Há uma lei, tão antiga quanto os primeiros homens que se reuniram em campo aberto para disputar o favor dos deuses, segundo a qual a força verdadeira não se mede pelo fulgor dos dias fáceis — mede-se, isso sim, pela têmpera forjada nos dias de provação, pelo punho que se ergue com mais ímpeto precisamente quando o destino parece conspirar em sentido contrário. Os estoicos sabiam disso. Sêneca o proclamou com a clareza de quem já havia visto o Império tremer. E o futebol — essa liturgia coletiva, essa catedral sem teto erguida sobre gramados e suor — não faz mais que repetir, domingo após domingo, sábado após sábado, a mesma lição que a filosofia clássica nos legou: a virtude não é ornamento, é estrutura; não é pose, é osso.

Conto mais. Havia, nos escritos de Marco Aurélio, uma noção que os comentadores modernos raramente saboreiam com o devido vagar: a de que o cosmos possui uma ordem imanente, uma lógica invisível que preside o movimento dos astros e dos homens, e que a tarefa do ser virtuoso é simplesmente alinhar-se a essa ordem — não forçá-la, não adulterá-la, mas reconhecê-la e obedecer-lhe com a dignidade de quem sabe que a desordem é sempre passageira. O caos, dizia o imperador-filósofo, é apenas a ordem que ainda não se revelou. E eu, junto com vinte e um milhões de rubro-negros, digo que há uma Ilha no Recife onde essa ordem cósmica tem endereço fixo, CEP conhecido, arquibancadas que rugem como a memória viva de tudo que já foi e de tudo que há de vir.
Neste domingo de maio, sob o céu de uma Ilha do Retiro que parecia ter guardado para si um tanto da fúria dos ventos do Atlântico, o Sport Clube do Recife recebeu o Ceará Sporting Club — time de tradição honesta, de gente que entende de bola, de nordestinos que carregam no peito o orgulho de Porangabuçu — e a eles mostrou, com a solenidade implacável de quem cumpre um rito, o que significa jogar em casa quando a casa é sagrada. O primeiro gol veio aos cinquenta e três minutos: Chrystian Barletta, sereno como um cirurgião diante do bisturi, colocou a bola no canto inferior direito, convertendo a penalidade com o pé esquerdo e com aquela quietude interior que só possuem os homens que não têm medo do peso do momento. Não houve tremor. Não houve dúvida. Houve apenas o gesto preciso, a execução irretocável, a confirmação de que existem jogadores feitos não de carne e osso somente, mas de alguma substância mais dura, mais nobre.
E se o primeiro gol foi a afirmação, o segundo foi a sentença. Aos setenta e um minutos, após cobrança de escanteio — esse lance de geometria e fé, em que onze homens disputam com a lei da gravidade o direito de tocar a bola antes que ela toque o chão —, Mádson se elevou pelo lado direito da pequena área com a autoridade de quem tem título de propriedade sobre aquele espaço aéreo, e cabeceou para o canto superior direito com uma violência serena que o poste não ousou contestar. Marlon fez o passe; Mádson fez a história. Dois a zero. O cosmos se ordenou. Marco Aurélio sorriu, algures entre os astros.
Ao Ceará, é preciso reconhecer, restou apenas a dignidade da derrota honrada — que não é pouca coisa, convenhamos. Vieram ao Recife dispostos, organizados, com a seriedade de quem entende que a Série B não perdoa hesitações. Partiram atordoados, sim — mas atordoados pelo mesmo Leão que já desbaratou sonhos mais arrogantes do que os seus. Não há vergonha no que lhes aconteceu. Há apenas a constatação simples, geométrica, de que neste domingo a ordem imanente do universo tinha o nome do Sport Clube do Recife escrito em letras maiúsculas, e contra isso não há tática que resista, não há esquema que prevaleça.
O Leão rugiu na Ilha. E a Ilha respondeu com vinte e um milhões de vozes.
A ordem está restaurada. Tremei.
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