domingo, 10 de maio de 2026

A fênix sobre Campinas

Há uma lei não escrita, anterior ao futebol, anterior mesmo à civilização, que rege o movimento dos seres verdadeiramente grandes: eles podem ser derrubados, podem ser vergados, podem ser lançados ao chão com toda a violência que o acaso e o destino conspirem — mas não morrem. A fênix, aquela ave prodigiosa dos mitos do Oriente, não temia a chama porque sabia, em algum recôndito de sua natureza imortal, que de toda cinza nasce uma criatura mais formidável, mais ígnea, mais viva do que aquela que existia antes do fogo. Os egípcios a chamavam de benu; os gregos a batizaram com o nome que ficou para a eternidade. Mas seja qual for o nome que se dê, o fenômeno é sempre o mesmo: a destruição que pretendia ser definitiva converte-se, pela alquimia do espírito indomável, em ressurreição.

Sport 3 x 1 Ponte Preta

Pois bem, senhoras e senhores — o Sport Clube do Recife esteve em Campinas neste nono dia de maio de dois mil e vinte e seis, em casa alheia, no Moisés Lucarelli, palco de uma Ponte Preta que sonhava transformar a tarde em pesadelo visitante. E por vinte e três minutos — vinte e três, não mais — o pesadelo ensaiou sua forma: Danilo Barcelos, de cabeça, enviou a bola ao canto inferior com a convicção de quem crê ter decidido o destino. O Leão havia sofrido o primeiro bote. Caíra, brevíssimo, ao chão. Mas, tal qual a fênix sobre as próprias cinzas, levantou-se com uma pressa que beirava o desprezo pelo abatimento.

Porque Chrystian Barletta — este moço que parece ter sido forjado em oficina especial, onde se fundem a velocidade do trovão e a inteligência do estrategista — tomou a partida nas mãos com uma autoridade que nenhum adversário, nenhuma torcida campineira, nenhum destino desfavorável conseguiu lhe subtrair. Primeiro, serviu Felipinho com um passe de toureiro, preciso e cirúrgico, para que o camisa leonino fuzilasse o canto inferior e devolvesse à partida seu equilíbrio natural — que é, convém que se diga, o equilíbrio em que o Sport impera. Depois, já nos acrésimos do primeiro tempo, foi o próprio Chrystian quem, diante da marca do pênalti, olhou para a bola, olhou para o goleiro, e bateu para o centro com a fleuma de quem sabe que a fênix não erra duas vezes. Dois a um. A ressurreição estava consumada — faltava apenas a apoteose.

E ela veio, como sempre vem para os grandes: com elegância. Pedro Perotti, assistido pelo onipresente Chrystian — que neste dia parecia ter multiplicado a si mesmo pelos quatro cantos do campo —, disparou da entrada da área um projétil que encontrou o canto superior esquerdo com uma precisão que só os deuses da geometria poderiam aplaudir. Três a um. A Ponte Preta, que minutos antes sonhara com uma tarde gloriosa, olhava para o placar com a expressão perplexa de quem se vê, de repente, transformado em coadjuvante do próprio espetáculo. Que se faça justiça à velha Macaca: ela lutou, ela tentou, ela ousou cuspir fogo na direção do Leão. O Leão simplesmente o absorveu e o devolveu triplicado.

Cinquenta e dois vírgula quatro por cento de posse, dez finalizações, quatro no alvo — os números frios confirmam o que a narrativa já revelara com muito mais beleza: o Sport não apenas venceu; governou. Governou o espaço, governou o tempo, governou a narrativa daquele retângulo verde com a soberania tranquila de quem não precisa gritar para ser ouvido. Vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este Brasil e pelo mundo sentiram, cada um à sua maneira, o calor familiar daquela tarde — o calor de pertencer a algo que, mesmo quando tomba, renasce sempre maior e mais ardente do que era antes da queda.

A fênix não teme a chama. Nunca temeu. E esta tarde, em Campinas, ela voltou a provar por quê.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

A fortaleza que não cede

Há uma verdade que os séculos não lograram apagar, verdade que Tucídides percebeu antes de nós e que os construtores de muralhas repetiram em pedra e argamassa por todo o mundo conhecido: a resistência não é, em sua essência, um ato de força bruta — é, antes de tudo, um ato de vontade. Espartanos que resistiram nas Termópilas não eram maiores nem mais numerosos do que os persas que avançavam sobre eles como maré; eram, porém, animados por algo que não se mede em número de lanças ou cavaleiros: a convicção profunda de que aquele chão, aquele palmo de terra, não seria cedido. Jamais. A fortaleza não é feita de pedra, senhoras e senhores — é feita de alma.

Sport 1 x 0 ASA

Pois bem. Há, na Ilha do Retiro, algo da têmpera das Termópilas. Um espírito que se encarna no calcário daquelas arquibancadas, que sobe pelo ar carregado de suor e de canto e se deposita no peito de quem veste a camisa listrada de rubro e negro. Quem já pôs os pés naquele estádio sabe do que falo — sabe que a Ilha não é apenas um campo, não é apenas uma praça esportiva como tantas outras que espraiadas pelo Brasil afora compõem a paisagem do futebol. A Ilha é um organismo vivo, um ser que respira, que urge, que exige. E nesta quarta-feira do sexto dia de maio do ano de 2026, ela exigiu — e foi atendida.

O adversário desta tarde, o ASA de Arapiraca — essa tropa alagoana de esperanças tenazes e disposição inegável — chegou à Ilha com o ardor de quem tem algo a provar. E provou, sim, que não é tolo, que não é partido fácil, que sabe se organizar no campo e dificultar os caminhos do Leão. Mas há certas correntes contra as quais não se pode nadar por tempo demasiado longo; há certas marés que, por mais que o nadador se esforce, o empurram de volta à praia. O Sport, com a pachorra aristocrática de quem conhece o próprio valor, foi construindo sua pressão — aquela pressão silenciosa, quase litúrgica, que antecede o inevitável como o trovão antecede o raio.

E o inevitável veio. Veio com a precisão de quem não desperdiça o momento que o destino concede, veio com a energia represada de um clube que tem na Copa do Nordeste não apenas uma competição, mas uma declaração de pertencimento ao grande cenário do futebol desta terra vermelha de sol e de paixão. O gol que sagrou os três pontos foi o gol que a Ilha esperava, que os milhares que lá estavam pressentiam desde o apito inicial; foi aquele instante em que o cosmos, como dizem os físicos do espírito, se ordenou. O Leão rugiu. O ASA, que combateu com honra, curvou a cabeça — não com vergonha, mas com a dignidade de quem reconhece que, naquele retângulo, havia uma força maior em ação.

O resultado, um modesto 1 a 0 no árido vocabulário dos marcadores, não diz quase nada do que realmente se passou ali. Digo "quase nada" — e poderia dizer mais: não diz a ansiedade contida nas arquibancadas, não diz o esforço coletivo de um elenco que aprendeu, às duras penas das temporadas anteriores, que vitórias magras defendidas com unhas e dentes valem tanto quanto goleadas festivas. Valem mais, talvez. Porque ensinam algo que a fartura não ensina: que o resultado pertence a quem tem a coragem de sustentá-lo até o apito final, que a glória não é dada mas sim arrancada do peito do tempo.

Vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este mundo de Deus — em Recife, no Agreste, no sertão seco e bravo, no Sul e no exterior onde a diáspora pernambucana plantou bandeiras — souberam desta vitória e sentiram no peito aquela centelha conhecida. Aquela faísca que não se apaga. O Sport segue em frente na Copa do Nordeste com a solenidade de quem nunca duvidou que estava destinado a avançar, que a Ilha é fortaleza e não apenas estádio, que o Leão que ali habita não pede licença para ser grande — simplesmente o é.

As muralhas resistiram. O Leão reina.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O punho da Ilha

Há uma lei, tão antiga quanto os primeiros homens que se reuniram em campo aberto para disputar o favor dos deuses, segundo a qual a força verdadeira não se mede pelo fulgor dos dias fáceis — mede-se, isso sim, pela têmpera forjada nos dias de provação, pelo punho que se ergue com mais ímpeto precisamente quando o destino parece conspirar em sentido contrário. Os estoicos sabiam disso. Sêneca o proclamou com a clareza de quem já havia visto o Império tremer. E o futebol — essa liturgia coletiva, essa catedral sem teto erguida sobre gramados e suor — não faz mais que repetir, domingo após domingo, sábado após sábado, a mesma lição que a filosofia clássica nos legou: a virtude não é ornamento, é estrutura; não é pose, é osso.

Sport 2 x 0 Ceará

Conto mais. Havia, nos escritos de Marco Aurélio, uma noção que os comentadores modernos raramente saboreiam com o devido vagar: a de que o cosmos possui uma ordem imanente, uma lógica invisível que preside o movimento dos astros e dos homens, e que a tarefa do ser virtuoso é simplesmente alinhar-se a essa ordem — não forçá-la, não adulterá-la, mas reconhecê-la e obedecer-lhe com a dignidade de quem sabe que a desordem é sempre passageira. O caos, dizia o imperador-filósofo, é apenas a ordem que ainda não se revelou. E eu, junto com vinte e um milhões de rubro-negros, digo que há uma Ilha no Recife onde essa ordem cósmica tem endereço fixo, CEP conhecido, arquibancadas que rugem como a memória viva de tudo que já foi e de tudo que há de vir.

Neste domingo de maio, sob o céu de uma Ilha do Retiro que parecia ter guardado para si um tanto da fúria dos ventos do Atlântico, o Sport Clube do Recife recebeu o Ceará Sporting Club — time de tradição honesta, de gente que entende de bola, de nordestinos que carregam no peito o orgulho de Porangabuçu — e a eles mostrou, com a solenidade implacável de quem cumpre um rito, o que significa jogar em casa quando a casa é sagrada. O primeiro gol veio aos cinquenta e três minutos: Chrystian Barletta, sereno como um cirurgião diante do bisturi, colocou a bola no canto inferior direito, convertendo a penalidade com o pé esquerdo e com aquela quietude interior que só possuem os homens que não têm medo do peso do momento. Não houve tremor. Não houve dúvida. Houve apenas o gesto preciso, a execução irretocável, a confirmação de que existem jogadores feitos não de carne e osso somente, mas de alguma substância mais dura, mais nobre.

E se o primeiro gol foi a afirmação, o segundo foi a sentença. Aos setenta e um minutos, após cobrança de escanteio — esse lance de geometria e fé, em que onze homens disputam com a lei da gravidade o direito de tocar a bola antes que ela toque o chão —, Mádson se elevou pelo lado direito da pequena área com a autoridade de quem tem título de propriedade sobre aquele espaço aéreo, e cabeceou para o canto superior direito com uma violência serena que o poste não ousou contestar. Marlon fez o passe; Mádson fez a história. Dois a zero. O cosmos se ordenou. Marco Aurélio sorriu, algures entre os astros.

Ao Ceará, é preciso reconhecer, restou apenas a dignidade da derrota honrada — que não é pouca coisa, convenhamos. Vieram ao Recife dispostos, organizados, com a seriedade de quem entende que a Série B não perdoa hesitações. Partiram atordoados, sim — mas atordoados pelo mesmo Leão que já desbaratou sonhos mais arrogantes do que os seus. Não há vergonha no que lhes aconteceu. Há apenas a constatação simples, geométrica, de que neste domingo a ordem imanente do universo tinha o nome do Sport Clube do Recife escrito em letras maiúsculas, e contra isso não há tática que resista, não há esquema que prevaleça.

O Leão rugiu na Ilha. E a Ilha respondeu com vinte e um milhões de vozes.

A ordem está restaurada. Tremei.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

A Série A volta a ser um campeonato de elite

Há momentos históricos na história dos povos e do futebol. Os exércitos de Alexandre devastando Tebas em Queroneia; Balduíno IV dizimando o exército de Saladino em Monte Gisardo; ingleses e franceses no Marne, o Duque de Wellington em Waterloo. Sim, meus amigos, o futebol é um microcosmo do mundo ou, por outra: os campeonatos de futebol é que são um macrocosmo da história dos heróis e dos impérios, das guerras e das conquistas. Talvez não haja nada em milênios da humanidade que já não tenha se reproduzido, mais fielmente e com mais intensidade, dentro das quatro linhas dos gramados, onde 22 jogadores costumam se enfrentar com mais ferocidade do que mil exércitos militares.

Ontem o esquete sagrado do Sport envergou as armas rubro-negras para enfrentar o campeão da Baixada Santista com mais fúria do que a Macedônia às portas de Tebas, com mais confiança do que cruzados defendendo Jerusalém, com mais abnegação do que a França e a Inglaterra lutando lado a lado contra uma Alemanha que ainda não tinha nem a desculpa de ser nazista. E a verdade é que não se via um confronto assim talvez desde o fim do período napoleônico.

Meus amigos, aquele jogo de ontem tinha tudo para ser uma carnificina, uma sessão de extermínio, uma hecatombe. Vinte e cinco milhões de rubro-negros estavam com as atenções voltadas para a Ilha do Retiro: talvez há muito tempo um estádio de futebol não recebesse tanta atenção de um número tão grande de torcedores fanáticos. Há muito tempo uma vitória não era tão certa e, ao mesmo tempo, aguardada tão ansiosamente.

Foto: Terra

O Leão começou tímido, alguns diriam cauteloso; a verdade é que a fera estava sendo metódica. Cansando o adversário para, depois, dar-lhe o bote fatal. Somente ao final do primeiro tempo foi que Lucas Lima converteu o pênalti -- e, naquele gol, meus amigos, estava toda uma história, uma profecia, uma odisseia. Naquele gol estavam irmanadas a esperança e a certeza de vinte e cinco milhões de almas rubro-negras. Naquele gol, o futebol brasileiro voltou a respirar.

A etapa complementar foi somente jogar a pá de cal. Lucas Lima fez um segundo gol, e a torcida enlouqueceu; o Sport meteu logo depois o terceiro, e a nação rubro-negra esteve a ponto de quebrar as grades e invadir o gramado, para coroar imediatamente o Sport como Imperador Perpétuo do Futebol Brasileiro. Foi preciso que anulassem aquele gol para que a partida pudesse terminar. E, ao final, Barletta ainda perdeu um segundo pênalti com desdém, com orgulho, com fastio, como um soldado que, em meio à pilhagem, entorna ao chão uma garrafa de vinho caro somente para manifestar, com atos, a fartura em meio à qual se encontra, o desperdício que ele se permite realizar. Sim, meus amigos, aquele pênalti perdido humilhou mais o Santos que os outros três gols que ele havia levado.

O fato é que ontem o Sport bateu o Santos. Que digo? O Leão rubro-negro massacrou o Santos, devastou o Santos, atropelou o Santos; meus amigos, há quem jure que hoje de manhã, à Rua da Aurora, o peixe foi avistado boiando, morto, de barriga para cima, sendo arrastado pelas águas do Capibaribe que, à luz da manhã, tinham uns inusitados tons de preto e de vermelho. Eu não duvido. Absolutamente não duvido.

É necessário que a cidade do Recife celebre e se regozije, porque hoje o seu time, o seu maior time de futebol, o seu orgulho e sua alegria, amanheceu novamente na elite do Futebol Brasileiro, o lugar a que pertence por honra e por direito. E por conquista. Principalmente por conquista. Porque, meus amigos, nunca uma vaga foi conquistada com tanta garra, arrancada com tanta força, arrebatada com tanta paixão.

Junto ao peixe morto da Rua da Aurora foram avistadas, também, uma catita velha e uma cobra-cega. Arrastadas pela natureza, inermes, surdas aos gritos de comemoração que tomaram conta da cidade. Ano que vem, novamente a Série A do Campeonato Brasileiro vai voltar a ser de fato um torneio de elite. Em 2025, novamente vai valer a pena assistir ao Brasileirão. Até lá!

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

A fera está desembestada, infrene

A vitória no futebol é um conjunto de vários fatores. Há a habilidade individual, a preparação técnica, a qualidade dos jogadores, o entrosamento da equipe, o estado do campo, as condições climáticas, os torcedores, a arbitragem, o momento do time, os astros, o peso da camisa. Ninguém pode cravar o resultado de um jogo antes do fim da partida; aliás, é exatamente por isso que, nas casas de aposta, existe a loteria esportiva. O brasileiro simples há muito tempo entendeu aquilo que os comentaristas profissionais insistem em esquecer: cada jogo é uma batalha incerta, é um lance de dados, é um horizonte misterioso e incógnito no qual não se sabe o que vai se descortinar.

Veja-se o último jogo do Sport contra o Corinthians. O Leão estava na Z4 e, o Timão, na Libertadores da América. A desproporção era grotesca, infamante; parecia um pugilista bem treinado contra um moleque de briga de rua. Eis a verdade, meus amigos: existem certas situações em que a derrota não machuca tanto. Há certas batalhas que não é desonroso perder. No futebol há partidas que, perdidas, dão a sensação de se estar deixando escorrer preciosos pontos por entre os dedos da mão. Por outro lado, há rodadas das quais já se espera que não sairá nada mesmo. Essa era a opinião geral rubro-negra sobre a 24ª rodada do Brasileirão. Ninguém achava que iria sair nada para Pernambuco naquele sábado.

Mas há vários fatores que influenciam uma partida de futebol. E o Corinthians, velho freguês do Sport, deveria ter se lembrado disso antes de descer em Pernambuco com a arrogância paulistana que lhe é peculiar.

Foto: ge (MarlonCosta/Pernambuco Press)


Porque começou a partida e foi uma carnificina. Ninguém segura uma besta desenjaulada. O Sport calmo, frio, sereno, de uma serenidade psicopata, de uma frieza assassina, de uma calmaria de filme de terror. O Corinthians não se encontrava em campo e, por outra, aquele campo não era mesmo o lugar dele. Sim, amigos, a Arena Pernambuco rejeitou o Corinthians desde o primeiro minuto em campo. Basta ver como o time não conseguia desenvolver os lances, evoluir as jogadas, chegar até o adversário. Parecia que o Corinthians jogava não sobre um gramado, mas sobre um campo de espinhos, sobre uma vegetação densa e fechada que a todo momento se enroscava por suas pernas e o impedia de avançar.

Já o Sport estava em campo aberto, horizonte limpo, verdadeiro Rei da Selva dominando, imponente, a grama verde de São Lourenço da Mata. Já no primeiro campo abriu o placar, com um golaço de cabeça, logo em seguida anulado por um desses erros grotescos de arbitragem que nos fazem sinceramente perguntar para quê é que existem auxiliares nos campeonatos -- se, quando aparecem, marcam esses impedimentos sem pé nem cabeça. Mas nem mesmo isso abalou a moral do Leão, que seguiu dominando o jogo como se a arbitragem fosse, tão-somente, apenas mais um jogador alvinegro contra quem se tivesse que bater.

E, ao final, o gol, a glória. Belíssima tabelinha de Marcão com Mikael na entrada da grande área; depois Paulinho Moccelin recebe a bola do lado esquerdo, livre como um anistiado, leve como um quadro de Monet, solto como uma besta selvagem saltando sobre a presa. Foi um chute metódico, melódico, meteórico: meus amigos, naquele chute estava todo o eco do grito do gol contra o Grêmio de duas rodadas atrás. Eis a verdade: o Sport venceu o Corinthians lá em Porto Alegre. Aquele primeiro gol após dois meses de jejum foi um gol titânico, um gol com que se dava para vencer vários jogos. E estamos vendo, nas últimas partidas, os revérberos da Arena do Grêmio.

O Leão está imbatível. São seis gols em três jogos -- e isso sem contar o gol anulado de Sabino. É o único time do Brasileirão que conta, atualmente, com três vitórias seguidas. A fera está desembestada, infrene, em sua melhor forma. Que venha o Cuiabá.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Ninguém é mais vivo do que quem quase morreu

Dizem que a morte ensina. Ou melhor: estar diante da morte faz você encarar a vida com outros olhos. Ninguém vive tanto como quem já esteve morto. Quando o moribundo, já nos estertores da morte, decide levantar a cabeça, e lutar, e viver, aí, meus amigos, já não há mais nada nem ninguém no mundo que o possa segurar. A morte respeita quem a olha nos olhos e a enfrenta de cabeça erguida. Não existe ninguém mais vivo do que quem quase morreu e voltou.

O Sport esteve à beira do túmulo neste campeonato. O que digo? Esteve dentro do caixão já descido à terra. Já começavam a despejar melancolicamente, uma após outra, fúnebres pás de terra sobre a madeira vermelha e negra. Ninguém acreditava mais no Sport e, por outra: todos acreditavam na Série B. Até os times menores do ecossistema pernambucano -- a minhoca do canal e a catita da Rosa & Silva -- esqueciam-se da sua insignificância no enterro do Leão. Parecia que seu raquitismo esportivo, seu nanismo futebolístico, podiam ser deixados de lado no velório do adversário. Uma coisa assombrosa, os tricolores e os alvirrubros, dois defuntos desenterrados, trocando conversas de comadres junto ao Leão caído.

Houve um momento em que o time não suportou mais a humilhação. Sim, meus amigos, a verdade é esta: quem nasceu para Rei da Selva não aceita ser tratado como minhoca colorida ou gambá assustado. Dizem que a camisa pesa, o que é uma verdade, mas é preciso dizer ainda mais: a camisa levanta. O manto põe-se de pé. A tradição empurra para frente.

Falei aqui do gol de Gustavo, contra o Grêmio. Disse que não era um simples gol, que era uma profecia, um vaticínio. A vida da gente às vezes sofre reviravoltas por causa de um evento inesperado: golpes de sorte nos jogam por terra ou nos lançam aos ares. Sim, meus amigos, aquele gol mudou tudo. Ali, naquele balançar de redes, a besta enjaulada foi libertada e agora será difícil aos seus inimigos contê-la novamente. Agora é o poder e a hora do Leão. 

Foto: ge (Marlon Costa/Pernambuco Press)

Veja-se com que facilidade o Sport atropelou o Juventude ontem. Foram três gols em cima do visitante com uma fúria, com uma brutalidade que poderia parecer um exagero. Alguém disse que foi uma crueldade, uma humilhação desnecessária; meus amigos, a fera acorrentada há muito tempo não mede a sua força quando se põe em liberdade. Eis a verdade: o Leão está em frenesi, com gosto de sangue na boca, com os machucados do início do campeonato empurrando-lhe para adiante. A fera está cega de dor e de raiva contidas, em fúria assassina, estraçalhando quem quer que apareça na sua frente.

É até difícil escolher um lance do jogo para comentar. Mas seria uma indignidade não falar, aqui, do segundo gol do Leão, do golaço de Mikagol. O homem correu para a área como um náufrago corre para a praia. Olhava para a bola como quem perscruta o mar infinito no horizonte. Viu-a chegando com a euforia de um Robson Crusoé na iminência do resgate; e mandou-a para dentro da rede como um Tom Hanks sujo e ferido arremessando, furioso, Wilson para longe de si. Que bomba, meus amigos, que lance, que gol. Ali não falou a sorte nem a técnica, foi um lance de sobrevivência. Ali falou mais alto o instinto. Ali se operou o resgate. Ali o homem venceu.

Foram cinco gols em dois jogos após dois meses sem gols. A fera está solta de novo pelos campos brasileiros. Os adversários que se cuidem. O campeonato apenas começou.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

O gol que prenuncia a glória

O grande problema da paralisia é o ciclo vicioso que ela inaugura. Os músculos parados enrijecem, atrofiam; e uma musculatura atrofiada e rija tem baixa mobilidade e não se move como deveria. O fenômeno, que é conhecido há séculos pelos médicos e fisioterapeutas, verifica-se também, e com assombroso paralelismo, no futebol. Quanto mais um time perde, mais difícil lhe é voltar a vencer.

Porque a derrota e, mais ainda!, a sequência reiterada de derrotas provoca no time uma atrofia moral ainda mais grave do que a atrofia física. Sim, meus amigos, um paralítico que volta a andar depois de dois anos é menos assombroso do que um time que volta a vencer após dois meses. O milagre, no caso do futebol, é um portento ainda maior.

Foto: ge (Marcelo Oliveira/Futura Press)

O Glorioso estava nesta situação: não ganhava nada há oito jogos. Não marcava um gol -- um mísero gol! -- há oito partidas. Meus amigos, o futebol tem seus tempos próprios. Ninguém lembra o que aconteceu oito partidas atrás -- é como se fosse a infância profunda, a pré-história, o paleolítico do campeonato. Somente especialistas conseguem discorrer sobre o que ocorreu há um lapso tão grande de tempo: para o povo comum, para o chão-de-fábrica, o futebol que se comenta nos cafezinhos e que se discute nos bares é o do último fim de semana. No máximo, da semana passada, de quinze dias atrás. Mais do que isso, meus amigos, é outro mundo, é o pré-cambriano. Gerações de rubro-negros já se sentiam, assim, como se nunca tivessem visto seu time ganhar. Parecia que crianças haviam crescido sem jamais ver um gol do seu time. A situação estava deplorável.

Mas ontem tudo mudou. Ontem, jogando contra o Grêmio, lá na casa do adversário, os ventos começaram a soprar diferente e a sorte do time se transformou. Ontem se viu mais uma vez toda a beleza do Leão em fúria -- imponente, senhor-de-si, destroçando altivo quem estivesse à sua frente, estraçalhando os adversários com suas presas imortais. Ontem o Leão se fartou de churrasco nas terras gaúchas. E, agora, bem alimentado, pode recuperar o território perdido.

Porque o primeiro passo é sempre o mais importante. Para o maratonista acamado, a primeira vez em que ele se põe de pé sozinho é mais importante do que os primeiros quilômetros corridos após a doença. Uma vez que consiga se levantar -- uma vez que mostre a si mesmo não estar morto, paralítico e nem aleijado --, o atleta sabe que voltar aos pódios é apenas uma questão de tempo: o mais difícil ele já fez. A recuperação moral antecede e anuncia a recuperação física.

E ontem a moral rubro-negra se redescobriu. Ontem, após dois meses, um grito de gol se elevou da garganta de vinte e dois milhões de rubro-negros. Meus amigos, aquele gol, sozinho, foi toda uma goleada. Nunca um gol foi tão comemorado e digo ainda: o gol que balança uma rede após um tempo tão grande tem algo de místico, de sobrenatural, de pressagioso. A história nos mostra que este é o gol que prenuncia a glória.

Sim, meus amigos, aquilo não foi um simples gol. Foi uma profecia, um vaticínio. Um murmúrio antigo, de heróis de um passado longínquo e que já se acreditava enterrado, levantou-se ontem em Porto Alegre e se fez ouvir tonitruante por toda a terra. Forças profundas, ancestrais, selvagens foram liberadas ontem à noite, e agora é só deixá-las correr. O mais difícil já foi feito. Agora o Glorioso reencontrou o caminho da vitória e já pode voltar a sonhar com as alturas a que pertence por natureza, história e mérito.