veio aos cinquenta e três minutos: Chrystian Barletta, sereno como um cirurgião diante do bisturi, colocou a bola no canto inferior direito, convertendo a penalidade com o pé esquerdo e com aquela quietude interior que só possuem os homens que não têm medo do peso do momento. Não houve tremor. Não houve dúvida. Houve apenas o gesto preciso, a execução irretocável, a confirmação de que existem jogadores feitos não de carne e osso somente, mas de alguma substância mais dura, mais nobre.

E se o primeiro gol foi a afirmação, o segundo foi a sentença. Aos setenta e um minutos, após cobrança de escanteio — esse lance de geometria e fé, em que onze homens disputam com a lei da gravidade o direito de tocar a bola antes que ela toque o chão —, Mádson se elevou pelo lado direito da pequena área com a autoridade de quem tem título de propriedade sobre aquele espaço aéreo, e cabeceou para o canto superior direito com uma violência serena que o poste não ousou contestar. Marlon fez o passe; Mádson fez a história. Dois a zero. O cosmos se ordenou. Marco Aurélio sorriu, algures entre os astros.

Ao Ceará, é preciso reconhecer, restou apenas a dignidade da derrota honrada — que não é pouca coisa, convenhamos. Vieram ao Recife dispostos, organizados, com a seriedade de quem entende que a Série B não perdoa hesitações. Partiram atordoados, sim — mas atordoados pelo mesmo Leão que já desbaratou sonhos mais arrogantes do que os seus. Não há vergonha no que lhes aconteceu. Há apenas a constatação simples, geométrica, de que neste domingo a ordem imanente do universo tinha o nome do Sport Clube do Recife escrito em letras maiúsculas, e contra isso não há tática que resista, não há esquema que prevaleça.

O Leão rugiu na Ilha. E a Ilha respondeu com vinte e um milhões de vozes.

A ordem está restaurada. Tremei.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

A Série A volta a ser um campeonato de elite

Há momentos históricos na história dos povos e do futebol. Os exércitos de Alexandre devastando Tebas em Queroneia; Balduíno IV dizimando o exército de Saladino em Monte Gisardo; ingleses e franceses no Marne, o Duque de Wellington em Waterloo. Sim, meus amigos, o futebol é um microcosmo do mundo ou, por outra: os campeonatos de futebol é que são um macrocosmo da história dos heróis e dos impérios, das guerras e das conquistas. Talvez não haja nada em milênios da humanidade que já não tenha se reproduzido, mais fielmente e com mais intensidade, dentro das quatro linhas dos gramados, onde 22 jogadores costumam se enfrentar com mais ferocidade do que mil exércitos militares.

Ontem o esquete sagrado do Sport envergou as armas rubro-negras para enfrentar o campeão da Baixada Santista com mais fúria do que a Macedônia às portas de Tebas, com mais confiança do que cruzados defendendo Jerusalém, com mais abnegação do que a França e a Inglaterra lutando lado a lado contra uma Alemanha que ainda não tinha nem a desculpa de ser nazista. E a verdade é que não se via um confronto assim talvez desde o fim do período napoleônico.

Meus amigos, aquele jogo de ontem tinha tudo para ser uma carnificina, uma sessão de extermínio, uma hecatombe. Vinte e cinco milhões de rubro-negros estavam com as atenções voltadas para a Ilha do Retiro: talvez há muito tempo um estádio de futebol não recebesse tanta atenção de um número tão grande de torcedores fanáticos. Há muito tempo uma vitória não era tão certa e, ao mesmo tempo, aguardada tão ansiosamente.

Foto: Terra

O Leão começou tímido, alguns diriam cauteloso; a verdade é que a fera estava sendo metódica. Cansando o adversário para, depois, dar-lhe o bote fatal. Somente ao final do primeiro tempo foi que Lucas Lima converteu o pênalti -- e, naquele gol, meus amigos, estava toda uma história, uma profecia, uma odisseia. Naquele gol estavam irmanadas a esperança e a certeza de vinte e cinco milhões de almas rubro-negras. Naquele gol, o futebol brasileiro voltou a respirar.

A etapa complementar foi somente jogar a pá de cal. Lucas Lima fez um segundo gol, e a torcida enlouqueceu; o Sport meteu logo depois o terceiro, e a nação rubro-negra esteve a ponto de quebrar as grades e invadir o gramado, para coroar imediatamente o Sport como Imperador Perpétuo do Futebol Brasileiro. Foi preciso que anulassem aquele gol para que a partida pudesse terminar. E, ao final, Barletta ainda perdeu um segundo pênalti com desdém, com orgulho, com fastio, como um soldado que, em meio à pilhagem, entorna ao chão uma garrafa de vinho caro somente para manifestar, com atos, a fartura em meio à qual se encontra, o desperdício que ele se permite realizar. Sim, meus amigos, aquele pênalti perdido humilhou mais o Santos que os outros três gols que ele havia levado.

O fato é que ontem o Sport bateu o Santos. Que digo? O Leão rubro-negro massacrou o Santos, devastou o Santos, atropelou o Santos; meus amigos, há quem jure que hoje de manhã, à Rua da Aurora, o peixe foi avistado boiando, morto, de barriga para cima, sendo arrastado pelas águas do Capibaribe que, à luz da manhã, tinham uns inusitados tons de preto e de vermelho. Eu não duvido. Absolutamente não duvido.

É necessário que a cidade do Recife celebre e se regozije, porque hoje o seu time, o seu maior time de futebol, o seu orgulho e sua alegria, amanheceu novamente na elite do Futebol Brasileiro, o lugar a que pertence por honra e por direito. E por conquista. Principalmente por conquista. Porque, meus amigos, nunca uma vaga foi conquistada com tanta garra, arrancada com tanta força, arrebatada com tanta paixão.

Junto ao peixe morto da Rua da Aurora foram avistadas, também, uma catita velha e uma cobra-cega. Arrastadas pela natureza, inermes, surdas aos gritos de comemoração que tomaram conta da cidade. Ano que vem, novamente a Série A do Campeonato Brasileiro vai voltar a ser de fato um torneio de elite. Em 2025, novamente vai valer a pena assistir ao Brasileirão. Até lá!

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

A fera está desembestada, infrene

A vitória no futebol é um conjunto de vários fatores. Há a habilidade individual, a preparação técnica, a qualidade dos jogadores, o entrosamento da equipe, o estado do campo, as condições climáticas, os torcedores, a arbitragem, o momento do time, os astros, o peso da camisa. Ninguém pode cravar o resultado de um jogo antes do fim da partida; aliás, é exatamente por isso que, nas casas de aposta, existe a loteria esportiva. O brasileiro simples há muito tempo entendeu aquilo que os comentaristas profissionais insistem em esquecer: cada jogo é uma batalha incerta, é um lance de dados, é um horizonte misterioso e incógnito no qual não se sabe o que vai se descortinar.

Veja-se o último jogo do Sport contra o Corinthians. O Leão estava na Z4 e, o Timão, na Libertadores da América. A desproporção era grotesca, infamante; parecia um pugilista bem treinado contra um moleque de briga de rua. Eis a verdade, meus amigos: existem certas situações em que a derrota não machuca tanto. Há certas batalhas que não é desonroso perder. No futebol há partidas que, perdidas, dão a sensação de se estar deixando escorrer preciosos pontos por entre os dedos da mão. Por outro lado, há rodadas das quais já se espera que não sairá nada mesmo. Essa era a opinião geral rubro-negra sobre a 24ª rodada do Brasileirão. Ninguém achava que iria sair nada para Pernambuco naquele sábado.

Mas há vários fatores que influenciam uma partida de futebol. E o Corinthians, velho freguês do Sport, deveria ter se lembrado disso antes de descer em Pernambuco com a arrogância paulistana que lhe é peculiar.

Foto: ge (MarlonCosta/Pernambuco Press)


Porque começou a partida e foi uma carnificina. Ninguém segura uma besta desenjaulada. O Sport calmo, frio, sereno, de uma serenidade psicopata, de uma frieza assassina, de uma calmaria de filme de terror. O Corinthians não se encontrava em campo e, por outra, aquele campo não era mesmo o lugar dele. Sim, amigos, a Arena Pernambuco rejeitou o Corinthians desde o primeiro minuto em campo. Basta ver como o time não conseguia desenvolver os lances, evoluir as jogadas, chegar até o adversário. Parecia que o Corinthians jogava não sobre um gramado, mas sobre um campo de espinhos, sobre uma vegetação densa e fechada que a todo momento se enroscava por suas pernas e o impedia de avançar.

Já o Sport estava em campo aberto, horizonte limpo, verdadeiro Rei da Selva dominando, imponente, a grama verde de São Lourenço da Mata. Já no primeiro campo abriu o placar, com um golaço de cabeça, logo em seguida anulado por um desses erros grotescos de arbitragem que nos fazem sinceramente perguntar para quê é que existem auxiliares nos campeonatos -- se, quando aparecem, marcam esses impedimentos sem pé nem cabeça. Mas nem mesmo isso abalou a moral do Leão, que seguiu dominando o jogo como se a arbitragem fosse, tão-somente, apenas mais um jogador alvinegro contra quem se tivesse que bater.

E, ao final, o gol, a glória. Belíssima tabelinha de Marcão com Mikael na entrada da grande área; depois Paulinho Moccelin recebe a bola do lado esquerdo, livre como um anistiado, leve como um quadro de Monet, solto como uma besta selvagem saltando sobre a presa. Foi um chute metódico, melódico, meteórico: meus amigos, naquele chute estava todo o eco do grito do gol contra o Grêmio de duas rodadas atrás. Eis a verdade: o Sport venceu o Corinthians lá em Porto Alegre. Aquele primeiro gol após dois meses de jejum foi um gol titânico, um gol com que se dava para vencer vários jogos. E estamos vendo, nas últimas partidas, os revérberos da Arena do Grêmio.

O Leão está imbatível. São seis gols em três jogos -- e isso sem contar o gol anulado de Sabino. É o único time do Brasileirão que conta, atualmente, com três vitórias seguidas. A fera está desembestada, infrene, em sua melhor forma. Que venha o Cuiabá.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Ninguém é mais vivo do que quem quase morreu

Dizem que a morte ensina. Ou melhor: estar diante da morte faz você encarar a vida com outros olhos. Ninguém vive tanto como quem já esteve morto. Quando o moribundo, já nos estertores da morte, decide levantar a cabeça, e lutar, e viver, aí, meus amigos, já não há mais nada nem ninguém no mundo que o possa segurar. A morte respeita quem a olha nos olhos e a enfrenta de cabeça erguida. Não existe ninguém mais vivo do que quem quase morreu e voltou.

O Sport esteve à beira do túmulo neste campeonato. O que digo? Esteve dentro do caixão já descido à terra. Já começavam a despejar melancolicamente, uma após outra, fúnebres pás de terra sobre a madeira vermelha e negra. Ninguém acreditava mais no Sport e, por outra: todos acreditavam na Série B. Até os times menores do ecossistema pernambucano -- a minhoca do canal e a catita da Rosa & Silva -- esqueciam-se da sua insignificância no enterro do Leão. Parecia que seu raquitismo esportivo, seu nanismo futebolístico, podiam ser deixados de lado no velório do adversário. Uma coisa assombrosa, os tricolores e os alvirrubros, dois defuntos desenterrados, trocando conversas de comadres junto ao Leão caído.

Houve um momento em que o time não suportou mais a humilhação. Sim, meus amigos, a verdade é esta: quem nasceu para Rei da Selva não aceita ser tratado como minhoca colorida ou gambá assustado. Dizem que a camisa pesa, o que é uma verdade, mas é preciso dizer ainda mais: a camisa levanta. O manto põe-se de pé. A tradição empurra para frente.

Falei aqui do gol de Gustavo, contra o Grêmio. Disse que não era um simples gol, que era uma profecia, um vaticínio. A vida da gente às vezes sofre reviravoltas por causa de um evento inesperado: golpes de sorte nos jogam por terra ou nos lançam aos ares. Sim, meus amigos, aquele gol mudou tudo. Ali, naquele balançar de redes, a besta enjaulada foi libertada e agora será difícil aos seus inimigos contê-la novamente. Agora é o poder e a hora do Leão. 

Foto: ge (Marlon Costa/Pernambuco Press)

Veja-se com que facilidade o Sport atropelou o Juventude ontem. Foram três gols em cima do visitante com uma fúria, com uma brutalidade que poderia parecer um exagero. Alguém disse que foi uma crueldade, uma humilhação desnecessária; meus amigos, a fera acorrentada há muito tempo não mede a sua força quando se põe em liberdade. Eis a verdade: o Leão está em frenesi, com gosto de sangue na boca, com os machucados do início do campeonato empurrando-lhe para adiante. A fera está cega de dor e de raiva contidas, em fúria assassina, estraçalhando quem quer que apareça na sua frente.

É até difícil escolher um lance do jogo para comentar. Mas seria uma indignidade não falar, aqui, do segundo gol do Leão, do golaço de Mikagol. O homem correu para a área como um náufrago corre para a praia. Olhava para a bola como quem perscruta o mar infinito no horizonte. Viu-a chegando com a euforia de um Robson Crusoé na iminência do resgate; e mandou-a para dentro da rede como um Tom Hanks sujo e ferido arremessando, furioso, Wilson para longe de si. Que bomba, meus amigos, que lance, que gol. Ali não falou a sorte nem a técnica, foi um lance de sobrevivência. Ali falou mais alto o instinto. Ali se operou o resgate. Ali o homem venceu.

Foram cinco gols em dois jogos após dois meses sem gols. A fera está solta de novo pelos campos brasileiros. Os adversários que se cuidem. O campeonato apenas começou.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

O gol que prenuncia a glória

O grande problema da paralisia é o ciclo vicioso que ela inaugura. Os músculos parados enrijecem, atrofiam; e uma musculatura atrofiada e rija tem baixa mobilidade e não se move como deveria. O fenômeno, que é conhecido há séculos pelos médicos e fisioterapeutas, verifica-se também, e com assombroso paralelismo, no futebol. Quanto mais um time perde, mais difícil lhe é voltar a vencer.

Porque a derrota e, mais ainda!, a sequência reiterada de derrotas provoca no time uma atrofia moral ainda mais grave do que a atrofia física. Sim, meus amigos, um paralítico que volta a andar depois de dois anos é menos assombroso do que um time que volta a vencer após dois meses. O milagre, no caso do futebol, é um portento ainda maior.

Foto: ge (Marcelo Oliveira/Futura Press)

O Glorioso estava nesta situação: não ganhava nada há oito jogos. Não marcava um gol -- um mísero gol! -- há oito partidas. Meus amigos, o futebol tem seus tempos próprios. Ninguém lembra o que aconteceu oito partidas atrás -- é como se fosse a infância profunda, a pré-história, o paleolítico do campeonato. Somente especialistas conseguem discorrer sobre o que ocorreu há um lapso tão grande de tempo: para o povo comum, para o chão-de-fábrica, o futebol que se comenta nos cafezinhos e que se discute nos bares é o do último fim de semana. No máximo, da semana passada, de quinze dias atrás. Mais do que isso, meus amigos, é outro mundo, é o pré-cambriano. Gerações de rubro-negros já se sentiam, assim, como se nunca tivessem visto seu time ganhar. Parecia que crianças haviam crescido sem jamais ver um gol do seu time. A situação estava deplorável.

Mas ontem tudo mudou. Ontem, jogando contra o Grêmio, lá na casa do adversário, os ventos começaram a soprar diferente e a sorte do time se transformou. Ontem se viu mais uma vez toda a beleza do Leão em fúria -- imponente, senhor-de-si, destroçando altivo quem estivesse à sua frente, estraçalhando os adversários com suas presas imortais. Ontem o Leão se fartou de churrasco nas terras gaúchas. E, agora, bem alimentado, pode recuperar o território perdido.

Porque o primeiro passo é sempre o mais importante. Para o maratonista acamado, a primeira vez em que ele se põe de pé sozinho é mais importante do que os primeiros quilômetros corridos após a doença. Uma vez que consiga se levantar -- uma vez que mostre a si mesmo não estar morto, paralítico e nem aleijado --, o atleta sabe que voltar aos pódios é apenas uma questão de tempo: o mais difícil ele já fez. A recuperação moral antecede e anuncia a recuperação física.

E ontem a moral rubro-negra se redescobriu. Ontem, após dois meses, um grito de gol se elevou da garganta de vinte e dois milhões de rubro-negros. Meus amigos, aquele gol, sozinho, foi toda uma goleada. Nunca um gol foi tão comemorado e digo ainda: o gol que balança uma rede após um tempo tão grande tem algo de místico, de sobrenatural, de pressagioso. A história nos mostra que este é o gol que prenuncia a glória.

Sim, meus amigos, aquilo não foi um simples gol. Foi uma profecia, um vaticínio. Um murmúrio antigo, de heróis de um passado longínquo e que já se acreditava enterrado, levantou-se ontem em Porto Alegre e se fez ouvir tonitruante por toda a terra. Forças profundas, ancestrais, selvagens foram liberadas ontem à noite, e agora é só deixá-las correr. O mais difícil já foi feito. Agora o Glorioso reencontrou o caminho da vitória e já pode voltar a sonhar com as alturas a que pertence por natureza, história e mérito.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

A final do Pernambucano não pode ser o fim do Futebol

A vitória do Náutico sobre o Glorioso na noite de ontem foi mais um desses fatos banais que, vistos em conjunto, devidamente contextualizados, sinalizam a grande crise do futebol. E todos sabemos que a crise do futebol é a própria crise do homem e da civilização -- e quando o esporte se barbariza é a História que desmorona.

Tudo começou algumas semanas antes, quando um conselheiro rubro-negro teceu alguns comentários ofensivos a determinado torcedor do Sport que havia ganhado notoriedade nacional à conta da sua manifesta homossexualidade. Ora, o referido torcedor é digno de todo o respeito e consideração, sem a menor sombra de dúvidas, em primeiríssimo lugar por ser humano e, em segundo lugar, por ser, dentre os humanos, pertencente à casta mais nobre e mais esclarecida, a mais digna e a mais evoluída: a dos milhões de torcedores do Glorioso Leão da Ilha do Retiro. Isso, por si só, já deveria encerrar o assunto.

Mas, não. Os bárbaros assolam o futebol com suas mentes tacanhas, senhoras e senhores, e hoje é muito difícil fugir deles. Transformaram o episódio em um ato de "homofobia" e resolveram promover "reparações" ao dito torcedor -- não pelo fato de ele ser humano, não pelo fato de ser torcedor do Sport, mas, vejam só, pela casualidade das suas preferências sexuais. Pintaram arcos-íris na Ilha do Retiro, conspurcaram o sagrado gramado com alegadas "danças" de qualidade animalesca. Fizeram um verdadeiro circo em cima de uma coisa séria e desrespeitaram e ofenderam, pela segunda vez, a dignidade do pobre torcedor -- a quem desde já prestamos nossa solidariedade. Gil do Vigor, saudações rubro-negras! Este colunista lamenta toda esta deplorável situação.

Não se diga nada contra as lutas identitárias, que têm a sua razão de ser e devem ser levadas a efeito por quem a elas se dedica com sinceridade. Mas o futebol não é e nem pode ser espaço para disputas políticas de nenhuma natureza, por uma razão muito simples: as cores dos times galvanizam paixões gregárias que transcendem absolutamente as características individuais dos torcedores. Dói ter que explicar o óbvio, mas é assim: debaixo do bandeirão da Jovem não existe nem pobre nem rico, nem ladrão nem policial, nem homem nem mulher, nem negro nem branco, nem nada disso: debaixo dos gritos da torcida organizada estão todos irmanados sob o vermelho e o negro no qual Stendhal se inspirou para narrar a sua história de ascensão social. E é assim com todo futebol. É este o papel civilizacional que o esporte realiza: ele reúne os diferentes e os iguala, irmãos, sob uma mesma camisa.

O futebol, senhoras e senhores, não é um esporte identitário, e isso é óbvio. Nós não assistimos aos jogos para nos identificar, em nossas individualidades, com os jogadores que entram em campo. Os brancos vibraram com as jogadas de Edson Arantes do Nascimento, um negro; os abstêmios comemoraram os lances de Diego Armando Maradona, um conhecido cocainômano. O que torna Messi admirável pelos autistas e pelos não autistas é o seu futebol, e não o seu TEA. E as mulheres assistem, com gosto, com garra, com paixão, o futebol masculino muito mais do que o feminino. Futebol não tem nada a ver com desrespeito de classe, de sexo, de gênero; quem não entende isso não sabe o que é futebol e também não sabe o que é respeito. 

Mas o Sport não soube dar essa resposta firme, óbvia, quando ela foi exigida pela horda de bárbaros que pedia a cabeça do Flávio Koury. Ao contrário, preferiu gaguejar e ceder espaço, dessacralizando o futebol -- levantando bandeiras estranhas e cantando músicas profanas dentro de um templo sagrado onde as únicas bandeiras que podem ser hasteadas são aquelas que envergam as cores do time, e onde os únicos hinos que podem ser entoados são os gritos de guerra da torcida. Deu no que deu.

Foto: JC Imagem

Na final do Pernambucano, nos pênaltis, o VAR mandou o Náutico bater de novo um pênalti que Maílson havia defendido. Gol. Marquinhos era o próximo a bater. Indignado, o meio-campista deve ter pensado em todas essas coisas, na decadência do futebol, no rebaixamento de um esporte sério e milenar às categorias de "lacração" e de "cancelamento" dos bárbaros contemporâneos. Viu tudo isso em um átimo e chutou a bola pra fora, com força, com raiva, como uma catarse, e naquele pênalti perdido estava toda uma desforra contra uma situação artificialmente insuportável. Náutico campeão. Parabéns aos últimos vinte e quatro alvirrubros, que há mais de cinquenta anos não viam uma coisa assim acontecer. A torcida deles não sabia nem o que fazer.

Que o futuro nos torne de volta à razão e nos reserve dias mais luminosos. Que os verdadeiros amantes do futebol não permitam que um esporte tão venerável chegue ao fim dessa maneira. Que os próximos campeonatos sejam melhores.