Há uma virtude que os povos antigos consideravam superior à própria vitória: a magnanimidade. Não a condescendência do poderoso que olha para baixo com pena mal disfarçada, não a arrogância disfarçada de generosidade — mas a magnanimidade genuína, aquela que os romanos chamavam de magnanimus, a grandeza de alma que se manifesta precisamente quando o grande poderia esmagar e, por nobre capricho, escolhe não esmagar. Augusto, depois de Actium, poderia ter enchido o Fórum Romano de cabeças cortadas. Não o fez. Não porque lhe faltasse poder, mas porque lhe sobrava grandeza. E foi essa grandeza, mais do que qualquer legião, que lhe garantiu o título de primeiro entre os homens.
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O Sport Club do Recife chegou ao Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, com aquela pose serena e levemente intimidante de quem sabe o que é, sabe o que carrega, e não precisa de alardes para provar coisa alguma. Sessenta e três por cento de posse de bola — sessenta e três por cento, senhoras e senhores — e vinte e três chutes, seis deles exigindo atenção do guardião adversário. Não é o retrato de um time acuado. É o retrato de um imperador que passeia pelos corredores do palácio do vizinho com as mãos nas costas, curioso, dominante, sem pressa de declarar guerra.
O São Bernardo, time que ostenta o nome de uma cidade industrial, de estradas e de fumaça, tentou o que pôde dentro do que lhe era permitido: resistir. E há uma certa dignidade nisso, não vou negar. Como há dignidade na tartaruga que se fecha na própria carapaça diante do leão. A carapaça segura. O leão, todavia, não deixa de ser leão.
Vinte e três chutes e o gol que não veio. Isso, convenhamos, é o tipo de coisa que faz o cronista buscar consolo nos clássicos — e os encontra, felizmente, porque os clássicos têm consolo para tudo. Hesíodo já sabia que os deuses escondem o fogo dos homens por puro capricho; Tchekhov sabia que o arma do primeiro ato nem sempre dispara; e qualquer torcedor do Leão com mais de quarenta anos sabe que há noites em que a bola simplesmente não quer entrar, como se o próprio universo tivesse decidido adiar a festa por razões que só ele conhece. O Sport criou; o Sport pressionou; o Sport mandou no jogo de ponta a ponta. A bola, que é democrática e às vezes idiota, permaneceu longe das redes.
Mas voltemos à magnanimidade, que é onde esta crônica quer chegar. Empatar contra o São Bernardo, fora de casa, dominando a partida com a displicência aristocrática de quem tem outras guerras maiores para vencer, não é derrota. Não é sequer tropeço — e digo isso lembrando do que escrevi aqui há algumas semanas, sobre a pedra no caminho e a moira dos gregos. Aquele era um tropeço com sabor de injustiça. Isso aqui é outra coisa: é o grande navegador que, no meio de um cruzeiro tranquilo, encontra vento contrário por uma hora e chega ao porto com quarenta minutos de atraso. Incomoda. Não abala.
Vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este país de dimensões bíblicas sabem, no fundo de suas almas feridas e esperançosas, que um time que domina com sessenta e três por cento de posse, que arrisca vinte e três vezes, que não se curva, que não recua, que não entrega — esse time não está perdendo tempo. Esse time está amadurecendo. Está afinando o instrumento antes do concerto. E o concerto, que fique claro, está próximo.
A grandeza de Augusto não estava em Actium. Estava nos quarenta anos que se seguiram. O Leão está no meio do caminho, de pé, com sessenta e três por cento da bola e vinte e três razões para acreditar que o gol virá. Virá com a inevitabilidade das coisas que foram muito desejadas por gente que não tem o hábito de desistir.
Que o São Bernardo guarde bem essa carapaça. Na próxima vez, pode não ser suficiente.


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