Há algo de profundamente homérico na condição do viajante que parte sem a certeza do regresso: aquele que abandona o porto familiar, enfrenta mares hostis e povos estranhos, e precisa, a cada aurora, reconquistar o direito de seguir em frente. Odisseu não era o mais forte dos guerreiros aqueus; não possuía a fúria de Aquiles nem a envergadura de Ájax. Tinha, porém, o que os deuses concedem apenas aos eleitos: a capacidade de resistir, de dobrar-se sem quebrar, de encontrar no último átimo o caminho de volta para casa. É esse o dom dos grandes. É essa a marca dos que foram feitos para durar.

Ironia dos deuses. O Sport trafega há meses por esses mares bravios da Série B — longe do Olimpo que lhe é de direito, longe das iluminadas noites da primeira divisão, visitando portos de segunda categoria que jamais o merecem como hóspede. E no último sábado, na austera e fria Caxias do Sul, naquele estádio do Alfredo Jaconi que se ergue entre pinheiros como um forte de guerra sulista, o Leão do Recife enfrentou a resistência do Juventude com a paciência do navegante que sabe que a tempestade passa e que o porto, por mais distante que pareça, existe. Sempre existiu.
Não foi espetáculo dos deuses, confessemo-lo sem desvelo: quarenta e sete por cento de posse de bola, treze faltas cometidas, apenas duas finalizações que olharam de verdade para o gol adversário. A geometria fria dos números diria, ao observador desavisado, que o Sport esteve contido, macambúzio quase, cerceado pelo ímpeto dos gaúchos em sua própria casa. Digo contido — e poderia dizer mais: pressionado, acuado por instantes, testado na fé. Mas que digo? O Sport não se abateu. O Sport nunca se abate. Há uma teimosia rubro-negra que desafia a lógica, que insulta a estatística, que ri na cara da adversidade como Odisseu ria dos pretendentes que julgavam Ítaca já conquistada.
E foi então que, aos oitenta e dois minutos de batalha, quando o Juventude já pensava ter segurado o empate como quem segura o ouro com as mãos trêmulas, foi então, eu dizia, que Chrystian Barletta, com a visão do estrategista que enxerga o que os outros não veem, encontrou Iury Castilho; e Iury, com aquela frieza beneditina de quem sabe que este é o momento para o qual nasceu, ajeitou o corpo, mirou o canto inferior esquerdo e, com uma batida de pé direito de fora da área que cortou o ar frio serrano como uma lança atirada pelos deuses, fez a bola beijar a rede do Juventude. Um a zero. Apenas um. Mas que um: esse um que vale mais do que centenas de chutes errados, mais do que anos de silêncio, mais do que toda a quietude daquela noite gaúcha que tentou engolir o Leão e não conseguiu.
O Juventude ficou ali, atordoado, tentando entender o que o havia atropelado naqueles últimos minutos. Há quase compaixão a despertar, é verdade, pela velha Caxias que viu seu estádio silenciar num instante; mas o cosmos não distribui vitórias por piedade — distribui-as por mérito, por persistência, por aquela virtude silenciosa de quem aguenta o oitavo, o nono e o décimo assalto sem cair. Os vinte e um milhões de rubro-negros espalhados pelos quatro cantos deste país, do Recife quente à diáspora longínqua, sentiram naquele gol tardio a confirmação do que sempre souberam: o Leão pode demorar, mas chega.
A Série B é longa, seus mares são traiçoeiros e seus escolhos são muitos. Mas Odisseu chegou a Ítaca. E o Sport chegará ao seu destino.
A jornada continua. E o Leão rugiu em Caxias do Sul.
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