segunda-feira, 29 de junho de 2026

A taça e a sede

Há uma crueldade particular nos destinos que se interrompem justamente quando pareciam prontos para se cumprir. Não a crueldade rude e direta do destino que nega tudo desde o princípio — essa, ao menos, tem a honestidade de não prometer. Falo da outra, da pior: aquela que concede, que acena, que deixa o homem provar o vinho na beira dos lábios, e então retira a taça com a precisão fria de um carrasco bem pago. Os gregos tinham um nome para isso: a hybris dos deuses — não a arrogância humana, como se costuma dizer, mas a crueldade divina de elevar o mortal até o patamar em que a queda se torna espetáculo. Tântalo não merecia a sede eterna. Merecia a água. E foi exatamente isso que o condenou.

Sport 1 x 2 Fortaleza

No Castelão, sob o céu nordestino que não pertence ao Leão mas que um dia haverá de temê-lo, o Sport Club do Recife viveu, no domingo passado, a parábola do suplício tantaliano em toda a sua perfídia. Sessenta por cento da posse de bola — sessenta! —, dezesseis tentativas de rasgar a tela do destino, a dominância técnica e territorial de quem não veio a Fortaleza para fazer turismo, mas para disputar. E, no entanto. E, no entanto. Rodrigo Santos, aos vinte e oito minutos, com um chute colocado da intermediária que não merecia entrar em nenhum jogo que pretendesse ser justo, abriu o placar para o triângulo cearense. Primeiro golpe da taça retirada.

Mas o Leão — e é aqui que a história se torna bela, que a crónica ganha a dignidade que merece — não aceitou o suplício. Pedro Perotti, de cabeça, aos sessenta e nove minutos, em mergulho audacioso dentro da pequena área, converteu o empate com a precisão de quem não sabe o significado da palavra resignação. Sim, meus amigos, aquele gol de Perotti não foi apenas um gol; foi uma declaração filosófica, uma recusa categórica ao papel de figurante que os donos da casa tentavam impor ao visitante rubro-negro. Vinte e dois milhões de torcedores, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, sentiram no peito aquele cabeceio como se fosse o próprio coração do clube a bater mais alto.

E então Tântalo voltou a estender a mão. E a água voltou a recuar. Nos acréscimos — nos acréscimos, senhoras e senhores, nesse território infame onde a injustiça se esconde atrás do cronômetro —, Welliton, com assistência de Juan Miritello, devolveu à casa tricolor a vitória que o Sport havia, com pleno direito e merecimento, lhe subtraído. Chute no ângulo, no último suspiro, no instante em que o empate já parecia um resultado razoável para uma noite tão bem disputada. Não, não foi merecimento, não foi justiça, não foi razoável, não. Foram os deuses caprichosos. Foi Tântalo. Foi a taça retirada.

Seria fácil, neste momento, entregar-me ao lamento. Seria fácil e seria humano. Mas há uma coisa que este cronista aprendeu — ao longo de décadas de Ilha do Retiro, de glórias e de purgações — a distinguir: a diferença entre um time que perde porque é inferior e um time que perde porque os deuses, naquela noite específica, decidiram ser cruéis. Não é a mesma coisa. É uma diferença moral, ontológica, de natureza. O Sport que dominou o segundo tempo em Fortaleza, que pressionou, que igualou, que tinha sessenta por cento da bola, não é um time que teme o rebaixamento; é um time a se temer o contrário: a ascensão inevitável que os adversários ainda não processaram.

O que se viu no Castelão foi, na essência, um time construindo aos poucos a consciência de sua própria grandeza. Como escreveu certa vez aquele rapaz de Florença, que entendia de infernos melhor do que ninguém: o caminho que leva ao paraíso passa, com frequência, pelos territórios mais sombrios, pelos círculos onde a injustiça tem nome e endereço. O Sport está nesse caminho. A Série B é o inferno que precede o purgatório que precede a glória. E o clube do Recife, fundado em mil e novecentos e cinco por homens que não tinham medo de nada, não vai tremer diante de um resultado amargo em terras alheias.

A taça foi retirada. Mas Tântalo, por fim, foi libertado. E a fome que o suplício criou é a fome mais perigosa que existe.

Que os cearenses aproveitem o desempate. O Leão não se permitirá sentir sede para sempre.

terça-feira, 16 de junho de 2026

A magnanimidade dos reis

Há uma virtude que os povos antigos consideravam superior à própria vitória: a magnanimidade. Não a condescendência do poderoso que olha para baixo com pena mal disfarçada, não a arrogância disfarçada de generosidade — mas a magnanimidade genuína, aquela que os romanos chamavam de magnanimus, a grandeza de alma que se manifesta precisamente quando o grande poderia esmagar e, por nobre capricho, escolhe não esmagar. Augusto, depois de Actium, poderia ter enchido o Fórum Romano de cabeças cortadas. Não o fez. Não porque lhe faltasse poder, mas porque lhe sobrava grandeza. E foi essa grandeza, mais do que qualquer legião, que lhe garantiu o título de primeiro entre os homens.

Sport 0 x 0 São Bernardo

O Sport Club do Recife chegou ao Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, com aquela pose serena e levemente intimidante de quem sabe o que é, sabe o que carrega, e não precisa de alardes para provar coisa alguma. Sessenta e três por cento de posse de bola — sessenta e três por cento, senhoras e senhores — e vinte e três chutes, seis deles exigindo atenção do guardião adversário. Não é o retrato de um time acuado. É o retrato de um imperador que passeia pelos corredores do palácio do vizinho com as mãos nas costas, curioso, dominante, sem pressa de declarar guerra.

O São Bernardo, time que ostenta o nome de uma cidade industrial, de estradas e de fumaça, tentou o que pôde dentro do que lhe era permitido: resistir. E há uma certa dignidade nisso, não vou negar. Como há dignidade na tartaruga que se fecha na própria carapaça diante do leão. A carapaça segura. O leão, todavia, não deixa de ser leão.

Vinte e três chutes e o gol que não veio. Isso, convenhamos, é o tipo de coisa que faz o cronista buscar consolo nos clássicos — e os encontra, felizmente, porque os clássicos têm consolo para tudo. Hesíodo já sabia que os deuses escondem o fogo dos homens por puro capricho; Tchekhov sabia que o arma do primeiro ato nem sempre dispara; e qualquer torcedor do Leão com mais de quarenta anos sabe que há noites em que a bola simplesmente não quer entrar, como se o próprio universo tivesse decidido adiar a festa por razões que só ele conhece. O Sport criou; o Sport pressionou; o Sport mandou no jogo de ponta a ponta. A bola, que é democrática e às vezes idiota, permaneceu longe das redes.

Mas voltemos à magnanimidade, que é onde esta crônica quer chegar. Empatar contra o São Bernardo, fora de casa, dominando a partida com a displicência aristocrática de quem tem outras guerras maiores para vencer, não é derrota. Não é sequer tropeço — e digo isso lembrando do que escrevi aqui há algumas semanas, sobre a pedra no caminho e a moira dos gregos. Aquele era um tropeço com sabor de injustiça. Isso aqui é outra coisa: é o grande navegador que, no meio de um cruzeiro tranquilo, encontra vento contrário por uma hora e chega ao porto com quarenta minutos de atraso. Incomoda. Não abala.

Vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este país de dimensões bíblicas sabem, no fundo de suas almas feridas e esperançosas, que um time que domina com sessenta e três por cento de posse, que arrisca vinte e três vezes, que não se curva, que não recua, que não entrega — esse time não está perdendo tempo. Esse time está amadurecendo. Está afinando o instrumento antes do concerto. E o concerto, que fique claro, está próximo.

A grandeza de Augusto não estava em Actium. Estava nos quarenta anos que se seguiram. O Leão está no meio do caminho, de pé, com sessenta e três por cento da bola e vinte e três razões para acreditar que o gol virá. Virá com a inevitabilidade das coisas que foram muito desejadas por gente que não tem o hábito de desistir.

Que o São Bernardo guarde bem essa carapaça. Na próxima vez, pode não ser suficiente.