Todos sabem, percebem, entendem facilmente que o território do inimigo é o lugar onde os fracos definham e os grandes se consagram. Os espartanos — esses homens de ferro que bebiam cicuta com a mesma serenidade com que bebiam vinho — não temiam a batalha em campo adverso; ao contrário, era precisamente ali, cercados de hostilidade, longe dos aplausos domésticos, que a virtude guerreira se manifestava em seu estado mais puro e mais belo. Porque é fácil ser herói em casa, rodeado de afeto e de familiaridade; o verdadeiro teste da grandeza é suportar, e vencer!, quando tudo conspira contra.
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O Fortaleza é, convenhamos, um adversário de respeito: digo isso sem ironia e sem condescendência. O Tricolor cearense construiu, nos últimos anos, uma reputação de fortaleza (valha-nos aqui o trocadilho involuntário) particularmente no seu domínio: o Castelão, aquela arena monumental que ergue seus muros cinzentos à beira do sertão nordestino como uma cidadela medieval. Ali o Fortaleza recebe os adversários com a arrogância de quem conhece cada palmo do chão, cada rajada do vento, cada grito da sua massa. Ali já ocorreu de times de todas as estirpes chegarem confiantes e partirem cabisbaixos, com a certeza amarga de que haviam subestimado o poderio da casa. Não é, portanto, território para pernetas nem para corações tímidos.
E foi exatamente nesse covil — nessa arena que deveria ser tumba de esperanças rubro-negras — que o Glorioso Sport Club do Recife entrou com a soberba discreta dos que sabem o que valem. Sim, senhoras e senhores: o Leão do Recife, visitante na Copa do Nordeste, em pleno Castelão, diante da massa tricolor que urrava como se urrava antigamente nas arenas romanas, não apenas compareceu; dominou, sofreu, resistiu e, no fim, venceu. Dois a um. Placar curto na frieza dos algarismos, mas imenso, imensurável, no que representa para os quase vinte e dois milhões de rubro-negros espalhados pelo mundo.
No início da partida, como sói acontecer nessas batalhas épicas, por um instante, um suspiro, um átimo, parece que o time da casa chegou a acreditar que o destino lhe sorria, que a lógica do futebol e da geografia lhe seria favorável, que o Leão, longe de sua Ilha amada, se dobrava. Tudo ilusão, tudo miragem. O Leão não pediu licença. Simplesmente entrou e tomou o que era seu. Meteu logo dois gols e escancarou o placar. Ali já era.
Que digo? Já era antes de começar, quando o sagrado manto rubro-negro entrou no Castelão com a coragem dos gladiadores que diziam morituri te salutant diante dos imperadores. Perdão, que me confundo com o latim. Ontem o esquete sagrado do Sport gritou galhardamente Vini, Vidi, Vici! na cara dos cearenses. Vitória fora de casa, na Copa do Nordeste, diante de um adversário que se julgava senhor absoluto do seu destino naquela noite: isso não é detalhe, não é circunstância menor a ser varrida para debaixo do tapete das estatísticas. É sinal. É a manifestação concreta daquela verdade espartana que evoquei no início: os grandes não escolhem o campo de batalha, fazem do campo de batalha, qualquer campo, o lugar da sua consagração. E o Sport, com dois gols marcados no coração do Ceará, escreveu mais um capítulo dessa história longa, teimosa e gloriosa.
O Fortaleza ficará, certamente, a remoer a derrota — esse gosto amargo que os derrotados carregam por dias, semanas, à procura de uma explicação que a lógica jamais fornece completamente. Porque não há lógica que explique o Leão quando ele decide que é hora. Há apenas a constatação, sempre tardia, de que se deveria ter tomado mais cuidado com a fera.
Sim, amigos. Ontem à noite, no covil do inimigo, quem jantou foi o Leão.





