segunda-feira, 18 de maio de 2026

A pedra no caminho

Há uma certa beleza cruel no tropicão — não naquele tropeço doméstico, banal, de quem escorrega no próprio quintal por distração ou preguiça, mas no tropeço que vem carregado de injustiça, de fatalidade, de uma daquelas ironias que os gregos chamavam de moira e que os modernos, menos poéticos, chamam simplesmente de azar. Drummond, o poeta de Itabira, sabia disso quando escreveu seu verso mais célebre: no meio do caminho tinha uma pedra. A pedra não tem sentimentos. A pedra não raciocina. A pedra apenas está — e o viajante, por mais nobre que seja seu destino, por mais firmes que sejam seus passos, às vezes tropeça nela. Não porque seja fraco. Não porque mereça a queda. Mas porque a pedra, naquele dia, estava exatamente onde o destino, com sua ironia característica, a havia colocado.

Sport 1 x 2 CRB

Pois bem: na noite deste décimo sétimo dia de maio de dois mil e vinte e seis, uma pedra chamada CRB postou-se no meio do caminho do Sport Clube do Recife. Não foi uma pedra gloriosa, daquelas que esculpem herois e forjam lendas; foi uma pedra pálida, alagoana, que pouco tinha a oferecer além da obstinação de quem nada tem a perder. E o Leão — meu Leão, o Leão de vinte e um milhões de rubro-negros espalhados pelos quatro cantos deste país — tropeçou. A Ilha do Retiro, aquele templo erguido sobre a memória de gerações de fiéis, assistiu calada a um resultado que a lógica repudia e que a história certamente saberá julgar com mais justiça do que o placar frio e impassível.

O CRB, como convém às criaturas que sabem que o tempo lhes é curto, lançou-se à tarefa de morder cedo. Foi o tal Mikael — nome de anjo para uma alma de salteador — quem, aos trinta e nove minutos do primeiro tempo, deu o primeiro golpe: um remate rasteiro e covarde, do tipo que os deuses do futebol jamais deveriam consentir, que entrou no alto da direita para inaugurar o marcador. A maldição do ex. A Ilha respirou fundo. O Leão recompôs a juba. Havia tempo. Havia história. Havia força. Mas o destino, como já dissemos, ontem era uma pedra — e o segundo golpe veio antes que o Sport pudesse reunir as suas forças. Aos cinquenta e nove minutos, um certo Danielzinho — nome diminutivo para uma afronta de tamanho considerável — colocou a segunda pedra no caminho do Leão, desta feita com um chute do centro da área para o canto inferior esquerdo que fez o silêncio na Ilha ficar ainda mais pesado, ainda mais denso, ainda mais ilegítimo.

Mas aqui reside a grandeza irredutível do Sport Clube do Recife: ele não se curva. Jamais se curvou; não vai começar agora. Aos setenta e oito minutos, como se a história precisasse registrar que o Leão esteve presente mesmo nas horas mais adversas, Pedro Perotti — com a ajuda providencial de Iury Castilho, que serviu o companheiro com a generosidade dos que acreditam — aproveitou a posição dentro da pequena área e colocou a bola no centro do gol com o pé esquerdo, devolvendo ao placar ao menos o mínimo de dignidade que a noite merecia. Um gol que não foi suficiente para vencer, mas que bastou para lembrar — ao CRB, à Série B e ao mundo inteiro — com quem estão lidando. O Sport terminou o jogo com cinquenta e cinco por cento de posse de bola, com treze chutes, com quatorze faltas cometidas por um adversário que entendia que só a violência da marcação poderia conter o que a técnica jamais conteria. Disse muito, esse número. Disse quase tudo.

Drummond, depois de encontrar a pedra no meio do caminho, não parou. Nunca parou. Continuou seu verso, continuou sua vida, continuou sua poesia — e a pedra ficou para trás, eternizada apenas como obstáculo superado, como ponto de passagem, como episódio menor de uma trajetória maior. É assim que vinte e um milhões de rubro-negros deverão encarar esta tarde de maio: não como tragédia, não como sinal de fraqueza, mas como a pedra drummondiana — inevitável, momentânea, incapaz de deter quem tem um destino à frente. O Leão sangrou na Ilha do Retiro; mas os leões sangram, e isso não os torna menos leões.

A pedra ficou no caminho. O Leão segue.

Nenhum comentário:

Postar um comentário