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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O toque de Midas

Midas foi aquele rei da antiguidade que, ganancioso, ávido por riquezas, conseguiu dos deuses, certa vez, o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse. A graça viu-se transformada rapidamente em maldição: Midas não podia comer, não podia beber, não podia abraçar a sua família sem que a comida, a bebida ou a filha se transformassem em ouro ao toque de suas mãos. Cercado de estátuas de ouro maciço, o velho rei sofria cada vez mais sozinho.

Há uma espécie de toque de Midas no futebol brasileiro. O Leão, que também é Rei e cuja juba é dourada, detém esse dom extraordinário: consegue transmutar qualquer pelada em uma batalha encarniçada, transforma qualquer passeio em uma Odisséia.

Diante do América foi o que foi. O time já estava rebaixado, era o lanterna do Brasileirão; o jogo não valia rigorosamente nada. Ou por outra: a vitória faria com que o Sport estivesse matematicamente livre do rebaixamento. Era um jogo tranquilo. Não era possível se complicar.

Mas eis que a pata dourada do Leão pisa em campo, eis tudo transmutado. A pelada transformou-se rapidamente em uma batalha cruel e assassina, eu não diria de dois campeões europeus porque o futebol europeu não está à altura dessa dramaticidade tão própria nossa, mas de dois finalistas de futebol de várzea. Sim, senhoras e senhores, aquele jogo contra o América adquiriu magicamente todos os contornos de uma revolução que desde a Inconfidência Minas não via tão sangrenta!

Foto: Globo Esporte

O Sport abriu o placar e a torcida ficou esperando o segundo gol que não veio. O time da casa empatou. Virou o jogo! Eis a pelada, a partida protocolar, o mero cumprimento de tabela, transformado em um clássico onde só interessava ao Leão vencer. Eis o Glorioso em desvantagem, saindo do acomodamento, precisando lançar-se sobre o adversário com um ânimo que até há pouco tempo atrás ele não tinha. Já dezoito milhões de rubro-negros xingavam o Sport, injustissimamente, com aquela injustiça com que a corte de Frígia talvez censurasse o seu soberano por estragar o repasto para ele preparado pela melhor cozinha da Hélade. Uma e outros, tolos, não eram capazes de admirar o corriqueiro transformado em extraordinário.

O jogo terminou em 2 x 2; disseram que, com o empate, o fantasma do rebaixamento estava se aproximando. Ora, só as crianças e as mulheres têm medo de fantasmas! O Glorioso ri-lhes em face. O manto rubro-negro não teme os seres malditos, ao contrário: senta-se tranquilo e sereno em meio aos terrenos baldios mal-assombrados, bastando um seu rugido para desvanecer os espectros da noite. É compreensível que os times medíocres fiquem com medo do azarão das tabelas ou tenham vertigens na beira do abismo. O Sport não. As suas garras estão preparadas para destroçar os azarões e, da beira do abismo, do alto do desfiladeiro, o rugido do Leão ecoa mais majestoso.

Qual toureiro que atrai a fera selvagem a si, qual atleta que desafia os limites da natureza, este é o Sport: nada nele é medíocre, nenhum jogo é protocolar. De repente, no penúltimo jogo do campeonato, o Internacional se aproxima; graças ao toque de Midas, o que poderia ser um jogo sem importância transformou-se na partida capaz de fazer com que o Sport fique na elite do futebol ou desça para a divisão do Náutico e do Santa Cruz. Quem poderia esperar algo tão emocionante?

Domingo, na última rodada do Brasileirão, o Sport jogará com toda a dedicação de um tudo ou nada. Se o Inter vencer poderá ultrapassar o Sport; era cavalheiresco conceder aos gaúchos essa gentileza, dar-lhes pelo menos essa chance, não lhes tirar a esperança até o último momento. O Colorado se aproxima furioso; domingo será o dia do Olé. Domingo, em Recife, a velha Figueira será derrubada, virará lenha na Ilha do Retiro. Lenha para o fogo! Sim, senhoras e senhoras, domingo será o dia em que dezoito milhões de rubro-negros vão se fartar de comer churrasco gaúcho.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Não se faz isso com a torcida

Certas coisas não se fazem com o torcedor: bicho caprichoso, precisa ser tratado com mimos e atenções. Não é verdade que ele tenha um amor desinteressado, gratuito, quase platônico para com o seu time. A verdade é que é o contrário: o torcedor tem uma mesquinha relação de interesse com o clube. Está disposto a gritar no estádio, contanto que o time retribua com uma bonita apresentação; paga a camisa e faz propaganda do clube, desde que ele faça a sua parte e realize uma boa campanha.

Já escrevi aqui que o torcedor é como a mulher. Resgato a metáfora e complemento: por conta disso, ele precisa ser agradado. Quando o torcedor sai do trabalho, de noite, cansado, no meio da semana, pega a família, se dirige ao estádio, compra os ingressos, o refrigerante e o galeto, ele espera ter este seu sacrifício recompensado com uma boa apresentação do time. Pode até ser que ele não tenha coragem de o dizer com todas as letras: mas lá no seu íntimo deseja que o seu time seja o protagonista do espetáculo que vai ditar o teor das conversas pelo resto da semana.

Atenção, que isto não significa ser um mau perdedor e só querer que o time ganhe. Evidentemente o elenco não precisa ganhar o tempo inteiro; mas precisa, sim, jogar, jogar bonito, jogar se esforçando, jogar dando o melhor de si -- ou ao menos convencendo os espectadores de que está dando o melhor de si. A mulher não precisa que o seu homem seja exitoso em todas as suas empreitadas; mas ela exige, sim, que ele se esforce. Uma mulher pode passar fome ao lado de um homem que saia todos os dias em vão para procurar emprego; mas a mesma mulher vai expulsar de casa o sujeito que não se levanta do sofá, ainda que o lar esteja em condições econômicas confortáveis. No amor e no futebol é o esforço e não o resultado prático o que satisfaz.

Aquilo que o time do Sport fez com a sua torcida ontem não se faz com a mulher nem com a amante, não se faz com uma empregada nem com uma vulgívaga. Uma sequência de três vitórias consecutivas não pode ser interrompida com uma derrota em casa; principalmente, não pode ser interrompida com uma derrota para o último colocado do campeonato. Todo torcedor rubro-negro conhece o carma do lanterna; mas um elenco destruidor de tabus e exorcizador de maldições não pode sucumbir diante do fantasma da última colocação.

Ou melhor: pode até cair, mas precisa cair lutando. A torcida admite a conspiração cósmica, a reunião das bruxas, o azar de marreco; o que não admite é a cabeça baixa diante do destino fatídico. Por mil vezes o time pode ser humilhado pelo lanterna; mil vezes a torcida condescende, contanto que a cada uma delas os jogadores mostrem estar deixando nacos de carne e poças de sangue pelo campo. O que a torcida não admite, nem uma única vez sequer, é o time perder porque não jogou.

Ontem o Sport passou quase o jogo inteiro perdendo sem jogar. Dir-se-ia que o Coelho ganhava por W.O. na casa adversária. Nada daquilo se admite. O trabalhador que vai cansado à Ilha não é digno de ser tratado com tamanho desdém. O pai de família que leva seu filho ao estádio não merece que lhe façam -- ao seu filho! -- uma vergonha dessas.

Somente nos últimos estertores do jogo, já esgotado o tempo regulamentar, Mark González pôs fim à agonia. O empate que ele heroicamente arrancou, muitos dos torcedores não viram -- decepcionados que estavam, voltando já para casa, xingando a equipe. Não se trata a torcida dessa maneira; quando menos porque a torcida sabe ser cruel. Mas na constelação de estrelas apagadas do Leão só quem brilhou no céu desta quarta-feira foi o meio-campista que entrou no segundo tempo. Lutou e lutou e lutou até o último segundo pelo gol! Que o exemplo dele contagie os seus colegas, ou melhor: que os colegas entendam que é desumano exigir tanto assim de um jogador até os últimos instantes da partida. Não se faz isso com um colega, nem mesmo com um reserva. E, decididamente, não se faz isso com a torcida.