Há uma lei não escrita, anterior ao futebol, anterior mesmo à civilização, que rege o movimento dos seres verdadeiramente grandes: eles podem ser derrubados, podem ser vergados, podem ser lançados ao chão com toda a violência que o acaso e o destino conspirem — mas não morrem. A fênix, aquela ave prodigiosa dos mitos do Oriente, não temia a chama porque sabia, em algum recôndito de sua natureza imortal, que de toda cinza nasce uma criatura mais formidável, mais ígnea, mais viva do que aquela que existia antes do fogo. Os egípcios a chamavam de benu; os gregos a batizaram com o nome que ficou para a eternidade. Mas seja qual for o nome que se dê, o fenômeno é sempre o mesmo: a destruição que pretendia ser definitiva converte-se, pela alquimia do espírito indomável, em ressurreição.

Pois bem, senhoras e senhores — o Sport Clube do Recife esteve em Campinas neste nono dia de maio de dois mil e vinte e seis, em casa alheia, no Moisés Lucarelli, palco de uma Ponte Preta que sonhava transformar a tarde em pesadelo visitante. E por vinte e três minutos — vinte e três, não mais — o pesadelo ensaiou sua forma: Danilo Barcelos, de cabeça, enviou a bola ao canto inferior com a convicção de quem crê ter decidido o destino. O Leão havia sofrido o primeiro bote. Caíra, brevíssimo, ao chão. Mas, tal qual a fênix sobre as próprias cinzas, levantou-se com uma pressa que beirava o desprezo pelo abatimento.
Porque Chrystian Barletta — este moço que parece ter sido forjado em oficina especial, onde se fundem a velocidade do trovão e a inteligência do estrategista — tomou a partida nas mãos com uma autoridade que nenhum adversário, nenhuma torcida campineira, nenhum destino desfavorável conseguiu lhe subtrair. Primeiro, serviu Felipinho com um passe de toureiro, preciso e cirúrgico, para que o camisa leonino fuzilasse o canto inferior e devolvesse à partida seu equilíbrio natural — que é, convém que se diga, o equilíbrio em que o Sport impera. Depois, já nos acrésimos do primeiro tempo, foi o próprio Chrystian quem, diante da marca do pênalti, olhou para a bola, olhou para o goleiro, e bateu para o centro com a fleuma de quem sabe que a fênix não erra duas vezes. Dois a um. A ressurreição estava consumada — faltava apenas a apoteose.
E ela veio, como sempre vem para os grandes: com elegância. Pedro Perotti, assistido pelo onipresente Chrystian — que neste dia parecia ter multiplicado a si mesmo pelos quatro cantos do campo —, disparou da entrada da área um projétil que encontrou o canto superior esquerdo com uma precisão que só os deuses da geometria poderiam aplaudir. Três a um. A Ponte Preta, que minutos antes sonhara com uma tarde gloriosa, olhava para o placar com a expressão perplexa de quem se vê, de repente, transformado em coadjuvante do próprio espetáculo. Que se faça justiça à velha Macaca: ela lutou, ela tentou, ela ousou cuspir fogo na direção do Leão. O Leão simplesmente o absorveu e o devolveu triplicado.
Cinquenta e dois vírgula quatro por cento de posse, dez finalizações, quatro no alvo — os números frios confirmam o que a narrativa já revelara com muito mais beleza: o Sport não apenas venceu; governou. Governou o espaço, governou o tempo, governou a narrativa daquele retângulo verde com a soberania tranquila de quem não precisa gritar para ser ouvido. Vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este Brasil e pelo mundo sentiram, cada um à sua maneira, o calor familiar daquela tarde — o calor de pertencer a algo que, mesmo quando tomba, renasce sempre maior e mais ardente do que era antes da queda.
A fênix não teme a chama. Nunca temeu. E esta tarde, em Campinas, ela voltou a provar por quê.





