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segunda-feira, 25 de novembro de 2024

A Série A volta a ser um campeonato de elite

Há momentos históricos na história dos povos e do futebol. Os exércitos de Alexandre devastando Tebas em Queroneia; Balduíno IV dizimando o exército de Saladino em Monte Gisardo; ingleses e franceses no Marne, o Duque de Wellington em Waterloo. Sim, meus amigos, o futebol é um microcosmo do mundo ou, por outra: os campeonatos de futebol é que são um macrocosmo da história dos heróis e dos impérios, das guerras e das conquistas. Talvez não haja nada em milênios da humanidade que já não tenha se reproduzido, mais fielmente e com mais intensidade, dentro das quatro linhas dos gramados, onde 22 jogadores costumam se enfrentar com mais ferocidade do que mil exércitos militares.

Ontem o esquete sagrado do Sport envergou as armas rubro-negras para enfrentar o campeão da Baixada Santista com mais fúria do que a Macedônia às portas de Tebas, com mais confiança do que cruzados defendendo Jerusalém, com mais abnegação do que a França e a Inglaterra lutando lado a lado contra uma Alemanha que ainda não tinha nem a desculpa de ser nazista. E a verdade é que não se via um confronto assim talvez desde o fim do período napoleônico.

Meus amigos, aquele jogo de ontem tinha tudo para ser uma carnificina, uma sessão de extermínio, uma hecatombe. Vinte e cinco milhões de rubro-negros estavam com as atenções voltadas para a Ilha do Retiro: talvez há muito tempo um estádio de futebol não recebesse tanta atenção de um número tão grande de torcedores fanáticos. Há muito tempo uma vitória não era tão certa e, ao mesmo tempo, aguardada tão ansiosamente.

Foto: Terra

O Leão começou tímido, alguns diriam cauteloso; a verdade é que a fera estava sendo metódica. Cansando o adversário para, depois, dar-lhe o bote fatal. Somente ao final do primeiro tempo foi que Lucas Lima converteu o pênalti -- e, naquele gol, meus amigos, estava toda uma história, uma profecia, uma odisseia. Naquele gol estavam irmanadas a esperança e a certeza de vinte e cinco milhões de almas rubro-negras. Naquele gol, o futebol brasileiro voltou a respirar.

A etapa complementar foi somente jogar a pá de cal. Lucas Lima fez um segundo gol, e a torcida enlouqueceu; o Sport meteu logo depois o terceiro, e a nação rubro-negra esteve a ponto de quebrar as grades e invadir o gramado, para coroar imediatamente o Sport como Imperador Perpétuo do Futebol Brasileiro. Foi preciso que anulassem aquele gol para que a partida pudesse terminar. E, ao final, Barletta ainda perdeu um segundo pênalti com desdém, com orgulho, com fastio, como um soldado que, em meio à pilhagem, entorna ao chão uma garrafa de vinho caro somente para manifestar, com atos, a fartura em meio à qual se encontra, o desperdício que ele se permite realizar. Sim, meus amigos, aquele pênalti perdido humilhou mais o Santos que os outros três gols que ele havia levado.

O fato é que ontem o Sport bateu o Santos. Que digo? O Leão rubro-negro massacrou o Santos, devastou o Santos, atropelou o Santos; meus amigos, há quem jure que hoje de manhã, à Rua da Aurora, o peixe foi avistado boiando, morto, de barriga para cima, sendo arrastado pelas águas do Capibaribe que, à luz da manhã, tinham uns inusitados tons de preto e de vermelho. Eu não duvido. Absolutamente não duvido.

É necessário que a cidade do Recife celebre e se regozije, porque hoje o seu time, o seu maior time de futebol, o seu orgulho e sua alegria, amanheceu novamente na elite do Futebol Brasileiro, o lugar a que pertence por honra e por direito. E por conquista. Principalmente por conquista. Porque, meus amigos, nunca uma vaga foi conquistada com tanta garra, arrancada com tanta força, arrebatada com tanta paixão.

Junto ao peixe morto da Rua da Aurora foram avistadas, também, uma catita velha e uma cobra-cega. Arrastadas pela natureza, inermes, surdas aos gritos de comemoração que tomaram conta da cidade. Ano que vem, novamente a Série A do Campeonato Brasileiro vai voltar a ser de fato um torneio de elite. Em 2025, novamente vai valer a pena assistir ao Brasileirão. Até lá!

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O monumento da vitória

Há três tipos de vitórias particularmente notáveis. Há, primeiro, a vitória que caracteriza uma auto-superação; depois, há a vitória contra um adversário mais forte. Há, por fim, a vitória que vem no momento certo, a vitória oportuna, tempestiva, salvadora; a vitória, em suma, que é um marco na campanha.

Tudo isso esteve presente no triunfo alcançado pelo Glorioso no último sábado. Digo alcançado e poderia dizer mais: arrancado, extraído, garimpado com garra e determinação pelo time rubro-negro na Ilha do Retiro. O Sport foi vitorioso e até mais: triplamente vitorioso.

Sim, senhoras e senhores, há vitórias que são verdadeiros monumentos. Veja-se, antes do mais, o quesito superação. O Sport vinha de duas derrotas e ainda -- duas derrotas pífias, vergonhosas. Perdera do Atlético Mineiro. Há quem diga que se deve aceitar uma derrota sofrida para um time do G4; eu, ao contrário, digo que é ultrajante não termos conseguido marcar um único gol, um mísero e solitário gol sequer, contra o Galo que depenámos tão tranquilamente na primeira fase da competição. Naquele mês de junho foram quatro gols enfiados no time mineiro -- tivéssemos uma defesa decente e a festa seria completa. Agora em setembro, contudo, o Leão não conseguiu furar a rede mineira uma única vez.

Não se pode subestimar o peso de uma má fase. Não foi só do Atlético que o Sport perdeu; também do Coritiba, e na própria Ilha do Retiro, o Sport levou 1 x 0. A torcida já estava depressiva. Ou, por outra, a torcida já havia passado da fase da depressão e já estava violenta, revoltada, hidrófoba. Queria pendurar as chuteiras dos craques do elenco. Queria a cabeça do técnico em uma bandeja de prata. A torcida sabe ser caprichosa e mais: é muito difícil o time jogar sem o apoio dos seus torcedores.

Mas no sábado o Sport venceu; bateu-se contra a má fase, sacudiu o azar de sobre os ombros majestosos e até, em um certo sentido, reconciliou-se com a torcida. Porque não se tratou apenas de superar-se a si próprio, mas de enfrentar e vencer um gigante. O Santos não é apenas o quarto lugar do campeonato; é o segundo melhor ataque de toda a competição. O Santos tem dois jogadores disputando a artilharia do campeonato, cada um com dez gols. Não é um time, é uma máquina de vazar redes.

Foto: Globo Esporte

A máquina exterminadora santista, no entanto, bateu no peito inflado do Leão da Ilha e quebrou. Por incontáveis vezes -- dez? vinte? -- o ataque do Santos tentou transpôr a defesa rubro-negra; em cada uma delas fracassou de maneira retumbante. Aqui um zagueiro desarmando como se reagisse a um assalto; ali um lateral cortando um passe como se afastasse um animal peçonhento da própria casa; acolá o goleiro defendendo um chute como se o gol rubro-negro fosse um templo sagrado e, Magrão, uma vestal encarregada de mantê-lo puro e imaculado mesmo às custas da própria vida. Sim, senhoras e senhores, o maquinário da Vila Belmiro chegou na Ilha e encalhou, lançou-se contra o Sport e foi despedaçado. Dir-se-ia que o Universo conspirava em favor do Leão: quando, no primeiro tempo, a bola passou por Magrão, a própria trave tomou sobre si o encargo de manter fechado o gol leonino e se esticou para afastar a bola que Rodrigão cabeceara com precisão milimétrica. Naquela cabeçada enfartaram, por um instante, dezoito milhões de corações rubro-negros. Mas aquela bola não entrou; nenhuma outra bola haveria jamais de entrar, nunca mais.

A ilha não estava para peixe. O Sport venceu e, como eu dizia, venceu no momento mais oportuno: quando o Figueirense atropelou o Santinha e cravou, na entrada do Z4, o Cruzeiro com seus trinta pontos -- a mesma quantidade de pontos que o Glorioso possuía antes de bater o Santos. A vitória veio na hora certa, no momento em que o time se aproximava da degola, no instante fatídico em que tentavam abater o Leão: mas o Rei da floresta e do gramado reagiu com nobreza e mostrou de onde vem a sua majestade. Aquele jogo de domingo não foi uma simples vitória, eu repito: foi um monumento. Diante dele hão de quedar, admiradas e embasbacadas, as futuras gerações.