segunda-feira, 6 de março de 2017

Dentro em breve, quem haverá de o lembrar?

Nenhum exército é capaz de se manter permanentemente em pé de guerra, nenhum guerreiro luta com a mesma fúria sagrada invencível todas as batalhas de que toma parte. Até Lampião foi morto quando o pegaram desprevenido e mesmo Aquiles, por piedade, concedeu uma trégua a Tróia para os funerais de Heitor.

Ontem o Leão deu uma trégua à catita aflituosa, o Glorioso concedeu a si o luxo de encerrar a própria invencibilidade no campeonato. Não foi totalmente fora de tempo; afinal de contas, há quase três anos que um alvirrubro não ganhava de um rubro-negro nem no par-ou-ímpar. Afinal de contas, o Hexagonal já havia passado da metade. Até mesmo os grandes vacilam de vez em quando, mas isso pouco importa. Tendo sido surpreendido ao raiar da madrugada, Virgulino Ferreira ainda é o Rei do Cangaço; depondo -- temporariamente -- as armas contra Príamo, Aquiles ainda é o maior herói da Ilíada. Com muito mais razão, portanto, mesmo renunciando ontem à sua invencibilidade no Pernambucano, o Sport ainda é o maior time do Nordeste.

Foto: Blog do Torcedor

Há sem dúvidas irritações -- justas; há uma natural raiva contra o time -- razoável. Pois perder para um time pequeno é sempre motivo de raiva e irritação. O torcedor sai de casa para ver o time jogar; ou se reúne com os amigos para acompanhar a transmissão da partida. E o que vê? Um time fraco e apagado, como se o elenco estivesse testando novas estratégias, como se o clássico não tivesse toda essa importância. É verdade que a partida importava pouco e que o técnico estava, sim, realizando experiências com o elenco; mas é sempre frustrante quando a torcida é capaz de perceber isso.

Se ainda a derrota viesse pelas mãos de um time superior...! Se Aquiles fosse neutralizado em combate por uma defesa troiana irresistível, ou se Lampião tombasse em guerra honesta contra as forças policiais... talvez a história fosse mais bonita e interessante, talvez evocasse as imagens de grandiosidade a que faz jus. Mas não. As muralhas de Tróia recebem um descanso porque o próprio herói se recolhe à inação, e o cangaceiro quadragenário é alvejado ao raiar do dia enquanto, desarmado, rezava o Ofício. Se o Sport sucumbisse ante uma apresentação irrepreensível do adversário, talvez o domingo houvesse sido mais bonito. Mas nada disso: a invencibilidade rubro-negra cai perante um time fraco e desorganizado, cai como se não fosse nada, cai sem motivo e sem explicação. Não, não há como não se irritar.

A rataria não deixa de fazer a festa, e a minhoca do Canal celebra como se fosse ela mesma a abater o Glorioso. É engraçado: não deixa de lembrar os troianos celebrando o armistício unilateral do inimigo, ou as polícias comemorando o fim do maior grupo cangaceiro do sertão. Mas a história faz justiça. Porque Tróia pode ter muito exaltado as suas muralhas, mas o que ficou para a posteridade é que Aquiles as pôs abaixo. Lampião pode ter sido morto, mas o nome de Virgulino Ferreira é mundialmente conhecido -- enquanto ninguém sabe o dos seus executores. Ontem a catita venceu o Sport; dentro em breve, no entanto, quem haverá de o lembrar? Quando o Leão rugir com toda a sua majestade, as derrotas do passado se esvanecerão como brumas ao amanhecer. Quando o sagrado manto rubro-negro se impuser ufano e altivo, ninguém se lembrará do berreiro tricobarbie de hoje.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Domingo a caça foi farta

Domingo foi um dia extraordinário. Digo mais: domingo foi um dia que parecia não caber em apenas vinte e quatro horas. O que digo? Não foi nem o domingo inteiro. Aqueles noventa minutos no campo da Ilha do Retiro, as quase duas horas entre as cinco da tarde e as sete da noite poderiam preencher o domingo inteiro e ainda seria pouco.

Domingo foi um dia de festa para a torcida rubro-negra! Conquistamos ao mesmo tempo a permanência na Série A, a artilharia do campeonato brasileiro e a última vaga da Sulamericana. Parece muito para um jogo somente; mas não é à toa que o Leão é o rei dos gramados. A fera ao final não decepciona -- e com a força de suas garras sempre consegue providenciar uma caça farta e saborosa.

Foto: Globo Esporte
Primeiro, a Série A! Ela é nossa. É nossa porque compete ao Leão permanecer, altivo e majestoso, na elite do futebol brasileiro, fazendo a glória de Pernambuco e exaltando o sagrado manto rubro-negro. Houve quem temesse uma recuperação súbita do Inter. Mais: houve quem apostasse nisso. Dizem as más línguas que houve até quem pagasse para tanto... mas as torcidas, as apostas e mesmo os negócios escusos não lograram manter o Colorado na primeira divisão.

Eles se esforçaram. Primeiro, o Fluminense deu férias para mais da metade do elenco. Entrou em campo praticamente com a equipe dos juniores, com um time totalmente improvisado. Houve jogadores que nunca haviam passado tanto tempo dentro de campo -- nem mesmo no treinamento! Depois, o Fluminense perdeu um pênalti. De propósito. Bateu em cima do goleiro. Não fosse o bastante, na etapa complementar o time carioca substituiu o goleiro. O time de juniores do Fluminense, cujos atacantes perdiam pênaltis de propósito, passava a guarnecer as suas traves com o goleiro reserva! Era demais. Nunca se viu um arrumado tão grotesco; no entanto, nem mesmo assim a terceira força do Rio Grande do Sul conseguiu se segurar de pé. Não arrancou senão um vexatório empate no Rio de Janeiro -- é a prova cabal de que um barracão não se transforma jamais em palácio, ainda que seja coberto com os mais ricos tapetes que o dinheiro pode comprar.

Mas nem adiantaria. Aqui, na Ilha do Retiro, o Leão foi à desforra. Lançou-se sobre o Figueirense com a ferocidade de um caçador experiente: Florianópolis estremecia a cada vez que o ataque do Sport desbaratava a defesa do time visitante. Foram dois gols precisos, milimétricos, exatos: Rogério e Diego Souza liquidaram a partida. Com o gol, o meia rubro-negro alcançou a admirável marca de catorze gols na competição: não houve no Brasil inteiro ninguém que marcasse mais do que ele! E como se não bastasse, como se fosse preciso fechar o campeonato com chave de ouro, a surpresa ainda veio de graça, numa bandeja de prata, como um leitão assado de maçã na boca e tudo: o Coxa e o Vitória, perdendo, abriram espaço para que o Sport subisse na tabela até a décima-quarta posição, garantindo a sua vaga na Copa Sulamericana do próximo ano. Sim, senhoras e senhores, a vitória foi brutal: domingo não sobrou pedra sobre pedra.

Domingo a vitória foi completa. Caídos no chão, deitados em posição fetal, chorando como bezerros desmamados, estavam o Inter, o Figueira, o Coxa e o Vitória: sobre todos eles, de pé, altivo e majestoso, o Leão contemplava o estrago feito -- e o seu rugido vitorioso se fez ouvir pelos quatro cantos do Brasil.

Domingo o uniforme rubro-negro brilhou e mais: parecia que cada um dos torcedores do Sport refletia, no fim de semana, um pouco da glória do Leão da Ilha do Retiro. Foram dois gols e, de repente, dezoito milhões de rubro-negros experimentaram uma alegria como não tiveram o campeonato inteiro. Foi uma cena linda de se ver: o Leão vitorioso, com os adversários prostrados sob as suas patas poderosas e, ao redor dele, dezoito milhões de uniformes rubro-negros que chegavam a resplandecer na escuridão recifense.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

O luto verde que é devido aos meninos de Chapecó

As tragédias, como as alegrias, unem os homens. Dada a nossa triste condição, as primeiras costumam unir mais do que as últimas. É que a felicidade parece diminuir quando é compartilhada; a dor, não, a dor consome e se expande, e tanto mais cresce quanto por mais pessoas estende os seus dedos macabros. Nunca a alegria de uma conquista é tão contagiante quanto a dor de uma tragédia: é a nossa maldição. O sofrimento de perder o emprego costuma ser maior do que a alegria de ter sido contratado, e as lágrimas por um relacionamento rompido geralmente são mais abundantes do que o foram os sorrisos pela descoberta do amor verdadeiro.

Hoje esta maldição nos atinge e nos envergonha de um modo particularmente duro. Todos sabem da trágica queda do avião que levava o time da Chapecoense para a Colômbia, onde ia disputar a final da Copa Sul-Americana: amanhecemos com essas manchetes. E de repente todo o país se cobriu de luto -- um luto muito maior e muito mais generalizado do que a alegria que sentíamos pela final que os nossos conterrâneos heroicamente iam disputar. E de repente nos assustamos com a dimensão daquilo que perdemos sem perceber. E não mais que de repente, como no soneto, o nosso riso escasso transformou-se em farto pranto.

Foto: Folhapress

De repente uma tragédia, uma falha elétrica, uma pane, uma queda...! O time da Chapecoense estava no seu auge: saíra da série D do Campeonato Brasileiro em 2009 para a série A em 2014. Em 2016 chegara à final da Sul-Americana. É uma trajetória notável à qual poucos times terão podido fazer frente -- e o atleta assim abatido em seu apogeu provoca um sentimento estranho em quem acompanhava, deslumbrado, os seus passos. Ficamos nos perguntando até onde ele poderia ter chegado; e, pedindo licença ao poeta, sentimos uma falta enorme, desassombrada, da vida inteira que podia ter sido e não foi. Sim, tragédias assim nos fazem questionar se Neil Young estava certo e se é mesmo melhor queimar de uma vez do que apagar-se aos poucos. 

As tragédias unem os homens; as grandes tragédias, unem-nos por sobre os clubes de futebol. Hoje não somos senão brasileiros chocados com o acidente, perplexos com a catástrofe, emudecidos diante dos caprichos brutais e intransigentes do destino. Poderia ter sido conosco e de uma certa maneira foi: de um certo modo aqueles jogadores, jovens e deslumbrados com a vida, levaram consigo um pedaço da nossa própria alegria e do nosso fascínio esportivo. Todo mundo, independente da camisa que vista, está percebendo isso: é como se por debaixo dos uniformes estivéssemos descobrindo, com toda a clareza que a dor provoca, o pulsar de um coração igual ao daqueles jovens que não puderam chegar ao Atanasio Girardot. Nós também não chegamos; a nós, que ainda vivemos, cabe derramar as lágrimas que eles não podem mais derramar.

Hoje as arquibancadas estão silenciosas e o gramado dos nossos estádios se veste do luto verde que é devido aos meninos de Chapecó. Chegaram longe e nos encheram de orgulho, e são dignos de nosso reconhecimento, nossos pêsames e nossas orações. Hoje é preciso abrir uma exceção e o sagrado manto rubro-negro cede o seu lugar ao uniforme monocromático da Chape: é ele que deve tremeluzir mais alto, repleto de honras, fulgente de glória. Hoje Pernambuco expressa as suas condolências aos irmãos de Santa Catarina, e o Leão da Ilha abaixa a cabeça em muda saudação ao Verdão do Oeste que parte.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O toque de Midas

Midas foi aquele rei da antiguidade que, ganancioso, ávido por riquezas, conseguiu dos deuses, certa vez, o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse. A graça viu-se transformada rapidamente em maldição: Midas não podia comer, não podia beber, não podia abraçar a sua família sem que a comida, a bebida ou a filha se transformassem em ouro ao toque de suas mãos. Cercado de estátuas de ouro maciço, o velho rei sofria cada vez mais sozinho.

Há uma espécie de toque de Midas no futebol brasileiro. O Leão, que também é Rei e cuja juba é dourada, detém esse dom extraordinário: consegue transmutar qualquer pelada em uma batalha encarniçada, transforma qualquer passeio em uma Odisséia.

Diante do América foi o que foi. O time já estava rebaixado, era o lanterna do Brasileirão; o jogo não valia rigorosamente nada. Ou por outra: a vitória faria com que o Sport estivesse matematicamente livre do rebaixamento. Era um jogo tranquilo. Não era possível se complicar.

Mas eis que a pata dourada do Leão pisa em campo, eis tudo transmutado. A pelada transformou-se rapidamente em uma batalha cruel e assassina, eu não diria de dois campeões europeus porque o futebol europeu não está à altura dessa dramaticidade tão própria nossa, mas de dois finalistas de futebol de várzea. Sim, senhoras e senhores, aquele jogo contra o América adquiriu magicamente todos os contornos de uma revolução que desde a Inconfidência Minas não via tão sangrenta!

Foto: Globo Esporte

O Sport abriu o placar e a torcida ficou esperando o segundo gol que não veio. O time da casa empatou. Virou o jogo! Eis a pelada, a partida protocolar, o mero cumprimento de tabela, transformado em um clássico onde só interessava ao Leão vencer. Eis o Glorioso em desvantagem, saindo do acomodamento, precisando lançar-se sobre o adversário com um ânimo que até há pouco tempo atrás ele não tinha. Já dezoito milhões de rubro-negros xingavam o Sport, injustissimamente, com aquela injustiça com que a corte de Frígia talvez censurasse o seu soberano por estragar o repasto para ele preparado pela melhor cozinha da Hélade. Uma e outros, tolos, não eram capazes de admirar o corriqueiro transformado em extraordinário.

O jogo terminou em 2 x 2; disseram que, com o empate, o fantasma do rebaixamento estava se aproximando. Ora, só as crianças e as mulheres têm medo de fantasmas! O Glorioso ri-lhes em face. O manto rubro-negro não teme os seres malditos, ao contrário: senta-se tranquilo e sereno em meio aos terrenos baldios mal-assombrados, bastando um seu rugido para desvanecer os espectros da noite. É compreensível que os times medíocres fiquem com medo do azarão das tabelas ou tenham vertigens na beira do abismo. O Sport não. As suas garras estão preparadas para destroçar os azarões e, da beira do abismo, do alto do desfiladeiro, o rugido do Leão ecoa mais majestoso.

Qual toureiro que atrai a fera selvagem a si, qual atleta que desafia os limites da natureza, este é o Sport: nada nele é medíocre, nenhum jogo é protocolar. De repente, no penúltimo jogo do campeonato, o Internacional se aproxima; graças ao toque de Midas, o que poderia ser um jogo sem importância transformou-se na partida capaz de fazer com que o Sport fique na elite do futebol ou desça para a divisão do Náutico e do Santa Cruz. Quem poderia esperar algo tão emocionante?

Domingo, na última rodada do Brasileirão, o Sport jogará com toda a dedicação de um tudo ou nada. Se o Inter vencer poderá ultrapassar o Sport; era cavalheiresco conceder aos gaúchos essa gentileza, dar-lhes pelo menos essa chance, não lhes tirar a esperança até o último momento. O Colorado se aproxima furioso; domingo será o dia do Olé. Domingo, em Recife, a velha Figueira será derrubada, virará lenha na Ilha do Retiro. Lenha para o fogo! Sim, senhoras e senhoras, domingo será o dia em que dezoito milhões de rubro-negros vão se fartar de comer churrasco gaúcho.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Com muita sede ao pote

É a monotonia que nos leva longe; as caminhadas, mesmo as mais longas, são vencidas passo a passo, e os obstáculos mais difíceis são alcançados à custa da tenacidade e da paciência. Os judeus levaram quarenta anos para cruzar um deserto que, alguém poderá dizer, talvez pudessem ter cruzado em quatro; mas o afobamento talvez lhes custasse uma energia que não haveria como repor. Os desertos, é o que quero dizer, têm o seu tempo para serem atravessados: neles a pressa ou a apatia podem ser fatais.

O Sport, todos o sabemos, é dado a arroubos de grandeza. É um Leão majestoso e todo majestade tem os seus caprichos: é um defeito de todo rei, aliás, satisfazer as próprias vontades quando lhe dá na telha. Inclusive assim se perderam muitos povos e muitos reinos: foi por não querer esperar a viuvez que Henrique VIII rompeu com a Igreja; e, séculos antes, em Poitiers, um ataque açodado de João II tornou o rei de França cativo de um exército inglês numericamente muito inferior. A Guerra dos Cem Anos haveria que se consumir lentamente ao longo de todo o seu século: qualquer tentativa de lhe pôr fim antes do tempo só poderia ser catastrófica.

A espera melancólica é o segredo das vitórias ou, pelo menos, das vitórias colecionadas em sucessão. A sabedoria popular manda não ir com muita sede ao pode, e o adágio tem uma metonímia que não pode passar despercebida: não é sede e sim sofreguidão. Afinal ninguém tem controle sobre a sede que sente: o que pode fazer é, no máximo, decidir de que maneira vai se comportar uma vez que está morto de sede.



E o Leão estava sedento ontem -- também pudera. Lutava contra o fantasma do rebaixamento e recém saíra de uma vitória clamorosa. Em Porto Alegre massacrara o tricolor gremista, enfiando-lhe três gols cujos gritos ainda hoje assombram os gaúchos. Respirara fundo, mas a missão não estava ainda concluída. Havia o que fazer, e o time queria fazer depressa. Foi, no entanto, traído pela tabela.

O campeonato espaçou demasiadamente os dois jogos do Leão: goleou na segunda-feira e só foi chamado a entrar em campo novamente na quarta-feira da semana seguinte, dez dias depois. Todo um final de semana se passou em branco, sem que o Glorioso se apresentasse; são tristes e melancólicos esses fins de semana onde o sagrado manto rubro-negro é impedido de brilhar! O Leão, com gosto de sangue na boca, com os pedaços do uniforme gremista ainda presos nos dentes e nas garras, precisou esperar -- e Deus sabe como isso é difícil às feras selvagens, aos reis gloriosos! Mas o campeonato brasileiro é como a Guerra dos Cem Anos: impõe reveses aos que não sabem suportar o melancólico e lento escoar dos seus prazos e dos seus tempos.

Ontem o Leão entrou em campo já esbaforido: dir-se-ia em frenesi a fera, em verdadeira crise de abstinência, precisando desesperadamente marcar os gols que, após a goleada em Porto Alegre, por dez longos dias fora proibida de marcar. Sofreu o pênalti e foi a sua desgraça, porque se afobou e se precipitou, e dezoito milhões de rubro-negros chegaram até a gritar "gol!" em pensamento. Mas o time se lançou com muita sede ao pote: e naquela cobrança de Diego Souza o pote quebrou, e a água fresca derramou-se e se perdeu no gramado da Ilha do Retiro. Sim, forçado a esperar muito, preso e agrilhoado por dias a fio, o Glorioso, uma vez solto, foi com muito afã ao campo -- e por conta disso dezoito milhões de rubro-negros voltaram pra casa com sede naquela noite.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O Leão destroçador de tricolores

É um dia especial para o Glorioso essa segunda feira, em que o Sport vai enfrentar o Grêmio na casa do adversário. Trata-se de uma partida importante porque, com ela, o time rubro-negro tem a chance de se afastar definitivamente do temível Z4 -- a zona de rebaixamento, ameaçadora, escarnecedora, abre sua goela apenas dois pontos abaixo do Glorioso.

Não será hoje que o Z4 vai comer carne nobre de Leão. O time tem a chance de fazer valer a sua vocação campeã, de elevar bem alto, resplandecente, o sagrado manto rubro-negro. Afinal de contas, vem de uma boa seqüência; batemos a Macaca aqui na Ilha do Retiro, em uma partida com tanto sabor de goleada quanto mirrado foi o placar. Ao passo em que o velho Grêmio não ganha há três jogos consecutivos, e joga apenas para cumprir tabela, sem esperar maiores resultados da vitória ou piores consequências da derrota.

Foto: O Sul

Porque são os piores momentos que distinguem os medíocres dos campeões natos. O Grêmio nada tem a ganhar nem a perder; o Sport pode se complicar na competição ou pode praticamente dar adeus ao fantasma do rebaixamento. É todo um nome tradicional a defender, toda uma história de glória à altura da qual o time tem o dever de agora estar: sim, porque aqueles jogadores não vão entrar em campo somente em seu próprio nome. São cento e onze anos de tradição que carregam no peito, são dezoito milhões de rubro-negros que esta noite eles levam nas costas.

O Sport vai jogar como um campeão. Por debaixo de cada camisa vai pulsar o coração de dezoito milhões de rubro-negros; em cada chuteira estarão as esperanças de uma multidão de torcedores. Porque ao Sport não interessa somente a apresentação protocolar, não vai à Arena do Grêmio apenas para cumprir tabela: o Leão, que é o rei dos gramados, vai para impor a sua majestade sobre o Tricolor dos Pampas.

Que importa que pese um tabu contra o Sport? Que importa que o tricolor ostente, na Arena, a sua invencibilidade contra o Leão da Ilha? Toda invencibilidade mais cedo ou mais tarde cai por terra; sim, senhoras e senhores, hoje é um bom dia para quebrar tabus. Já estou vendo o Leão entrando no campo esta noite, altivo e temível, destroçador de tricolores: à sua mera visão imponente o time da casa vacilará, lembrando da goleada do último confronto.

E o Leão despedaçará invencibilidades com a força de suas garras, e nas suas presas serão esmagados tabus como se fossem gravetos secos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Precisamos falar sobre voleibol

As coisas são curiosas. O futebol é um esporte cuja etimologia vem do inglês football, e "foot" quer dizer "pé". Correndo o risco de incorrer em um truísmo, é preciso dizer que futebol se joga com os pés. E, insistindo nas platitudes, parece necessário dizer ainda que, em um lance de futebol, meter a mão na bola caracteriza uma infração, foul, uma falta. Encerrando as trivialidades, uma outra informação importante: quando a falta é realizada dentro da própria área, durante uma jogada de ataque do time adversário, isso no geral acarreta um penalty, pênalti.

São regras básicas do futebol com cuja enumeração aqui corro o risco de entediar os meus leitores. Essa revisão meio pré-escolar, no entanto, parece necessária diante de um lance ocorrido ontem na Arena Palmeiras. O jogo entre Sport e Palmeiras estava ainda em 0 x 0. Eram os meados do primeiro tempo quando o Leão avançou. Com perigo, com determinação, senhor de si como vinha fazendo em todo o jogo. Porque esta é a verdade: neste último domingo, à tarde, o elenco rubro-negro estava -- enfim -- mostrando um futebol compatível com o sagrado manto leonino. Diante do líder do Brasileirão, o Sport estava jogando com verdadeira majestade. Mas voltemos ao primeiro tempo. Escanteio para o Sport: um escanteio épico, milimétrico, fatal, um verdadeiro escanteio de capa-de-revista. No meio da trajetória, no entanto, a bola é interceptada: Yerry Mina mete a mão nela e corta, assim, o ataque do Sport. Dezoito milhões de rubro-negros se levantaram para protestar. O juiz não viu ou por outra, fez que não viu; ou pior, viu, mostrou que viu e mandou o jogo seguir. O Palmeiras contra-atacou sobre as reclamações do elenco do Sport; e diante de um time perplexo furou a rede de Magrão.



Coloquemos as coisas em seus devidos lugares. "Meter a mão" não é aqui mera figura de linguagem: o jogador palmeirense levantou completamente o braço, mão esticada, como se fizesse um Heil Hitler macabro, como se fosse um líbero do voleibol entrando no fundo do campo apenas para interceptar a bola rubro-negra.

Há algumas coisas que acontecem dentro das quatro linhas que não são muito comentadas; é como se fosse um submundo do futebol, um lado sombrio que todo mundo conhece mas sobre o qual há um acordo tácito de silêncio. Bem, é preciso quebrar esse tabu. Precisamos falar sobre voleibol.

Malgrado o que diga certa ideologia de gênero esportivo, o jogador não é livre para ser o que ele quiser. Ele não pode ser um centroavante na hora de cobrar o pênalti, um judoca quando for derrubar o atacante adversário e um jogador de voleibol na hora de interceptar o cruzamento. Cada esporte tem as suas regras próprias e suas características naturais. Os que julgam essas exigências muito limitadoras dizem que elas não passam de uma convenção social; bem, se aprouve à sociedade convencionar assim, então é assim que os atletas se devem portar, ao menos dentro das instituições sociais oficiais de cada esporte. No caso do campeonato brasileiro, falamos da CBF. O futebol tradicional pode até ser hipócrita; isso, no entanto, não torna menos injusto que um jogador do Palmeiras meta a mão na bola, dentro da área, para impedir uma jogada perigosa do Sport.

Foto: Torcedores

Há quem diga que o futevôlei já existe há muito tempo. Bom, primeiramente, futevôlei não é bem futebol jogado com as mãos (este é mais o handebol), senão vôlei com os pés: o objetivo dele é impedir a bola de cair no chão, e não desviar a trajetória da bola metendo-lhe a mão -- mas isso é uma tecnicidade. Segundamente, futevôlei é futevôlei e futebol é futebol; ora, a quem interessa obscurecer as diferenças entre os dois esportes senão aos maus jogadores de um e de outro lado? O futebol será cada vez menos futebol, e o voleibol, cada vez menos voleibol, e o futevôlei, cada vez menos futevôlei, se as regras de um puderem ser indistintamente aplicadas a todos os outros. Quem defende o fim das regras no fundo não gosta de vôlei, de futebol, de basquete, de esporte nenhum. Fazer com que os esportes não tenham regras próprias é acabar com os esportes. Só um perna-de-pau não vê isso.

Para concluir aqui: sempre houve comportamento desviante no futebol, é óbvio. Mas era motivo de vergonha e não de orgulho. Sempre existiu aquele lateral com tendências de lutador de MMA, aquele zagueiro com jeitinho de jogador de vôlei. Não dá para o evitar. Permitir que isso aconteça, no entanto, na cara dura, sob as barbas do juiz, filmado e televisionado, transformado em GIF e em meme, aí já é demais. O zagueiro do Palmeiras metendo a mão na bola, dentro da área, em rede nacional, é mais do que um atleta inconformado dando vazão às suas tendências esportivas íntimas que sempre foram reprimidas sob a opressão de árbitros rígidos e moralistas. Não. Mina, de cabeça e braço erguidos, metendo despudoradamente a mão na bola diante do mundo, é o arauto da desmoralização do futebol, o profeta inconsequente do seu fim. O orgulho do zagueiro alviverde é a vergonha do futebol tradicional.