quinta-feira, 7 de maio de 2026

A fortaleza que não cede

Há uma verdade que os séculos não lograram apagar, verdade que Tucídides percebeu antes de nós e que os construtores de muralhas repetiram em pedra e argamassa por todo o mundo conhecido: a resistência não é, em sua essência, um ato de força bruta — é, antes de tudo, um ato de vontade. Espartanos que resistiram nas Termópilas não eram maiores nem mais numerosos do que os persas que avançavam sobre eles como maré; eram, porém, animados por algo que não se mede em número de lanças ou cavaleiros: a convicção profunda de que aquele chão, aquele palmo de terra, não seria cedido. Jamais. A fortaleza não é feita de pedra, senhoras e senhores — é feita de alma.

Sport 1 x 0 ASA

Pois bem. Há, na Ilha do Retiro, algo da têmpera das Termópilas. Um espírito que se encarna no calcário daquelas arquibancadas, que sobe pelo ar carregado de suor e de canto e se deposita no peito de quem veste a camisa listrada de rubro e negro. Quem já pôs os pés naquele estádio sabe do que falo — sabe que a Ilha não é apenas um campo, não é apenas uma praça esportiva como tantas outras que espraiadas pelo Brasil afora compõem a paisagem do futebol. A Ilha é um organismo vivo, um ser que respira, que urge, que exige. E nesta quarta-feira do sexto dia de maio do ano de 2026, ela exigiu — e foi atendida.

O adversário desta tarde, o ASA de Arapiraca — essa tropa alagoana de esperanças tenazes e disposição inegável — chegou à Ilha com o ardor de quem tem algo a provar. E provou, sim, que não é tolo, que não é partido fácil, que sabe se organizar no campo e dificultar os caminhos do Leão. Mas há certas correntes contra as quais não se pode nadar por tempo demasiado longo; há certas marés que, por mais que o nadador se esforce, o empurram de volta à praia. O Sport, com a pachorra aristocrática de quem conhece o próprio valor, foi construindo sua pressão — aquela pressão silenciosa, quase litúrgica, que antecede o inevitável como o trovão antecede o raio.

E o inevitável veio. Veio com a precisão de quem não desperdiça o momento que o destino concede, veio com a energia represada de um clube que tem na Copa do Nordeste não apenas uma competição, mas uma declaração de pertencimento ao grande cenário do futebol desta terra vermelha de sol e de paixão. O gol que sagrou os três pontos foi o gol que a Ilha esperava, que os milhares que lá estavam pressentiam desde o apito inicial; foi aquele instante em que o cosmos, como dizem os físicos do espírito, se ordenou. O Leão rugiu. O ASA, que combateu com honra, curvou a cabeça — não com vergonha, mas com a dignidade de quem reconhece que, naquele retângulo, havia uma força maior em ação.

O resultado, um modesto 1 a 0 no árido vocabulário dos marcadores, não diz quase nada do que realmente se passou ali. Digo "quase nada" — e poderia dizer mais: não diz a ansiedade contida nas arquibancadas, não diz o esforço coletivo de um elenco que aprendeu, às duras penas das temporadas anteriores, que vitórias magras defendidas com unhas e dentes valem tanto quanto goleadas festivas. Valem mais, talvez. Porque ensinam algo que a fartura não ensina: que o resultado pertence a quem tem a coragem de sustentá-lo até o apito final, que a glória não é dada mas sim arrancada do peito do tempo.

Vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este mundo de Deus — em Recife, no Agreste, no sertão seco e bravo, no Sul e no exterior onde a diáspora pernambucana plantou bandeiras — souberam desta vitória e sentiram no peito aquela centelha conhecida. Aquela faísca que não se apaga. O Sport segue em frente na Copa do Nordeste com a solenidade de quem nunca duvidou que estava destinado a avançar, que a Ilha é fortaleza e não apenas estádio, que o Leão que ali habita não pede licença para ser grande — simplesmente o é.

As muralhas resistiram. O Leão reina.

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