Não há reino, por mais ungido pelos céus, por mais cingido de muralhas e de fé, que não conheça a véspera de sua própria queda. As cidades santas ardem; os estandartes tombam; os mantos sagrados rasgam-se; as torres que pareciam eternas viram pó sob o vento do deserto. E, no entanto, há uma verdade que os séculos não lograram desmentir: a grandeza de um rei jamais se mede pela muralha que ruiu, mas pelas batalhas que ele venceu quando ninguém, em sã consciência, lhe dava o direito de vencer.
Balduíno era o quarto de seu nome e reinou em Jerusalém num corpo que os deuses pareciam ter amaldiçoado. Leproso desde os treze anos, a carne lentamente abandonando-o, cego no fim, sem o uso das próprias mãos, foi levado em liteira ao campo de Montgisard — e ali, com um punhado de cavaleiros, desbaratou a hoste imensa de Saladino, que descia como maré sobre o seu pequeno reino. Imaginem a cena: um Rei fraco, doentio, um menino moribundo, erguendo a Vera Cruz acima da própria ruína, fazendo recuar o maior sultão que o Oriente já produziu...! Houve glória mais improvável? Houve heroísmo mais sincero? Houve coragem mais pura do que a daquele que combate já sabendo que o seu corpo o trai?
Saladino também era grande — cavalheiresco, paciente, inexorável como a areia. Sabia esperar. E esperou. Morto Balduíno, o reino que ele segurara começou a esfarelar; e em Hattin, anos depois, sob um sol que cozinhava as armaduras, a cidade santa enfim se rendeu ao crescente. Mas Hattin não foi a derrota de Balduíno. A lenda do rei leproso vive em Montgisard, não na muralha que outros não souberam defender.
Pois bem, amigos. Poucos dias atrás eu escrevia, nestas mesmas linhas, sobre o covil do inimigo conquistado — sobre a viagem ao Castelão, sobre os dois a um trazidos do território hostil como quem traz despojos de uma cruzada vitoriosa. Aquele, senhoras e senhores, foi o nosso Montgisard. E ontem, sob os refletores da Ilha do Retiro, restava apenas guardar a cidade. Apenas segurar a muralha. O Leão jogava pelo empate; tinha o reino nas mãos.
E então as luzes tremeluziram. Não é invenção de cronista: os refletores oscilaram, a partida atrasou cinco minutos, e quem tem olhos para os augúrios sentiu um arrepio. Ainda assim o Leão atacou primeiro, e atacou bem: Perotti, de fora da área, lançou um petardo que morreu nas mãos de um demônio pagão travestido de goleiro. Mais tarde, Felipinho cruzou, Madson subiu mais alto que toda a defesa cearense e cabeceou com a fúria de quem quer emoldurar a vaga — e de novo aquele João Ricardo, muralha de carne e reflexo, de turbante e iatagã, espalmou o que parecia gol. A Vera Cruz fora erguida. Faltou apenas que o céu olhasse.
Mistérios da Providência e do Olimpo do Futebol: o céu não olhou. Aos trinta e cinco, Mucuri cruzou, Miritello subiu, e a primeira ferida igualou o duelo das duas mãos. Depois veio Vitinho, e a cidade santa caiu. Coisa pouca para narrar e muita para sentir. Mas que ninguém ouse dizer que o Leão tombou por covardia: bateu à porta, esmurrou a muralha adversária, e foi detido não pela própria fraqueza, mas por um goleiro de pedra e por aquele azar antigo a que os gregos davam o nome de moira e nós, mais pobres, chamamos apenas de noite ruim. Ao Fortaleza, esse Saladino do Pici que segue cavalheiro rumo à sua final, conceda-se esta noite — com a serenidade de quem sabe que a glória maior já fora escrita no deserto, e não aqui.
Porque a cinza, vinte e cinco milhões de rubro-negros bem o sabem, é o leito da fênix. Há outra cruzada à espera, há uma Série B inteira por reconquistar, há o regresso à corte de onde nunca deveríamos ter saído. Jerusalém cai uma noite; a fé que a ergueu não cabe em muralha alguma.
Balduíno venceu deitado. O Leão de pé derrubará fortalezas e restaurará a glória do manto rubro-negro. Ano que vem, em Jerusalém.
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