domingo, 5 de julho de 2026

A cabeçada do destino

Há uma espécie de injustiça que não se encontra nos códigos, que não tem tribunal competente nem jurisprudência capaz de remediar: a injustiça do momento. Não a injustiça da história longa, que o tempo costuma corrigir com a lentidão paciente dos séculos — essa, ao menos, cede. Falo da outra, a miúda e cruel, a que se consuma num instante preciso e deixa o homem de queixo caído e alma tonta, sem sequer a consolação de uma explicação razoável. É a injustiça do gol que entra quando não devia entrar, da cabeçada que encontra o canto impossível como se o destino tivesse marcado o ponto exato da queda e enviado um executor de confiança para cumprir o serviço.

Sport 0 x 1 Criciúma

Os físicos, esses poetas de jaleco, têm um conceito que me acompanha desde o ginásio: o caos determinístico. A ideia de que sistemas perfeitamente ordenados podem, a partir de uma perturbação infinitesimal, produzir resultados radicalmente imprevistos. Uma borboleta bate as asas no Amazonas; uma tempestade assola Tóquio. Um centímetro a mais na trajetória de uma bola; um Leão derrotado em Santa Catarina. O problema do caos, porém, é que ele não distribui os seus favores com equidade: há times que vivem no olho da borboleta, e há times que vivem na tempestade. Neste sábado de julho, no Heriberto Hülse, o Sport Club do Recife viveu a tempestade.

Waguininho. O nome, convenhamos, não tem o peso épico de um Aquiles ou de um Cipião. Não ressoa nos salões da história como os grandes algores da humanidade. E, no entanto, foi ele — precisamente ele, no minuto vinte e nove do primeiro tempo — quem se ergueu entre os corpos e enviou a cabeça contra o centro da área com a convicção inabalável de quem cumpre uma missão recebida em sonho. A bola foi ao canto esquerdo com uma delicadeza traiçoeira, aquela que os carrascos aprendem quando querem que a vítima quase não sinta. Um a zero. E o Criciúma, esse tigre catarinense de listra amarela e memória curta, acreditou que havia vencido o universo.

Mas eis o que os números contam, e que nenhum placar tem jurisdição para apagar: o Sport teve cinquenta e quatro vírgula cinco por cento da bola. Catorze chutes tentados; quatro no alvo. Dezessete faltas cometidas — dezessete! — o que é, a seu modo, a prova de que o Leão estava presente, corporal, físico, vivo, reclamando palmo a palmo o chão que pisava. Não foi um time apagado, resignado, macambúzio, desses que aparecem em campo com a expressão de quem já consultou o horóscopo e sabe que o dia não será bom. Foi um time que jogou. Que pressionou. Que, por obra de um acaso furioso, levou o único gol da partida e não conseguiu, apesar de todas as suas tentativas, perfurar a muralha adversária.

Isto me recorda aquela frase que Dostoiévski colocou na boca do príncipe Míchkin: "A beleza salvará o mundo." Não disse que a beleza vencerá todas as batalhas, note-se bem. Disse que salvará. Há uma diferença abissal entre vencer e salvar, entre conquistar e preservar. O Sport, neste sábado no sul do país, não venceu. Mas salvou algo mais precioso que um placar: salvou a sua própria imagem de time que luta, que se impõe, que não entrega os pontos com a comodidade dos que já desistiram de existir com dignidade. Cinquenta e quatro por cento da bola é uma afirmação de identidade. É o Leão dizendo ao mundo que ainda existe.

Depois do que escrevi sobre a taça e a sede, sobre as derrotas que chegam justamente quando o homem parece mais próximo de beber — sinto, desta vez, algo diferente no ar. Não a resignação amarga, não o desespero que corrói. Sinto aquela espécie de fúria fria que os grandes times acumulam nas partidas que não deveriam ter perdido, e que se converte, nas partidas seguintes, em energia suficiente para derrubar muralhas. Os vinte e um milhões de rubro-negros que acompanharam este jogo — de longe, de perto, pelo celular na fila do banco ou pelo rádio na cozinha em chamas — sabem, com a sabedoria que só o amor incondicional concede, que o Leão não perdeu a guerra. Perdeu uma escaramuça. Num dia cinza. Num estádio que não é o seu.

O Heriberto Hülse ficará de pé. O placar ficará registrado. Waguininho terá o seu instante de glória catarinense, seu momento de cabeçada ao canto esquerdo, seu minuto vinte e nove imortalizado nas estatísticas de uma Série B que ainda tem muito chão pela frente. Mas o Sport Club do Recife voltará — voltará com a sua história de noventa anos, com as suas estrelas no peito, com a fome que só cresce quando se nega o pão. E ninguém, em sã consciência, deveria querer estar do outro lado quando esse apetite se converter em gol.

O Leão não saciou a fome hoje. Isso o torna mais perigoso.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

A taça e a sede

Há uma crueldade particular nos destinos que se interrompem justamente quando pareciam prontos para se cumprir. Não a crueldade rude e direta do destino que nega tudo desde o princípio — essa, ao menos, tem a honestidade de não prometer. Falo da outra, da pior: aquela que concede, que acena, que deixa o homem provar o vinho na beira dos lábios, e então retira a taça com a precisão fria de um carrasco bem pago. Os gregos tinham um nome para isso: a hybris dos deuses — não a arrogância humana, como se costuma dizer, mas a crueldade divina de elevar o mortal até o patamar em que a queda se torna espetáculo. Tântalo não merecia a sede eterna. Merecia a água. E foi exatamente isso que o condenou.

Sport 1 x 2 Fortaleza

No Castelão, sob o céu nordestino que não pertence ao Leão mas que um dia haverá de temê-lo, o Sport Club do Recife viveu, no domingo passado, a parábola do suplício tantaliano em toda a sua perfídia. Sessenta por cento da posse de bola — sessenta! —, dezesseis tentativas de rasgar a tela do destino, a dominância técnica e territorial de quem não veio a Fortaleza para fazer turismo, mas para disputar. E, no entanto. E, no entanto. Rodrigo Santos, aos vinte e oito minutos, com um chute colocado da intermediária que não merecia entrar em nenhum jogo que pretendesse ser justo, abriu o placar para o triângulo cearense. Primeiro golpe da taça retirada.

Mas o Leão — e é aqui que a história se torna bela, que a crónica ganha a dignidade que merece — não aceitou o suplício. Pedro Perotti, de cabeça, aos sessenta e nove minutos, em mergulho audacioso dentro da pequena área, converteu o empate com a precisão de quem não sabe o significado da palavra resignação. Sim, meus amigos, aquele gol de Perotti não foi apenas um gol; foi uma declaração filosófica, uma recusa categórica ao papel de figurante que os donos da casa tentavam impor ao visitante rubro-negro. Vinte e dois milhões de torcedores, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, sentiram no peito aquele cabeceio como se fosse o próprio coração do clube a bater mais alto.

E então Tântalo voltou a estender a mão. E a água voltou a recuar. Nos acréscimos — nos acréscimos, senhoras e senhores, nesse território infame onde a injustiça se esconde atrás do cronômetro —, Welliton, com assistência de Juan Miritello, devolveu à casa tricolor a vitória que o Sport havia, com pleno direito e merecimento, lhe subtraído. Chute no ângulo, no último suspiro, no instante em que o empate já parecia um resultado razoável para uma noite tão bem disputada. Não, não foi merecimento, não foi justiça, não foi razoável, não. Foram os deuses caprichosos. Foi Tântalo. Foi a taça retirada.

Seria fácil, neste momento, entregar-me ao lamento. Seria fácil e seria humano. Mas há uma coisa que este cronista aprendeu — ao longo de décadas de Ilha do Retiro, de glórias e de purgações — a distinguir: a diferença entre um time que perde porque é inferior e um time que perde porque os deuses, naquela noite específica, decidiram ser cruéis. Não é a mesma coisa. É uma diferença moral, ontológica, de natureza. O Sport que dominou o segundo tempo em Fortaleza, que pressionou, que igualou, que tinha sessenta por cento da bola, não é um time que teme o rebaixamento; é um time a se temer o contrário: a ascensão inevitável que os adversários ainda não processaram.

O que se viu no Castelão foi, na essência, um time construindo aos poucos a consciência de sua própria grandeza. Como escreveu certa vez aquele rapaz de Florença, que entendia de infernos melhor do que ninguém: o caminho que leva ao paraíso passa, com frequência, pelos territórios mais sombrios, pelos círculos onde a injustiça tem nome e endereço. O Sport está nesse caminho. A Série B é o inferno que precede o purgatório que precede a glória. E o clube do Recife, fundado em mil e novecentos e cinco por homens que não tinham medo de nada, não vai tremer diante de um resultado amargo em terras alheias.

A taça foi retirada. Mas Tântalo, por fim, foi libertado. E a fome que o suplício criou é a fome mais perigosa que existe.

Que os cearenses aproveitem o desempate. O Leão não se permitirá sentir sede para sempre.

terça-feira, 16 de junho de 2026

A magnanimidade dos reis

Há uma virtude que os povos antigos consideravam superior à própria vitória: a magnanimidade. Não a condescendência do poderoso que olha para baixo com pena mal disfarçada, não a arrogância disfarçada de generosidade — mas a magnanimidade genuína, aquela que os romanos chamavam de magnanimus, a grandeza de alma que se manifesta precisamente quando o grande poderia esmagar e, por nobre capricho, escolhe não esmagar. Augusto, depois de Actium, poderia ter enchido o Fórum Romano de cabeças cortadas. Não o fez. Não porque lhe faltasse poder, mas porque lhe sobrava grandeza. E foi essa grandeza, mais do que qualquer legião, que lhe garantiu o título de primeiro entre os homens.

Sport 0 x 0 São Bernardo

O Sport Club do Recife chegou ao Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, com aquela pose serena e levemente intimidante de quem sabe o que é, sabe o que carrega, e não precisa de alardes para provar coisa alguma. Sessenta e três por cento de posse de bola — sessenta e três por cento, senhoras e senhores — e vinte e três chutes, seis deles exigindo atenção do guardião adversário. Não é o retrato de um time acuado. É o retrato de um imperador que passeia pelos corredores do palácio do vizinho com as mãos nas costas, curioso, dominante, sem pressa de declarar guerra.

O São Bernardo, time que ostenta o nome de uma cidade industrial, de estradas e de fumaça, tentou o que pôde dentro do que lhe era permitido: resistir. E há uma certa dignidade nisso, não vou negar. Como há dignidade na tartaruga que se fecha na própria carapaça diante do leão. A carapaça segura. O leão, todavia, não deixa de ser leão.

Vinte e três chutes e o gol que não veio. Isso, convenhamos, é o tipo de coisa que faz o cronista buscar consolo nos clássicos — e os encontra, felizmente, porque os clássicos têm consolo para tudo. Hesíodo já sabia que os deuses escondem o fogo dos homens por puro capricho; Tchekhov sabia que o arma do primeiro ato nem sempre dispara; e qualquer torcedor do Leão com mais de quarenta anos sabe que há noites em que a bola simplesmente não quer entrar, como se o próprio universo tivesse decidido adiar a festa por razões que só ele conhece. O Sport criou; o Sport pressionou; o Sport mandou no jogo de ponta a ponta. A bola, que é democrática e às vezes idiota, permaneceu longe das redes.

Mas voltemos à magnanimidade, que é onde esta crônica quer chegar. Empatar contra o São Bernardo, fora de casa, dominando a partida com a displicência aristocrática de quem tem outras guerras maiores para vencer, não é derrota. Não é sequer tropeço — e digo isso lembrando do que escrevi aqui há algumas semanas, sobre a pedra no caminho e a moira dos gregos. Aquele era um tropeço com sabor de injustiça. Isso aqui é outra coisa: é o grande navegador que, no meio de um cruzeiro tranquilo, encontra vento contrário por uma hora e chega ao porto com quarenta minutos de atraso. Incomoda. Não abala.

Vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este país de dimensões bíblicas sabem, no fundo de suas almas feridas e esperançosas, que um time que domina com sessenta e três por cento de posse, que arrisca vinte e três vezes, que não se curva, que não recua, que não entrega — esse time não está perdendo tempo. Esse time está amadurecendo. Está afinando o instrumento antes do concerto. E o concerto, que fique claro, está próximo.

A grandeza de Augusto não estava em Actium. Estava nos quarenta anos que se seguiram. O Leão está no meio do caminho, de pé, com sessenta e três por cento da bola e vinte e três razões para acreditar que o gol virá. Virá com a inevitabilidade das coisas que foram muito desejadas por gente que não tem o hábito de desistir.

Que o São Bernardo guarde bem essa carapaça. Na próxima vez, pode não ser suficiente.

domingo, 31 de maio de 2026

O filho pródigo da Ilha

Há uma figura que atravessa os séculos com uma tenacidade que confunde e emociona: a do filho que retorna. Não o filho que jamais partiu, que ficou na varanda contemplando o horizonte com olhos mortiços e alma entorpecida pelo conforto da mesmice — esse não tem história, não tem épica, não tem canção. O filho que retorna é aquele que saiu, que errou, que se perdeu nos descaminhos do mundo, que comeu pão amargo na mesa de estranhos e dormiu sob céus que não eram os seus; e que, num determinado instante, reconhece nos próprios passos o caminho de volta para casa. Lucas narrou essa parábola com uma delicadeza quase cruel; Dostoievski a reescreveu em prosa de fogo nos subterrâneos da alma russa. O que ambos entenderam, cada qual a seu modo, é que o regresso não é fraqueza. É, na verdade, a forma mais elevada de coragem.

Sport 2 x 0 Náutico

A Ilha do Retiro — e o próprio nome já é uma parábola, já é uma promessa, já é um destino — recebeu ontem, sob o céu de um maio que teima em não se despedir, aquele Náutico que por tantas décadas foi o vizinho incômodo, o primo encrenqueiro, o rival de bairro que aparece na festa sem ser chamado e ainda tem a petulância de disputar o último pedaço do bolo. O clássico pernambucano tem desse sabor: não é rivalidade de estádio apenas, é rivalidade de rua, de calçada, de família dividida à mesa do almoço. E é precisamente por isso que vencer o Náutico não é apenas vencer um adversário — é uma afirmação de território, de identidade, de que esta cidade é vermelha e preta e continua pertencendo a quem sempre pertenceu.

Chrystian Barletta, esse rapaz de chuteiras furiosas e temperamento de gladiador, foi o instrumento escolhido pelo destino para executar a sentença. Aos vinte e oito minutos, a pena máxima — que o vulgo chama de pênalti com aquela displicência de quem não entende o peso do momento — convertida com a frieza de quem nunca duvidou da própria pontaria: canto esquerdo, fundo da rede, silêncio dos visitantes, explosão dos que vestem o rubro-negro. Uma estocada de espadachim que aprendeu a matar com precisão cirúrgica. O mesmo Chrystian voltaria ao palco no ocaso da partida, já aos oitenta e três minutos, desta vez recebendo o passe de Carlos De Peña, o uruguaio de alma tangueira e cruzamentos que parecem rasgar as veias da América Latina, para concluir de perto, com a naturalidade de quem está em casa, porque estava, literalmente, em casa. Dois a zero. Jogo encerrado. Julgamento proferido.

Dirão os mal-avisados que o Sport dominou pouco a posse de bola; que os números frios apontam para apenas 39 por cento do tempo com a redonda nos pés; que os chutes foram apenas oito, míseros oito, como se a eficiência de um predador se medisse pela quantidade de garras e não pela precisão da dentada. Absurdo. O leão não precisa correr atrás de toda gazela que passa; ele escolhe, ele aguarda, ele ataca quando o momento convém. E quando ataca, a conta se paga em sangue.

O Náutico, o velho Timbu — e é preciso ter alguma compaixão pelo vizinho que saiu da Ilha com as mãos abanando, mancando e machucado — tentou o que podia com o que tinha. Mas há derrotas que não são acidentes; são, antes, a revelação de uma hierarquia que o tempo inscreveu em letras maiúsculas na história do futebol pernambucano. E resistir ao Sport na Ilha, especialmente a um Sport que encontrou o ritmo e o gosto do sangue, é exercício de futilidade heróica. Os visitantes foram desbaratados sem violência excessiva, como se desfaz um castelo de areia: gentilmente, com a maré certa, no momento oportuno.

Depois do que escrevi na quarta passada sobre a odisseia rubro-negra — aquele elã homérico do viajante que insiste em voltar para casa —, esta vitória tem um sabor particular de continuidade, de narrativa que se recusa a encerrar em nota trágica. A Série B é um labirinto de armadilhas e ilusões, e cada vitória no clássico é um fio de Ariadne que nos guia um passo a mais para fora do labirinto. Essa vitória confirma o que a anterior apenas insinuava: este Sport não está apenas jogando, está construindo. E há uma diferença enorme entre um time que acumula resultados e um time que ergue um monumento.

O Sport venceu o clássico, fez dois, manteve o zero, mandou recado à tabela e à galera, e fez tudo isso com dezoito faltas cometidas que dizem, sem pudor, que este elenco não veio para dançar quadrilha. Veio para brigar pela Série A, com as unhas, com os dentes, com a alma que a camisa vermelha e preta exige de quem a veste.

O filho pródigo foi recebido com festa. E a festa, senhoras e senhores, está apenas começando.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Ano que vem, em Jerusalém!

Não há reino, por mais ungido pelos céus, por mais cingido de muralhas e de fé, que não conheça a véspera de sua própria queda. As cidades santas ardem; os estandartes tombam; os mantos sagrados rasgam-se; as torres que pareciam eternas viram pó sob o vento do deserto. E, no entanto, há uma verdade que os séculos não lograram desmentir: a grandeza de um rei jamais se mede pela muralha que ruiu, mas pelas batalhas que ele venceu quando ninguém, em sã consciência, lhe dava o direito de vencer.

Balduíno era o quarto de seu nome e reinou em Jerusalém num corpo que os deuses pareciam ter amaldiçoado. Leproso desde os treze anos, a carne lentamente abandonando-o, cego no fim, sem o uso das próprias mãos, foi levado em liteira ao campo de Montgisard — e ali, com um punhado de cavaleiros, desbaratou a hoste imensa de Saladino, que descia como maré sobre o seu pequeno reino. Imaginem a cena: um Rei fraco, doentio, um menino moribundo, erguendo a Vera Cruz acima da própria ruína, fazendo recuar o maior sultão que o Oriente já produziu...! Houve glória mais improvável? Houve heroísmo mais sincero? Houve coragem mais pura do que a daquele que combate já sabendo que o seu corpo o trai?

Saladino também era grande — cavalheiresco, paciente, inexorável como a areia. Sabia esperar. E esperou. Morto Balduíno, o reino que ele segurara começou a esfarelar; e em Hattin, anos depois, sob um sol que cozinhava as armaduras, a cidade santa enfim se rendeu ao crescente. Mas Hattin não foi a derrota de Balduíno. A lenda do rei leproso vive em Montgisard, não na muralha que outros não souberam defender.



Pois bem, amigos. Poucos dias atrás eu escrevia, nestas mesmas linhas, sobre o covil do inimigo conquistado — sobre a viagem ao Castelão, sobre os dois a um trazidos do território hostil como quem traz despojos de uma cruzada vitoriosa. Aquele, senhoras e senhores, foi o nosso Montgisard. E ontem, sob os refletores da Ilha do Retiro, restava apenas guardar a cidade. Apenas segurar a muralha. O Leão jogava pelo empate; tinha o reino nas mãos.

E então as luzes tremeluziram. Não é invenção de cronista: os refletores oscilaram, a partida atrasou cinco minutos, e quem tem olhos para os augúrios sentiu um arrepio. Ainda assim o Leão atacou primeiro, e atacou bem: Perotti, de fora da área, lançou um petardo que morreu nas mãos de um demônio pagão travestido de goleiro. Mais tarde, Felipinho cruzou, Madson subiu mais alto que toda a defesa cearense e cabeceou com a fúria de quem quer emoldurar a vaga — e de novo aquele João Ricardo, muralha de carne e reflexo, de turbante e iatagã, espalmou o que parecia gol. A Vera Cruz fora erguida. Faltou apenas que o céu olhasse.

Mistérios da Providência e do Olimpo do Futebol: o céu não olhou. Aos trinta e cinco, Mucuri cruzou, Miritello subiu, e a primeira ferida igualou o duelo das duas mãos. Depois veio Vitinho, e a cidade santa caiu. Coisa pouca para narrar e muita para sentir. Mas que ninguém ouse dizer que o Leão tombou por covardia: bateu à porta, esmurrou a muralha adversária, e foi detido não pela própria fraqueza, mas por um goleiro de pedra e por aquele azar antigo a que os gregos davam o nome de moira e nós, mais pobres, chamamos apenas de noite ruim. Ao Fortaleza, esse Saladino do Pici que segue cavalheiro rumo à sua final, conceda-se esta noite — com a serenidade de quem sabe que a glória maior já fora escrita no deserto, e não aqui.

Porque a cinza, vinte e cinco milhões de rubro-negros bem o sabem, é o leito da fênix. Há outra cruzada à espera, há uma Série B inteira por reconquistar, há o regresso à corte de onde nunca deveríamos ter saído. Jerusalém cai uma noite; a fé que a ergueu não cabe em muralha alguma.

Balduíno venceu deitado. O Leão de pé derrubará fortalezas e restaurará a glória do manto rubro-negro. Ano que vem, em Jerusalém.

domingo, 24 de maio de 2026

O grito do viajante

Há algo de profundamente homérico na condição do viajante que parte sem a certeza do regresso: aquele que abandona o porto familiar, enfrenta mares hostis e povos estranhos, e precisa, a cada aurora, reconquistar o direito de seguir em frente. Odisseu não era o mais forte dos guerreiros aqueus; não possuía a fúria de Aquiles nem a envergadura de Ájax. Tinha, porém, o que os deuses concedem apenas aos eleitos: a capacidade de resistir, de dobrar-se sem quebrar, de encontrar no último átimo o caminho de volta para casa. É esse o dom dos grandes. É essa a marca dos que foram feitos para durar.

Sport 1 x 0 Juventude

Ironia dos deuses. O Sport trafega há meses por esses mares bravios da Série B — longe do Olimpo que lhe é de direito, longe das iluminadas noites da primeira divisão, visitando portos de segunda categoria que jamais o merecem como hóspede. E no último sábado, na austera e fria Caxias do Sul, naquele estádio do Alfredo Jaconi que se ergue entre pinheiros como um forte de guerra sulista, o Leão do Recife enfrentou a resistência do Juventude com a paciência do navegante que sabe que a tempestade passa e que o porto, por mais distante que pareça, existe. Sempre existiu.

Não foi espetáculo dos deuses, confessemo-lo sem desvelo: quarenta e sete por cento de posse de bola, treze faltas cometidas, apenas duas finalizações que olharam de verdade para o gol adversário. A geometria fria dos números diria, ao observador desavisado, que o Sport esteve contido, macambúzio quase, cerceado pelo ímpeto dos gaúchos em sua própria casa. Digo contido — e poderia dizer mais: pressionado, acuado por instantes, testado na fé. Mas que digo? O Sport não se abateu. O Sport nunca se abate. Há uma teimosia rubro-negra que desafia a lógica, que insulta a estatística, que ri na cara da adversidade como Odisseu ria dos pretendentes que julgavam Ítaca já conquistada.

E foi então que, aos oitenta e dois minutos de batalha, quando o Juventude já pensava ter segurado o empate como quem segura o ouro com as mãos trêmulas, foi então, eu dizia, que Chrystian Barletta, com a visão do estrategista que enxerga o que os outros não veem, encontrou Iury Castilho; e Iury, com aquela frieza beneditina de quem sabe que este é o momento para o qual nasceu, ajeitou o corpo, mirou o canto inferior esquerdo e, com uma batida de pé direito de fora da área que cortou o ar frio serrano como uma lança atirada pelos deuses, fez a bola beijar a rede do Juventude. Um a zero. Apenas um. Mas que um: esse um que vale mais do que centenas de chutes errados, mais do que anos de silêncio, mais do que toda a quietude daquela noite gaúcha que tentou engolir o Leão e não conseguiu.

O Juventude ficou ali, atordoado, tentando entender o que o havia atropelado naqueles últimos minutos. Há quase compaixão a despertar, é verdade, pela velha Caxias que viu seu estádio silenciar num instante; mas o cosmos não distribui vitórias por piedade — distribui-as por mérito, por persistência, por aquela virtude silenciosa de quem aguenta o oitavo, o nono e o décimo assalto sem cair. Os vinte e um milhões de rubro-negros espalhados pelos quatro cantos deste país, do Recife quente à diáspora longínqua, sentiram naquele gol tardio a confirmação do que sempre souberam: o Leão pode demorar, mas chega.

A Série B é longa, seus mares são traiçoeiros e seus escolhos são muitos. Mas Odisseu chegou a Ítaca. E o Sport chegará ao seu destino.

A jornada continua. E o Leão rugiu em Caxias do Sul.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O leão no covil do inimigo

Todos sabem, percebem, entendem facilmente que o território do inimigo é o lugar onde os fracos definham e os grandes se consagram. Os espartanos — esses homens de ferro que bebiam cicuta com a mesma serenidade com que bebiam vinho — não temiam a batalha em campo adverso; ao contrário, era precisamente ali, cercados de hostilidade, longe dos aplausos domésticos, que a virtude guerreira se manifestava em seu estado mais puro e mais belo. Porque é fácil ser herói em casa, rodeado de afeto e de familiaridade; o verdadeiro teste da grandeza é suportar, e vencer!, quando tudo conspira contra.

Sport 2 x 1 Fortaleza

O Fortaleza é, convenhamos, um adversário de respeito: digo isso sem ironia e sem condescendência. O Tricolor cearense construiu, nos últimos anos, uma reputação de fortaleza (valha-nos aqui o trocadilho involuntário) particularmente no seu domínio: o Castelão, aquela arena monumental que ergue seus muros cinzentos à beira do sertão nordestino como uma cidadela medieval. Ali o Fortaleza recebe os adversários com a arrogância de quem conhece cada palmo do chão, cada rajada do vento, cada grito da sua massa. Ali já ocorreu de times de todas as estirpes chegarem confiantes e partirem cabisbaixos, com a certeza amarga de que haviam subestimado o poderio da casa. Não é, portanto, território para pernetas nem para corações tímidos.

E foi exatamente nesse covil — nessa arena que deveria ser tumba de esperanças rubro-negras — que o Glorioso Sport Club do Recife entrou com a soberba discreta dos que sabem o que valem. Sim, senhoras e senhores: o Leão do Recife, visitante na Copa do Nordeste, em pleno Castelão, diante da massa tricolor que urrava como se urrava antigamente nas arenas romanas, não apenas compareceu; dominou, sofreu, resistiu e, no fim, venceu. Dois a um. Placar curto na frieza dos algarismos, mas imenso, imensurável, no que representa para os quase vinte e dois milhões de rubro-negros espalhados pelo mundo.

No início da partida, como sói acontecer nessas batalhas épicas, por um instante, um suspiro, um átimo, parece que o time da casa chegou a acreditar que o destino lhe sorria, que a lógica do futebol e da geografia lhe seria favorável, que o Leão, longe de sua Ilha amada, se dobrava. Tudo ilusão, tudo miragem. O Leão não pediu licença. Simplesmente entrou e tomou o que era seu. Meteu logo dois gols e escancarou o placar. Ali já era.

Que digo? Já era antes de começar, quando o sagrado manto rubro-negro entrou no Castelão com a coragem dos gladiadores que diziam morituri te salutant diante dos imperadores. Perdão, que me confundo com o latim. Ontem o esquete sagrado do Sport gritou galhardamente Vini, Vidi, Vici! na cara dos cearenses. Vitória fora de casa, na Copa do Nordeste, diante de um adversário que se julgava senhor absoluto do seu destino naquela noite: isso não é detalhe, não é circunstância menor a ser varrida para debaixo do tapete das estatísticas. É sinal. É a manifestação concreta daquela verdade espartana que evoquei no início: os grandes não escolhem o campo de batalha, fazem do campo de batalha, qualquer campo, o lugar da sua consagração. E o Sport, com dois gols marcados no coração do Ceará, escreveu mais um capítulo dessa história longa, teimosa e gloriosa.

O Fortaleza ficará, certamente, a remoer a derrota — esse gosto amargo que os derrotados carregam por dias, semanas, à procura de uma explicação que a lógica jamais fornece completamente. Porque não há lógica que explique o Leão quando ele decide que é hora. Há apenas a constatação, sempre tardia, de que se deveria ter tomado mais cuidado com a fera.

Sim, amigos. Ontem à noite, no covil do inimigo, quem jantou foi o Leão.