sábado, 11 de julho de 2026

O pêndulo e a graça

Há uma lei física que o futebol, com sua insolente vocação para a metáfora, resolve transformar em lei moral: o pêndulo que oscila para um lado oscila, com igual ímpeto, para o outro. Não há repouso no meio do arco — o repouso é ilusão, é pausa estratégica do destino antes de retomar o balanço. Foucault demonstrou, com o seu célebre pêndulo no Panteão de Paris, que a Terra gira enquanto o fio oscila; que o universo todo se move enquanto o homem jura que está parado. O futebol não é diferente: o time que parece dominar é aquele sobre o qual o pêndulo está prestes a cair; o time que parece perdido é aquele que sente, na sola da chuteira, a Terra girar sob seus pés e o fio começando a voltar.

Sport 3 x 3 Botafogo-SP

Pois foi exatamente isso — a física implacável do pêndulo — o que se viu na Ilha do Retiro na noite desta sexta, perante o Botafogo de Ribeirão Preto, essa equipe alvinegra do interior paulista que chegou à nossa casa como chegam as tempestades de verão: sem avisar, com estrondo súbito e chuva torrencial. Dois a zero no primeiro tempo. Dois gols em que o Sport parecia ter esquecido, momentaneamente, que existe a categoria "defesa"; dois gols em que o time parecia dormir, parecia esquecer a grandeza do manto sagrado que envergava sobre os ombros; dois miseráveis gols — o de Hugo Zé Hugo pelo ângulo direito, lançado por Everton Morelli como flecha, e o de Rafael Gava na penalidade, com a serenidade insuportável de quem já sabe onde vai colocar a bola antes mesmo de correr para bater — que fizeram vinte e quatro milhões de rubro-negros sentirem aquela náusea familiar, aquela vertigem específica do torcedor do Leão que reconhece a tonalidade exata do sofrimento. Nunca duvide do Sport. 

Mas o pêndulo voltou. Começou a voltar ainda nos estertores do primeiro tempo, quase como se Chrystian Barletta não aceitasse jantar com tamanha amargura: um chute do centro da área, colocado no canto superior direito com a naturalidade de quem pratica o gesto bonito desde que aprendeu a andar, e de repente era Sport um, Botafogo dois, e a Ilha acordava de seu torpor coletivo. O segundo gol veio da cabeça de Benevenuto — o zagueiro que, receba-se a informação com a seriedade que ela merece, também sabe aparecer quando é preciso —, encontrando o canto inferior esquerdo após cruzamento de Clayson, e o empate estava feito como se nunca tivesse sido outra coisa. O Sport tinha setenta e um por cento da posse, vinte chutes tentados: a fisionomia de uma equipe que não pede permissão para jogar.

E então o pêndulo voltou para o outro lado, como o pêndulo faz — porque é essa a sua natureza, e a natureza não lê os nossos roteiros sentimentais. Patrick Brey, de cabeça, pelo alto, da esquerda da pequena área, colocou o Botafogo paulista outra vez à frente, assistido pelo mesmo Rafael Gava que havia chutado o pênalti com tal calma que ficamos com raiva retroativa. Três a dois. Setenta e seis minutos jogados, catorze para acabar, e os vinte e sete milhões de rubro-negros espalhados pelo Brasil — e pelo mundo, que o nosso amor não tem fronteiras geográficas sensatas — entraram naquele estado meditativo particular que o torcedor do Sport conhece como a palma da mão: a mistura de esperança com terror, de fé com superstição, de prece com xingamento.

O que veio depois merece ser descrito com a voz que se usa para os momentos em que o destino, afinal de contas, tem pena de nós. Nos acréscimos do segundo tempo, penalidade para o Leão. Chrystian Barletta, o mesmo que havia aberto a reação, que havia anunciado no primeiro tempo que este Sport não aceitaria o vexame como sobremesa, se aproximou da marca de cal com a serenidade de quem já sabe onde vai colocar a bola. Ao centro. Com o pé esquerdo. Como se fosse a coisa mais simples do mundo empatar um jogo aos noventa e seis minutos depois de ter passado boa parte da tarde correndo atrás do placar. Simples para os fracos de espírito é celebrar quando está ganhando; é no instante de máxima pressão que a grandeza se revela sem retoque.

Escrevi aqui, na semana passada, sobre a injustiça do momento — sobre aquela crueldade miúda e específica do gol que entra quando não devia. Pois bem: hoje a injustiça foi, por assim dizer, democratizada. O Botafogo de Ribeirão Preto provou o que é marcar dois gols na Ilha e ver a Ilha responder; provar o empate, perder o empate, e ver o empate ser arrancado das entranhas do relógio como quem arranca uma confissão de uma pedra. Há uma certa poética nisso. Não é a poética que eu escolheria — preferiria, em tese, a poética da vitória limpa e folgada; mas o futebol, como todo grande artista, não consulta as nossas preferências antes de compor.

Três a três. O pêndulo parou, por esta tarde, no meio do arco. A Terra continua girando sob o fio; o fio continua oscilando; e os quase trinta milhões de rubro-negros continuam, como sempre, de pé.

O Leão não dorme, senhores. Ele oscila.

domingo, 5 de julho de 2026

A cabeçada do destino

Há uma espécie de injustiça que não se encontra nos códigos, que não tem tribunal competente nem jurisprudência capaz de remediar: a injustiça do momento. Não a injustiça da história longa, que o tempo costuma corrigir com a lentidão paciente dos séculos — essa, ao menos, cede. Falo da outra, a miúda e cruel, a que se consuma num instante preciso e deixa o homem de queixo caído e alma tonta, sem sequer a consolação de uma explicação razoável. É a injustiça do gol que entra quando não devia entrar, da cabeçada que encontra o canto impossível como se o destino tivesse marcado o ponto exato da queda e enviado um executor de confiança para cumprir o serviço.

Sport 0 x 1 Criciúma

Os físicos, esses poetas de jaleco, têm um conceito que me acompanha desde o ginásio: o caos determinístico. A ideia de que sistemas perfeitamente ordenados podem, a partir de uma perturbação infinitesimal, produzir resultados radicalmente imprevistos. Uma borboleta bate as asas no Amazonas; uma tempestade assola Tóquio. Um centímetro a mais na trajetória de uma bola; um Leão derrotado em Santa Catarina. O problema do caos, porém, é que ele não distribui os seus favores com equidade: há times que vivem no olho da borboleta, e há times que vivem na tempestade. Neste sábado de julho, no Heriberto Hülse, o Sport Club do Recife viveu a tempestade.

Waguininho. O nome, convenhamos, não tem o peso épico de um Aquiles ou de um Cipião. Não ressoa nos salões da história como os grandes algores da humanidade. E, no entanto, foi ele — precisamente ele, no minuto vinte e nove do primeiro tempo — quem se ergueu entre os corpos e enviou a cabeça contra o centro da área com a convicção inabalável de quem cumpre uma missão recebida em sonho. A bola foi ao canto esquerdo com uma delicadeza traiçoeira, aquela que os carrascos aprendem quando querem que a vítima quase não sinta. Um a zero. E o Criciúma, esse tigre catarinense de listra amarela e memória curta, acreditou que havia vencido o universo.

Mas eis o que os números contam, e que nenhum placar tem jurisdição para apagar: o Sport teve cinquenta e quatro vírgula cinco por cento da bola. Catorze chutes tentados; quatro no alvo. Dezessete faltas cometidas — dezessete! — o que é, a seu modo, a prova de que o Leão estava presente, corporal, físico, vivo, reclamando palmo a palmo o chão que pisava. Não foi um time apagado, resignado, macambúzio, desses que aparecem em campo com a expressão de quem já consultou o horóscopo e sabe que o dia não será bom. Foi um time que jogou. Que pressionou. Que, por obra de um acaso furioso, levou o único gol da partida e não conseguiu, apesar de todas as suas tentativas, perfurar a muralha adversária.

Isto me recorda aquela frase que Dostoiévski colocou na boca do príncipe Míchkin: "A beleza salvará o mundo." Não disse que a beleza vencerá todas as batalhas, note-se bem. Disse que salvará. Há uma diferença abissal entre vencer e salvar, entre conquistar e preservar. O Sport, neste sábado no sul do país, não venceu. Mas salvou algo mais precioso que um placar: salvou a sua própria imagem de time que luta, que se impõe, que não entrega os pontos com a comodidade dos que já desistiram de existir com dignidade. Cinquenta e quatro por cento da bola é uma afirmação de identidade. É o Leão dizendo ao mundo que ainda existe.

Depois do que escrevi sobre a taça e a sede, sobre as derrotas que chegam justamente quando o homem parece mais próximo de beber — sinto, desta vez, algo diferente no ar. Não a resignação amarga, não o desespero que corrói. Sinto aquela espécie de fúria fria que os grandes times acumulam nas partidas que não deveriam ter perdido, e que se converte, nas partidas seguintes, em energia suficiente para derrubar muralhas. Os vinte e um milhões de rubro-negros que acompanharam este jogo — de longe, de perto, pelo celular na fila do banco ou pelo rádio na cozinha em chamas — sabem, com a sabedoria que só o amor incondicional concede, que o Leão não perdeu a guerra. Perdeu uma escaramuça. Num dia cinza. Num estádio que não é o seu.

O Heriberto Hülse ficará de pé. O placar ficará registrado. Waguininho terá o seu instante de glória catarinense, seu momento de cabeçada ao canto esquerdo, seu minuto vinte e nove imortalizado nas estatísticas de uma Série B que ainda tem muito chão pela frente. Mas o Sport Club do Recife voltará — voltará com a sua história de noventa anos, com as suas estrelas no peito, com a fome que só cresce quando se nega o pão. E ninguém, em sã consciência, deveria querer estar do outro lado quando esse apetite se converter em gol.

O Leão não saciou a fome hoje. Isso o torna mais perigoso.