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domingo, 24 de maio de 2026

O grito do viajante

Há algo de profundamente homérico na condição do viajante que parte sem a certeza do regresso: aquele que abandona o porto familiar, enfrenta mares hostis e povos estranhos, e precisa, a cada aurora, reconquistar o direito de seguir em frente. Odisseu não era o mais forte dos guerreiros aqueus; não possuía a fúria de Aquiles nem a envergadura de Ájax. Tinha, porém, o que os deuses concedem apenas aos eleitos: a capacidade de resistir, de dobrar-se sem quebrar, de encontrar no último átimo o caminho de volta para casa. É esse o dom dos grandes. É essa a marca dos que foram feitos para durar.

Sport 1 x 0 Juventude

Ironia dos deuses. O Sport trafega há meses por esses mares bravios da Série B — longe do Olimpo que lhe é de direito, longe das iluminadas noites da primeira divisão, visitando portos de segunda categoria que jamais o merecem como hóspede. E no último sábado, na austera e fria Caxias do Sul, naquele estádio do Alfredo Jaconi que se ergue entre pinheiros como um forte de guerra sulista, o Leão do Recife enfrentou a resistência do Juventude com a paciência do navegante que sabe que a tempestade passa e que o porto, por mais distante que pareça, existe. Sempre existiu.

Não foi espetáculo dos deuses, confessemo-lo sem desvelo: quarenta e sete por cento de posse de bola, treze faltas cometidas, apenas duas finalizações que olharam de verdade para o gol adversário. A geometria fria dos números diria, ao observador desavisado, que o Sport esteve contido, macambúzio quase, cerceado pelo ímpeto dos gaúchos em sua própria casa. Digo contido — e poderia dizer mais: pressionado, acuado por instantes, testado na fé. Mas que digo? O Sport não se abateu. O Sport nunca se abate. Há uma teimosia rubro-negra que desafia a lógica, que insulta a estatística, que ri na cara da adversidade como Odisseu ria dos pretendentes que julgavam Ítaca já conquistada.

E foi então que, aos oitenta e dois minutos de batalha, quando o Juventude já pensava ter segurado o empate como quem segura o ouro com as mãos trêmulas, foi então, eu dizia, que Chrystian Barletta, com a visão do estrategista que enxerga o que os outros não veem, encontrou Iury Castilho; e Iury, com aquela frieza beneditina de quem sabe que este é o momento para o qual nasceu, ajeitou o corpo, mirou o canto inferior esquerdo e, com uma batida de pé direito de fora da área que cortou o ar frio serrano como uma lança atirada pelos deuses, fez a bola beijar a rede do Juventude. Um a zero. Apenas um. Mas que um: esse um que vale mais do que centenas de chutes errados, mais do que anos de silêncio, mais do que toda a quietude daquela noite gaúcha que tentou engolir o Leão e não conseguiu.

O Juventude ficou ali, atordoado, tentando entender o que o havia atropelado naqueles últimos minutos. Há quase compaixão a despertar, é verdade, pela velha Caxias que viu seu estádio silenciar num instante; mas o cosmos não distribui vitórias por piedade — distribui-as por mérito, por persistência, por aquela virtude silenciosa de quem aguenta o oitavo, o nono e o décimo assalto sem cair. Os vinte e um milhões de rubro-negros espalhados pelos quatro cantos deste país, do Recife quente à diáspora longínqua, sentiram naquele gol tardio a confirmação do que sempre souberam: o Leão pode demorar, mas chega.

A Série B é longa, seus mares são traiçoeiros e seus escolhos são muitos. Mas Odisseu chegou a Ítaca. E o Sport chegará ao seu destino.

A jornada continua. E o Leão rugiu em Caxias do Sul.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Ninguém é mais vivo do que quem quase morreu

Dizem que a morte ensina. Ou melhor: estar diante da morte faz você encarar a vida com outros olhos. Ninguém vive tanto como quem já esteve morto. Quando o moribundo, já nos estertores da morte, decide levantar a cabeça, e lutar, e viver, aí, meus amigos, já não há mais nada nem ninguém no mundo que o possa segurar. A morte respeita quem a olha nos olhos e a enfrenta de cabeça erguida. Não existe ninguém mais vivo do que quem quase morreu e voltou.

O Sport esteve à beira do túmulo neste campeonato. O que digo? Esteve dentro do caixão já descido à terra. Já começavam a despejar melancolicamente, uma após outra, fúnebres pás de terra sobre a madeira vermelha e negra. Ninguém acreditava mais no Sport e, por outra: todos acreditavam na Série B. Até os times menores do ecossistema pernambucano -- a minhoca do canal e a catita da Rosa & Silva -- esqueciam-se da sua insignificância no enterro do Leão. Parecia que seu raquitismo esportivo, seu nanismo futebolístico, podiam ser deixados de lado no velório do adversário. Uma coisa assombrosa, os tricolores e os alvirrubros, dois defuntos desenterrados, trocando conversas de comadres junto ao Leão caído.

Houve um momento em que o time não suportou mais a humilhação. Sim, meus amigos, a verdade é esta: quem nasceu para Rei da Selva não aceita ser tratado como minhoca colorida ou gambá assustado. Dizem que a camisa pesa, o que é uma verdade, mas é preciso dizer ainda mais: a camisa levanta. O manto põe-se de pé. A tradição empurra para frente.

Falei aqui do gol de Gustavo, contra o Grêmio. Disse que não era um simples gol, que era uma profecia, um vaticínio. A vida da gente às vezes sofre reviravoltas por causa de um evento inesperado: golpes de sorte nos jogam por terra ou nos lançam aos ares. Sim, meus amigos, aquele gol mudou tudo. Ali, naquele balançar de redes, a besta enjaulada foi libertada e agora será difícil aos seus inimigos contê-la novamente. Agora é o poder e a hora do Leão. 

Foto: ge (Marlon Costa/Pernambuco Press)

Veja-se com que facilidade o Sport atropelou o Juventude ontem. Foram três gols em cima do visitante com uma fúria, com uma brutalidade que poderia parecer um exagero. Alguém disse que foi uma crueldade, uma humilhação desnecessária; meus amigos, a fera acorrentada há muito tempo não mede a sua força quando se põe em liberdade. Eis a verdade: o Leão está em frenesi, com gosto de sangue na boca, com os machucados do início do campeonato empurrando-lhe para adiante. A fera está cega de dor e de raiva contidas, em fúria assassina, estraçalhando quem quer que apareça na sua frente.

É até difícil escolher um lance do jogo para comentar. Mas seria uma indignidade não falar, aqui, do segundo gol do Leão, do golaço de Mikagol. O homem correu para a área como um náufrago corre para a praia. Olhava para a bola como quem perscruta o mar infinito no horizonte. Viu-a chegando com a euforia de um Robson Crusoé na iminência do resgate; e mandou-a para dentro da rede como um Tom Hanks sujo e ferido arremessando, furioso, Wilson para longe de si. Que bomba, meus amigos, que lance, que gol. Ali não falou a sorte nem a técnica, foi um lance de sobrevivência. Ali falou mais alto o instinto. Ali se operou o resgate. Ali o homem venceu.

Foram cinco gols em dois jogos após dois meses sem gols. A fera está solta de novo pelos campos brasileiros. Os adversários que se cuidem. O campeonato apenas começou.