Há uma virtude que, mal praticada, se converte em vício — e o que é mais perturbador: converte-se num vício que se parece, perigosamente, com a própria virtude. Falo da cavalheiria. Aquela disposição nobre, herdada dos paladinos de Carlos Magno e dos cavaleiros errantes que Cervantes imortalizou com tanta ternura e tanta ironia, de dar ao inimigo mais do que ele merece; de proteger o fraco quando o fraco já está prostrado; de estender a mão quando bastaria erguer o pé. A cavalheiria, na guerra, já custou reinos. Em Crécy, em Azincourt, os nobres franceses cavalgaram em formação perfeita, com estandartes reluzentes e armaduras polidas, contra as flechas inglesas — e morreram, cavalheiros até o fim, com a elegância impecável de quem não aprendeu que a guerra não lê os manuais de etiqueta. O futebol, que é uma guerra com apito e chuteiras, não é diferente.
Porque existe, no futebol, um pecado que não se chama derrota. Chama-se concessão. É o ato de ter o adversário rendido, a fortaleza tomada, o estandarte plantado no campo inimigo — e, por um excesso de nobreza mal colocada, por um momento de distração que a história não perdoa, devolver ao vencido aquilo que ele jamais deveria ter recuperado. Os romanos, que entendiam de conquistas, tinham um ditado: parcere subiectis et debellare superbos — poupar os submissos e abater os soberbos. O problema é que o Operário Ferroviário, de Ponta Grossa, não veio à Ilha do Retiro como submisso. Veio com a cara de quem não leu Virgílio e não pretende ler.
O Leão abriu os portões da Ilha num sábado de julho — e o visitante entrou antes mesmo que o anfitrião tivesse tempo de se sentar. Aos seis minutos, uma investida pelas franjas da esquerda, Hildeberto servindo Aylon com a precisão seca de quem não veio passeando, e a bola foi parar no canto inferior como uma sentença ditada em voz alta: zero a um. Vinte e quatro milhões de rubro-negros, cada qual em seu sofá, cadeira ou arquibancada, experimentaram aquela familiar contração de estômago que só os torcedores do Sport sabem nomear com precisão. Mas o Leão, que conhece as regras dessa guerra mais do que qualquer mapa-múndi de futebol poderia indicar, não demorou. Aos dezessete minutos, Biel — com aquela irreverência de quem sabe exatamente onde o goleiro não vai chegar — expeliu um chute do centro da área que foi pousar no canto superior esquerdo com a arrogância elegante dos gols bonitos. Um a um. O equilíbrio restaurado. A ordem natural do cosmos, ainda que provisória, reafirmada.
O segundo tempo abriu com o Sport em modo conquistador. O Operário ainda mal havia arrumado as malas na área de retaguarda quando Biel — outra vez ele, esse Biel que parece ter feito um pacto com as musas do futebol — serviu Fábio Matheus na entrada da área, e Fábio Matheus colocou a bola no canto inferior direito de fora da caixa com a frieza de quem nunca na vida errou um chute desse tipo.
Dois a um. E foi nesse momento que a cavalheiria entrou em campo — não convocada, não escolhida, mas infiltrada, sub-reptícia, como um espião que se veste de aliado.
O Sport tinha o jogo. Tinha a vantagem. Tinha — e aqui a palavra é deliberada — o direito à vitória. Mas o futebol, que é teólogo disfarçado de espetáculo, não aceita que o direito e o resultado coincidam sem o pagamento de uma taxa.
Aos oitenta e seis minutos — faltavam apenas quatro para o apito final, apenas quatro, uma eternidade suficiente para um destino descuidado agir — Gabriel Feliciano cruzou da direita com o capricho de quem estava guardando aquele cruzamento para o momento mais dramático possível, e Vinícius Diniz cabecou ao canto. Dois a dois. O ponto que a crônica do pêndulo, aqui mesmo neste blog, havia anunciado com antecedência quase profética: o universo que oscila, que pune o imóvel, que cobra do distante. O Operário empatou como os franceses em Agincourt deveriam ter batido em retirada — tarde demais, mas com eficiência suficiente para estragar o dia.
Que se diga, em defesa do Leão: vinte e três chutes, cinquenta e cinco por cento de posse, oito finalizações no alvo — um domínio que os números registram com a fidelidade de um notário, e que o placar traiu com a imparcialidade bruta dos números que não guardam rancor. Vinte e quatro faltas cometidas — sim, vinte e quatro, o que sugere um Sport que brigou, que não se entregou, que usou as próprias infrações como prova de que estava lá, presente, disputando cada centímetro da Ilha como se cada centímetro fosse patrimônio irrenunciável. Não foi uma noite de acomodamento. Não foi sonolência. Foi, talvez, o excesso oposto: a grandeza que deixa frestas.
O empate, convenhamos, tem a sua dignidade. Magnanimidade real, como aqui já se escreveu quando de outra ocasião semelhante — o Leão que, podendo esmagar, concede ao visitante o ponto que a cavalheiria mal aplicada distribuiu no minuto oitenta e seis. Mas a diferença, esta semana, é que o ponto concedido não foi por generosidade de alma: foi por um instante de descuido que o calendário vai cobrar com juros compostos. A Série B não tem paciência com empates que poderiam ser vitórias. E o Leão, que conhece esse campeonato pela textura áspera das promoções e dos sofrimentos, sabe disso melhor do que ninguém.
O punhal estava na bainha. Faltou sacá-lo quatro minutos antes.
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