terça-feira, 28 de julho de 2026

A magnanimidade e a fraqueza

Há uma diferença, que os antigos conheciam bem e que nós, modernos apressados, tendemos a confundir, entre a generosidade e a fraqueza. A generosidade é virtude ativa, escolha consciente de quem tem o poder de destruir e decide, por uma espécie de graça interior, não o exercer inteiramente. A fraqueza é ausência — ausência de força, de concentração, de destino cumprido. O problema — e aqui está o nó górdio que Alexandre jamais soube desfazer com elegância, optando sempre pela espada — é que, vistas de fora, as duas se parecem com perturbadora fidelidade. O leão que abandona a presa a meio caminho tanto pode ser o leão magnânimo quanto o leão que simplesmente cansou. E cabe à história, essa narradora implacável e sem pressa, distinguir um do outro.

Sport 1 x 1 Cuiabá

Ora, o que aconteceu ontem na Ilha do Retiro — essa fortaleza vermelha e preta que a cidade de Maurício de Nassau jamais teria deixado construir, mas que a Pernambuco insurgente, esta sim, merecia — foi precisamente esse equívoco de leitura que os adversários cometem com o Sport há décadas. O Cuiabá, saído do coração do Brasil continental e seco como a caatinga no auge do verão, veio à Ilha convicto de que poderia sair com alguma coisa. E saiu. Mas enganam-se os que leem nisso uma limitação do Leão; o Leão simplesmente exerceu, no minuto setenta e cinco, aquela generosidade que os inimigos interpretam como fraqueza e que os iniciados sabem ser outra coisa: a deixa cavalheiresca de quem já escreveu o capítulo seguinte e não precisa, hoje, de capítulos perfeitos.

Pedro Perotti foi o instrumento da vontade rubro-negra no minuto cinquenta e três. Chute do centro da área, ao centro do gol — descrição fria que não faz jus ao que foi, na verdade, um ato de afirmação: o Sport comunicando ao adversário, à torcida, ao universo em geral, que estava ali, presente, vivo, com os dentes à mostra. Vinte e três milhões de rubro-negros ergueram-se, invisíveis mas sentidos, de suas cadeiras espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. O gol de Perotti não foi apenas um gol; foi uma declaração de princípios. E por vinte e dois minutos, o princípio se sustentou.

Depois veio Fábio Gomes, de cabeça, num cruzamento de Kauan Cristtyan que encontrou o canto superior esquerdo com aquela precisão irritante que os gols adversários reservam para seus momentos de maior insolência. O empate não foi cedido por falta de vontade, nem por falta de qualidade — foi cedido pela geometria traiçoeira do futebol, essa ciência imprecisa que de vez em quando, como já escrevi aqui por ocasião da cabeçada do destino que nos custou pontos amargos meses atrás, decide que a bola descreverá exatamente o arco que não deveria descrever. O Sport, com sessenta e sete vírgula sete por cento da posse, com dezessete chutes e a autoridade de quem domina o jogo no próprio reduto, não mereceu empatar. Mas o futebol, como Deus segundo Santo Agostinho, não é obrigado a merecer nossas aprovações.

E no entanto — e este "e no entanto" carrega o peso de uma conjunção adversativa que os gramáticos jamais esgotarão — há algo de digno neste ponto arranhado à quermesse cuiabana. A cavalheiria que custou reinos na França medieval, como já me detive a explorar neste blog, aqui não custou nada de vital: custou um ponto, apenas um, num campeonato que ainda tem léguas a percorrer. O Sport permanece na briga. O Sport permanece de pé. E o Cuiabá — coitado, mato-grossense, desorientado na umidade pesada do Recife — foi para casa com um ponto que o Leão, em sua magnanimidade involuntária, acabou por lhe conceder.

Mas que não se confunda a análise com a resignação. Dezessete chutes e apenas três no gol é o número que incomoda, que coça, que não deixa o cronista dormir em paz. É o número que sussurra: havia mais ali; havia uma vitória represada nos pés dos jogadores que não encontrou a saída. O talento existia — e este blog não tem por hábito mentir para consolar. O que faltou foi a pontaria fina, aquela frieza de toureiro no momento da estocada definitiva que transforma domínio em resultado. Aprende-se isso. Aprende-se com partidas exatamente como esta.

O Leão empatou. O Leão dominou. O Leão saiu da Ilha sem a vitória que o desempenho pedia, mas com a dignidade que a camisa exige. São coisas distintas, e às vezes é preciso separar o tecido fino do que foi de verdade grandioso — a posse, a pressão, a vontade — do tecido grosso do resultado que o calendário registrará com sua frieza burocrática. O calendário é impiedoso. A história, porém, lê nas entrelinhas.

A fera não se satisfez. E isso, convenhamos, é muito mais perigoso do que a fera saciada.

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