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quinta-feira, 23 de julho de 2026

A longa sombra do minuto oitenta e oito

Há uma figura que os gregos conheciam bem e que os modernos, distraídos com suas telas e suas presas, teimam em ignorar: a figura do Daemon, o espírito intermediário que habita o espaço entre o homem e os deuses, que não é nem providência nem acaso, mas aquela força oblíqua e caprichosa que resolve, nas horas finais das coisas, mudar a inclinação do prato da balança. Não o destino na sua forma majestosa e trágica, não a fortuna cega girando sua roda com indiferença olímpica — mas o Daemon miúdo, o duende da décima última hora, aquele que espera o homem repousar na certeza para então, com um sorriso de menino mal-criado, tirar o tapete.

Sport 1 x 1 Goiás

A Serrinha, em Goiânia, é um estádio de nomes sonoros e memórias provincianas; um lugar onde o Esmeraldino da capital goiana imagina ser grande, onde a torcida verde faz barulho suficiente para convencer a si mesma. O Sport Club do Recife foi até lá, nesta quarta-feira de julho, com a postura de quem não pediu licença para entrar. E não pediu mesmo. Biel enxergou o corredor que outros não enxergariam, serviu Pedro Perotti com a precisão de quem conhece a geometria do campo como arquiteto conhece uma planta baixa, e Perotti — com o pé direito, com aquela frieza de mercenário que sabe o preço do gol — encaixou na parte de baixo do ângulo direito. Goiás 0, Sport 1. O relógio marcava vinte e dois minutos. O Leão rugiu, e o silêncio que se seguiu nas arquibancadas esmeraldinas foi o silêncio específico de quem ainda não entendeu o que acabou de acontecer.

Durante sessenta e seis longos minutos, o Sport tratou aquele placar como quem trata uma herança modesta mas legítima: com cuidado, sem ostentação, com a consciência de que não se dilapida o que foi ganho com suor e talento. A posse de bola era do Goiás — quarenta e três vírgula três por cento não mentem e não lisonjam, dizem o que é —, mas posse não é domínio, e domínio não é gol, e gol é a única linguagem que a tabela da Série B é capaz de ler. O rubro-negro de Pernambuco chutou seis vezes, três enquadradas, e administrou o que tinha com a economia de quem percorreu longa estrada e sabe que a água no cantil não é infinita.

E então, nos estertores do jogo — no minuto oitenta e oito, quando já se contavam os segundos com os dedos — apareceu o Daemon. Luiz Felipe tocou para Djalma Silva, e Djalma Silva, de fora da área, com o pé esquerdo, achou o ângulo superior esquerdo com aquela insolência específica do gol que não devia entrar. Não havia, na lógica da partida, justificativa alguma para aquele arremate resultar em gol. Havia, talvez, uma justificativa cósmica: a de que o universo, de vez em quando, precisa lembrar ao torcedor rubro-negro que a paz definitiva não está entre as concessões disponíveis. O empate chegou não porque o Goiás era melhor. Chegou porque o Daemon quis assim, às 88 do segundo tempo, no fundo de um estádio de província.

Mas aqui o cronista, que já escreveu sobre pêndulos e sobre taças retiradas na beira dos lábios, não cairá na armadilha do lamento puro. O Sport foi a Goiânia, cidade de outro estado, fuso de outro temperamento, e esteve à frente durante quase todo o jogo. Não recuou em covardia, não se aninhou atrás de uma linha baixa implorando para que o tempo corresse depressa — jogou com a altivez que se espera de um clube de cento e vinte anos de história, de um clube que carrega no escudo o leão amarelo como quem carrega uma certidão de nobreza. Que o Daemon lhe tenha roubado dois pontos no final não apaga o que foi construído do primeiro ao octogésimo sétimo minuto.

A magnanimidade — e os leitores deste blog saberão que essa palavra já compareceu aqui antes, não como ornamento mas como conceito central — tem também uma versão involuntária: a do generoso que reparte o que não queria repartir, que concede o ponto que merecia ser seu. O Sport, esta noite na Serrinha, foi magnânimo à revelia. Deu ao Esmeraldino a esmola de um empate que ele não tinha construído para merecer. Chamemos isso, se quisermos ser cavalheiros, de um gesto nobre. Se quisermos ser honestos, chamemos de injustiça miúda, daquelas que o tempo absorve sem cerimônia.

O Leão volta para a Ilha do Retiro com um ponto na bagagem e com a convicção, que nada nesta noite foi capaz de abalar, de que o caminho é este. A Série B é uma maratona de estações, não um sprint de fim de tarde, e cada ponto arrancado de uma praça adversária tem um peso específico que a tabela registra em números mas que os vinte e um milhões de rubro-negros espalhados por este país entendem na carne. O empate dói, sim; seria desonesto negar. Mas a dor de hoje é o combustível de amanhã.

O Daemon que roubou o segundo ponto na Serrinha haverá de encontrar o Leão em melhor humor na próxima vez.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

O Olimpo do futebol

Em nossos dias é cada vez mais comum ver pessoas celebrando a sexta-feira. Afinal, trata-se do dia que marca o início do fim-de-semana, quando as ocupações do quotidiano dão lugar aos merecidos descansos do sábado e do domingo. A verdade é que o homem não é homem sem os seus pequenos prazeres inconfessáveis, sem as veleidades do homem comum -- que as tem sem nem lhes ser capaz de nomear. Se é verdade que o trabalho enobrece, não é menos verdade que o só trabalho embrutece. É apenas da natureza bruta que se pode esperar uma constância indefinida; o homem, cada homem, comporta em si maior complexidade que no resto inteiro da Criação.

Somente o homem poderia ter inventado o tédio. Dizem que os gregos pintaram os seus deuses com todos os vícios humanos; isso é uma meia verdade. Se você reparar bem, não há tédio entre os Olímpicos, e isso não somente por causa das diabruras que somente os deuses, por serem deuses, são capazes de fazer. Não é apenas isso. O mais impressionante poder de Zeus não é o de se transformar em cisnes e touros para seduzir donzelas; o que assombra, o que é sobre-humano, é que ele jamais se canse de mandar chuva sobre a Hélade.

E não se trata de um fenômeno isolado, reservado talvez à majestade do Rei dos Deuses. É uma constância universal. Apolo cavalga sobre os céus, do Oriente ao Ocidente, todos os dias, sem que se tenha registro de uma vez sequer em que o sol tivesse deixado de nascer por incúria do jovem Febo. Caronte atravessa o Estige de uma margem à outra o tempo inteiro, desde que o mundo é mundo, sem que jamais o Reino dos Mortos tenha deixado de ser o recalcitrante destino da peregrinação dos mortais. Eis o que quero dizer: Hélio não pára e o Hades não fecha. Ora, nenhum homem no mundo seria capaz de desempenhar essas divinas tarefas, não por elas serem grandiosas demais, mas simplesmente por serem por demais tediosas. Privem-se os homens dos domingos e feriados, e rapidamente se verá uma convulsão social de fazer a expulsão dos Titãs parecer um desentendimento de comadres.

E é esta a força que se encontra por trás das últimas duas partidas do Sport, este poder insaciável desconhecido até mesmo dos antigos deuses: o tédio. Sim, meus amigos, o tédio pode por vezes chegar ao limite do insuportável. Afinal, nenhum time de verdade consegue perder indefinidamente: chega um momento em que ele simplesmente se cansa de apanhar, da mesma maneira que um operário de fábrica não consegue apertar porcas vinte e quatro horas por dia. Há limites para tudo nesta vida. Uma hora explode a revolta.

E ela veio. Primeiro foi o Grêmio, na quinta-feira, longe de casa, abrindo antecipadamente os festejos do final de semana. Os primeiros trinta minutos de jogo foram a melhor meia hora do Sport em campo, desde o início do campeonato e eu diria até mais: desde o ano passado, talvez desde 2017. Fazia tempo que não se via o time jogar com tanto entrosamento, com tanta raça, com tanta gana de vencer: em uma palavra, fazia tempo que não se via o Sport ser o Sport. Aquele gol de Patric logo aos cinco minutos de jogo foi o que desestabilizou o tricolor gaúcho, e foi a sorte do Glorioso: depois o Grêmio até se encontrou em campo, mas não foi capaz de fazer frente a um Leão mortiferamente entediado.

Foto: UOL.
Pedro H. Tesch/AGIF

E, ontem, foi o Goiás, aqui no Adelmar da Costa Carvalho, quem foi vítima da fúria tediosa do Sport. Havendo sentido o gosto de sangue na quinta-feira, o time estava sofrendo de violenta visão de túnel: não olhava para nada a não ser para o gol, gol, gol. Era a única coisa que importava, o único objetivo. A correnteza das revoluções tem mais força do que direção, e por vezes se volta contra os próprios companheiros no caminho: assim o Leão em frenesi, ontem, cravou três gols na Ilha do Retiro, incluído aí até um gol contra. Meus amigos, foi uma carnificina. Parecia uma Revolução Francesa cortando cabeças pelo simples prazer de ver esguichar o sangue: assim era Elton chutando a bola em direção ao gol, a qualquer gol, só pelo prazer de ver a rede balançar. Foi uma loucura.

E foi uma vitória marcante porque o time venceu inclusive os seus próprios defeitos. Venceu a má fase, emplacando duas vitórias seguidas, venceu o lanterna do campeonato (feito glorioso que, por si só, já valeria uma comemoração de final de Copa do Mundo!), e venceu até mesmo o próprio gol contra. Meus amigos, um time que pode se dar ao luxo de não se abalar com um gol contra já transcendeu o mundo dos mortais. Podem trazer o incenso e erigir os templos: com estas duas últimas vitórias, o Sport ingressa oficialmente no Olimpo do futebol.