Há uma figura que atravessa os séculos com uma tenacidade que confunde e emociona: a do filho que retorna. Não o filho que jamais partiu, que ficou na varanda contemplando o horizonte com olhos mortiços e alma entorpecida pelo conforto da mesmice — esse não tem história, não tem épica, não tem canção. O filho que retorna é aquele que saiu, que errou, que se perdeu nos descaminhos do mundo, que comeu pão amargo na mesa de estranhos e dormiu sob céus que não eram os seus; e que, num determinado instante, reconhece nos próprios passos o caminho de volta para casa. Lucas narrou essa parábola com uma delicadeza quase cruel; Dostoievski a reescreveu em prosa de fogo nos subterrâneos da alma russa. O que ambos entenderam, cada qual a seu modo, é que o regresso não é fraqueza. É, na verdade, a forma mais elevada de coragem.

A Ilha do Retiro — e o próprio nome já é uma parábola, já é uma promessa, já é um destino — recebeu ontem, sob o céu de um maio que teima em não se despedir, aquele Náutico que por tantas décadas foi o vizinho incômodo, o primo encrenqueiro, o rival de bairro que aparece na festa sem ser chamado e ainda tem a petulância de disputar o último pedaço do bolo. O clássico pernambucano tem desse sabor: não é rivalidade de estádio apenas, é rivalidade de rua, de calçada, de família dividida à mesa do almoço. E é precisamente por isso que vencer o Náutico não é apenas vencer um adversário — é uma afirmação de território, de identidade, de que esta cidade é vermelha e preta e continua pertencendo a quem sempre pertenceu.
Chrystian Barletta, esse rapaz de chuteiras furiosas e temperamento de gladiador, foi o instrumento escolhido pelo destino para executar a sentença. Aos vinte e oito minutos, a pena máxima — que o vulgo chama de pênalti com aquela displicência de quem não entende o peso do momento — convertida com a frieza de quem nunca duvidou da própria pontaria: canto esquerdo, fundo da rede, silêncio dos visitantes, explosão dos que vestem o rubro-negro. Uma estocada de espadachim que aprendeu a matar com precisão cirúrgica. O mesmo Chrystian voltaria ao palco no ocaso da partida, já aos oitenta e três minutos, desta vez recebendo o passe de Carlos De Peña, o uruguaio de alma tangueira e cruzamentos que parecem rasgar as veias da América Latina, para concluir de perto, com a naturalidade de quem está em casa, porque estava, literalmente, em casa. Dois a zero. Jogo encerrado. Julgamento proferido.
Dirão os mal-avisados que o Sport dominou pouco a posse de bola; que os números frios apontam para apenas 39 por cento do tempo com a redonda nos pés; que os chutes foram apenas oito, míseros oito, como se a eficiência de um predador se medisse pela quantidade de garras e não pela precisão da dentada. Absurdo. O leão não precisa correr atrás de toda gazela que passa; ele escolhe, ele aguarda, ele ataca quando o momento convém. E quando ataca, a conta se paga em sangue.
O Náutico, o velho Timbu — e é preciso ter alguma compaixão pelo vizinho que saiu da Ilha com as mãos abanando, mancando e machucado — tentou o que podia com o que tinha. Mas há derrotas que não são acidentes; são, antes, a revelação de uma hierarquia que o tempo inscreveu em letras maiúsculas na história do futebol pernambucano. E resistir ao Sport na Ilha, especialmente a um Sport que encontrou o ritmo e o gosto do sangue, é exercício de futilidade heróica. Os visitantes foram desbaratados sem violência excessiva, como se desfaz um castelo de areia: gentilmente, com a maré certa, no momento oportuno.
Depois do que escrevi na quarta passada sobre a odisseia rubro-negra — aquele elã homérico do viajante que insiste em voltar para casa —, esta vitória tem um sabor particular de continuidade, de narrativa que se recusa a encerrar em nota trágica. A Série B é um labirinto de armadilhas e ilusões, e cada vitória no clássico é um fio de Ariadne que nos guia um passo a mais para fora do labirinto. Essa vitória confirma o que a anterior apenas insinuava: este Sport não está apenas jogando, está construindo. E há uma diferença enorme entre um time que acumula resultados e um time que ergue um monumento.
O Sport venceu o clássico, fez dois, manteve o zero, mandou recado à tabela e à galera, e fez tudo isso com dezoito faltas cometidas que dizem, sem pudor, que este elenco não veio para dançar quadrilha. Veio para brigar pela Série A, com as unhas, com os dentes, com a alma que a camisa vermelha e preta exige de quem a veste.
O filho pródigo foi recebido com festa. E a festa, senhoras e senhores, está apenas começando.
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