Há uma lei física que o futebol, com sua insolente vocação para a metáfora, resolve transformar em lei moral: o pêndulo que oscila para um lado oscila, com igual ímpeto, para o outro. Não há repouso no meio do arco — o repouso é ilusão, é pausa estratégica do destino antes de retomar o balanço. Foucault demonstrou, com o seu célebre pêndulo no Panteão de Paris, que a Terra gira enquanto o fio oscila; que o universo todo se move enquanto o homem jura que está parado. O futebol não é diferente: o time que parece dominar é aquele sobre o qual o pêndulo está prestes a cair; o time que parece perdido é aquele que sente, na sola da chuteira, a Terra girar sob seus pés e o fio começando a voltar.

Pois foi exatamente isso — a física implacável do pêndulo — o que se viu na Ilha do Retiro na noite desta sexta, perante o Botafogo de Ribeirão Preto, essa equipe alvinegra do interior paulista que chegou à nossa casa como chegam as tempestades de verão: sem avisar, com estrondo súbito e chuva torrencial. Dois a zero no primeiro tempo. Dois gols em que o Sport parecia ter esquecido, momentaneamente, que existe a categoria "defesa"; dois gols em que o time parecia dormir, parecia esquecer a grandeza do manto sagrado que envergava sobre os ombros; dois miseráveis gols — o de Hugo Zé Hugo pelo ângulo direito, lançado por Everton Morelli como flecha, e o de Rafael Gava na penalidade, com a serenidade insuportável de quem já sabe onde vai colocar a bola antes mesmo de correr para bater — que fizeram vinte e quatro milhões de rubro-negros sentirem aquela náusea familiar, aquela vertigem específica do torcedor do Leão que reconhece a tonalidade exata do sofrimento. Nunca duvide do Sport.
Mas o pêndulo voltou. Começou a voltar ainda nos estertores do primeiro tempo, quase como se Chrystian Barletta não aceitasse jantar com tamanha amargura: um chute do centro da área, colocado no canto superior direito com a naturalidade de quem pratica o gesto bonito desde que aprendeu a andar, e de repente era Sport um, Botafogo dois, e a Ilha acordava de seu torpor coletivo. O segundo gol veio da cabeça de Benevenuto — o zagueiro que, receba-se a informação com a seriedade que ela merece, também sabe aparecer quando é preciso —, encontrando o canto inferior esquerdo após cruzamento de Clayson, e o empate estava feito como se nunca tivesse sido outra coisa. O Sport tinha setenta e um por cento da posse, vinte chutes tentados: a fisionomia de uma equipe que não pede permissão para jogar.
E então o pêndulo voltou para o outro lado, como o pêndulo faz — porque é essa a sua natureza, e a natureza não lê os nossos roteiros sentimentais. Patrick Brey, de cabeça, pelo alto, da esquerda da pequena área, colocou o Botafogo paulista outra vez à frente, assistido pelo mesmo Rafael Gava que havia chutado o pênalti com tal calma que ficamos com raiva retroativa. Três a dois. Setenta e seis minutos jogados, catorze para acabar, e os vinte e sete milhões de rubro-negros espalhados pelo Brasil — e pelo mundo, que o nosso amor não tem fronteiras geográficas sensatas — entraram naquele estado meditativo particular que o torcedor do Sport conhece como a palma da mão: a mistura de esperança com terror, de fé com superstição, de prece com xingamento.
O que veio depois merece ser descrito com a voz que se usa para os momentos em que o destino, afinal de contas, tem pena de nós. Nos acréscimos do segundo tempo, penalidade para o Leão. Chrystian Barletta, o mesmo que havia aberto a reação, que havia anunciado no primeiro tempo que este Sport não aceitaria o vexame como sobremesa, se aproximou da marca de cal com a serenidade de quem já sabe onde vai colocar a bola. Ao centro. Com o pé esquerdo. Como se fosse a coisa mais simples do mundo empatar um jogo aos noventa e seis minutos depois de ter passado boa parte da tarde correndo atrás do placar. Simples para os fracos de espírito é celebrar quando está ganhando; é no instante de máxima pressão que a grandeza se revela sem retoque.
Escrevi aqui, na semana passada, sobre a injustiça do momento — sobre aquela crueldade miúda e específica do gol que entra quando não devia. Pois bem: hoje a injustiça foi, por assim dizer, democratizada. O Botafogo de Ribeirão Preto provou o que é marcar dois gols na Ilha e ver a Ilha responder; provar o empate, perder o empate, e ver o empate ser arrancado das entranhas do relógio como quem arranca uma confissão de uma pedra. Há uma certa poética nisso. Não é a poética que eu escolheria — preferiria, em tese, a poética da vitória limpa e folgada; mas o futebol, como todo grande artista, não consulta as nossas preferências antes de compor.
Três a três. O pêndulo parou, por esta tarde, no meio do arco. A Terra continua girando sob o fio; o fio continua oscilando; e os quase trinta milhões de rubro-negros continuam, como sempre, de pé.
O Leão não dorme, senhores. Ele oscila.
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