Há uma figura que os gregos conheciam bem e que os modernos, distraídos com suas telas e suas presas, teimam em ignorar: a figura do Daemon, o espírito intermediário que habita o espaço entre o homem e os deuses, que não é nem providência nem acaso, mas aquela força oblíqua e caprichosa que resolve, nas horas finais das coisas, mudar a inclinação do prato da balança. Não o destino na sua forma majestosa e trágica, não a fortuna cega girando sua roda com indiferença olímpica — mas o Daemon miúdo, o duende da décima última hora, aquele que espera o homem repousar na certeza para então, com um sorriso de menino mal-criado, tirar o tapete.

A Serrinha, em Goiânia, é um estádio de nomes sonoros e memórias provincianas; um lugar onde o Esmeraldino da capital goiana imagina ser grande, onde a torcida verde faz barulho suficiente para convencer a si mesma. O Sport Club do Recife foi até lá, nesta quarta-feira de julho, com a postura de quem não pediu licença para entrar. E não pediu mesmo. Biel enxergou o corredor que outros não enxergariam, serviu Pedro Perotti com a precisão de quem conhece a geometria do campo como arquiteto conhece uma planta baixa, e Perotti — com o pé direito, com aquela frieza de mercenário que sabe o preço do gol — encaixou na parte de baixo do ângulo direito. Goiás 0, Sport 1. O relógio marcava vinte e dois minutos. O Leão rugiu, e o silêncio que se seguiu nas arquibancadas esmeraldinas foi o silêncio específico de quem ainda não entendeu o que acabou de acontecer.
Durante sessenta e seis longos minutos, o Sport tratou aquele placar como quem trata uma herança modesta mas legítima: com cuidado, sem ostentação, com a consciência de que não se dilapida o que foi ganho com suor e talento. A posse de bola era do Goiás — quarenta e três vírgula três por cento não mentem e não lisonjam, dizem o que é —, mas posse não é domínio, e domínio não é gol, e gol é a única linguagem que a tabela da Série B é capaz de ler. O rubro-negro de Pernambuco chutou seis vezes, três enquadradas, e administrou o que tinha com a economia de quem percorreu longa estrada e sabe que a água no cantil não é infinita.
E então, nos estertores do jogo — no minuto oitenta e oito, quando já se contavam os segundos com os dedos — apareceu o Daemon. Luiz Felipe tocou para Djalma Silva, e Djalma Silva, de fora da área, com o pé esquerdo, achou o ângulo superior esquerdo com aquela insolência específica do gol que não devia entrar. Não havia, na lógica da partida, justificativa alguma para aquele arremate resultar em gol. Havia, talvez, uma justificativa cósmica: a de que o universo, de vez em quando, precisa lembrar ao torcedor rubro-negro que a paz definitiva não está entre as concessões disponíveis. O empate chegou não porque o Goiás era melhor. Chegou porque o Daemon quis assim, às 88 do segundo tempo, no fundo de um estádio de província.
Mas aqui o cronista, que já escreveu sobre pêndulos e sobre taças retiradas na beira dos lábios, não cairá na armadilha do lamento puro. O Sport foi a Goiânia, cidade de outro estado, fuso de outro temperamento, e esteve à frente durante quase todo o jogo. Não recuou em covardia, não se aninhou atrás de uma linha baixa implorando para que o tempo corresse depressa — jogou com a altivez que se espera de um clube de cento e vinte anos de história, de um clube que carrega no escudo o leão amarelo como quem carrega uma certidão de nobreza. Que o Daemon lhe tenha roubado dois pontos no final não apaga o que foi construído do primeiro ao octogésimo sétimo minuto.
A magnanimidade — e os leitores deste blog saberão que essa palavra já compareceu aqui antes, não como ornamento mas como conceito central — tem também uma versão involuntária: a do generoso que reparte o que não queria repartir, que concede o ponto que merecia ser seu. O Sport, esta noite na Serrinha, foi magnânimo à revelia. Deu ao Esmeraldino a esmola de um empate que ele não tinha construído para merecer. Chamemos isso, se quisermos ser cavalheiros, de um gesto nobre. Se quisermos ser honestos, chamemos de injustiça miúda, daquelas que o tempo absorve sem cerimônia.
O Leão volta para a Ilha do Retiro com um ponto na bagagem e com a convicção, que nada nesta noite foi capaz de abalar, de que o caminho é este. A Série B é uma maratona de estações, não um sprint de fim de tarde, e cada ponto arrancado de uma praça adversária tem um peso específico que a tabela registra em números mas que os vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este país entendem na carne. O empate dói, sim; seria desonesto negar. Mas a dor de hoje é o combustível de amanhã.
O Daemon que roubou o segundo ponto na Serrinha haverá de encontrar o Leão em melhor humor na próxima vez.
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