Há uma verdade que os séculos não lograram apagar, verdade que Tucídides percebeu antes de nós e que os construtores de muralhas repetiram em pedra e argamassa por todo o mundo conhecido: a resistência não é, em sua essência, um ato de força bruta — é, antes de tudo, um ato de vontade. Espartanos que resistiram nas Termópilas não eram maiores nem mais numerosos do que os persas que avançavam sobre eles como maré; eram, porém, animados por algo que não se mede em número de lanças ou cavaleiros: a convicção profunda de que aquele chão, aquele palmo de terra, não seria cedido. Jamais. A fortaleza não é feita de pedra, senhoras e senhores — é feita de alma.

Pois bem. Há, na Ilha do Retiro, algo da têmpera das Termópilas. Um espírito que se encarna no calcário daquelas arquibancadas, que sobe pelo ar carregado de suor e de canto e se deposita no peito de quem veste a camisa listrada de rubro e negro. Quem já pôs os pés naquele estádio sabe do que falo — sabe que a Ilha não é apenas um campo, não é apenas uma praça esportiva como tantas outras que espraiadas pelo Brasil afora compõem a paisagem do futebol. A Ilha é um organismo vivo, um ser que respira, que urge, que exige. E nesta quarta-feira do sexto dia de maio do ano de 2026, ela exigiu — e foi atendida.
O adversário desta tarde, o ASA de Arapiraca — essa tropa alagoana de esperanças tenazes e disposição inegável — chegou à Ilha com o ardor de quem tem algo a provar. E provou, sim, que não é tolo, que não é partido fácil, que sabe se organizar no campo e dificultar os caminhos do Leão. Mas há certas correntes contra as quais não se pode nadar por tempo demasiado longo; há certas marés que, por mais que o nadador se esforce, o empurram de volta à praia. O Sport, com a pachorra aristocrática de quem conhece o próprio valor, foi construindo sua pressão — aquela pressão silenciosa, quase litúrgica, que antecede o inevitável como o trovão antecede o raio.
E o inevitável veio. Veio com a precisão de quem não desperdiça o momento que o destino concede, veio com a energia represada de um clube que tem na Copa do Nordeste não apenas uma competição, mas uma declaração de pertencimento ao grande cenário do futebol desta terra vermelha de sol e de paixão. O gol que sagrou os três pontos foi o gol que a Ilha esperava, que os milhares que lá estavam pressentiam desde o apito inicial; foi aquele instante em que o cosmos, como dizem os físicos do espírito, se ordenou. O Leão rugiu. O ASA, que combateu com honra, curvou a cabeça — não com vergonha, mas com a dignidade de quem reconhece que, naquele retângulo, havia uma força maior em ação.
O resultado, um modesto 1 a 0 no árido vocabulário dos marcadores, não diz quase nada do que realmente se passou ali. Digo "quase nada" — e poderia dizer mais: não diz a ansiedade contida nas arquibancadas, não diz o esforço coletivo de um elenco que aprendeu, às duras penas das temporadas anteriores, que vitórias magras defendidas com unhas e dentes valem tanto quanto goleadas festivas. Valem mais, talvez. Porque ensinam algo que a fartura não ensina: que o resultado pertence a quem tem a coragem de sustentá-lo até o apito final, que a glória não é dada mas sim arrancada do peito do tempo.
Vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este mundo de Deus — em Recife, no Agreste, no sertão seco e bravo, no Sul e no exterior onde a diáspora pernambucana plantou bandeiras — souberam desta vitória e sentiram no peito aquela centelha conhecida. Aquela faísca que não se apaga. O Sport segue em frente na Copa do Nordeste com a solenidade de quem nunca duvidou que estava destinado a avançar, que a Ilha é fortaleza e não apenas estádio, que o Leão que ali habita não pede licença para ser grande — simplesmente o é.
As muralhas resistiram. O Leão reina.
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