Há uma espécie de injustiça que não se encontra nos códigos, que não tem tribunal competente nem jurisprudência capaz de remediar: a injustiça do momento. Não a injustiça da história longa, que o tempo costuma corrigir com a lentidão paciente dos séculos — essa, ao menos, cede. Falo da outra, a miúda e cruel, a que se consuma num instante preciso e deixa o homem de queixo caído e alma tonta, sem sequer a consolação de uma explicação razoável. É a injustiça do gol que entra quando não devia entrar, da cabeçada que encontra o canto impossível como se o destino tivesse marcado o ponto exato da queda e enviado um executor de confiança para cumprir o serviço.

Os físicos, esses poetas de jaleco, têm um conceito que me acompanha desde o ginásio: o caos determinístico. A ideia de que sistemas perfeitamente ordenados podem, a partir de uma perturbação infinitesimal, produzir resultados radicalmente imprevistos. Uma borboleta bate as asas no Amazonas; uma tempestade assola Tóquio. Um centímetro a mais na trajetória de uma bola; um Leão derrotado em Santa Catarina. O problema do caos, porém, é que ele não distribui os seus favores com equidade: há times que vivem no olho da borboleta, e há times que vivem na tempestade. Neste sábado de julho, no Heriberto Hülse, o Sport Clube do Recife viveu a tempestade.
Waguininho. O nome, convenhamos, não tem o peso épico de um Aquiles ou de um Cipião. Não ressoa nos salões da história como os grandes algores da humanidade. E, no entanto, foi ele — precisamente ele, no minuto vinte e nove do primeiro tempo — quem se ergueu entre os corpos e enviou a cabeça contra o centro da área com a convicção inabalável de quem cumpre uma missão recebida em sonho. A bola foi ao canto esquerdo com uma delicadeza traiçoeira, aquela que os carrascos aprendem quando querem que a vítima quase não sinta. Um a zero. E o Criciúma, esse tigre catarinense de listra amarela e memória curta, acreditou que havia vencido o universo.
Mas eis o que os números contam, e que nenhum placar tem jurisdição para apagar: o Sport teve cinquenta e quatro vírgula cinco por cento da bola. Catorze chutes tentados; quatro no alvo. Dezessete faltas cometidas — dezessete! — o que é, a seu modo, a prova de que o Leão estava presente, corporal, físico, vivo, reclamando palmo a palmo o chão que pisava. Não foi um time apagado, resignado, macambúzio, desses que aparecem em campo com a expressão de quem já consultou o horóscopo e sabe que o dia não será bom. Foi um time que jogou. Que pressionou. Que, por obra de um acaso furioso, levou o único gol da partida e não conseguiu, apesar de todas as suas tentativas, perfurar a muralha adversária.
Isto me recorda aquela frase que Dostoiévski colocou na boca do príncipe Míchkin: "A beleza salvará o mundo." Não disse que a beleza vencerá todas as batalhas, note-se bem. Disse que salvará. Há uma diferença abissal entre vencer e salvar, entre conquistar e preservar. O Sport, neste sábado no sul do país, não venceu. Mas salvou algo mais precioso que um placar: salvou a sua própria imagem de time que luta, que se impõe, que não entrega os pontos com a comodidade dos que já desistiram de existir com dignidade. Cinquenta e quatro por cento da bola é uma afirmação de identidade. É o Leão dizendo ao mundo que ainda existe.
Depois do que escrevi sobre a taça e a sede, sobre as derrotas que chegam justamente quando o homem parece mais próximo de beber — sinto, desta vez, algo diferente no ar. Não a resignação amarga, não o desespero que corrói. Sinto aquela espécie de fúria fria que os grandes times acumulam nas partidas que não deveriam ter perdido, e que se converte, nas partidas seguintes, em energia suficiente para derrubar muralhas. Os vinte e um milhões de rubro-negros que acompanharam este jogo — de longe, de perto, pelo celular na fila do banco ou pelo rádio na cozinha em chamas — sabem, com a sabedoria que só o amor incondicional concede, que o Leão não perdeu a guerra. Perdeu uma escaramuça. Num dia cinza. Num estádio que não é o seu.
O Heriberto Hülse ficará de pé. O placar ficará registrado. Waguininho terá o seu instante de glória catarinense, seu momento de cabeçada ao canto esquerdo, seu minuto vinte e nove imortalizado nas estatísticas de uma Série B que ainda tem muito chão pela frente. Mas o Sport Clube do Recife voltará — voltará com a sua história de noventa anos, com as suas estrelas no peito, com a fome que só cresce quando se nega o pão. E ninguém, em sã consciência, deveria querer estar do outro lado quando esse apetite se converter em gol.
O Leão não saciou a fome hoje. Isso o torna mais perigoso.