segunda-feira, 17 de abril de 2017

As máximas do Futebol

Há vários ditados que todos conhecemos muito bem e que possuem uma versão característica quando aplicados ao futebol. Ontem, nas semifinais do Pernambucano, tivemos a rara oportunidade de ver exemplificados muitos dos ditos que fazem a beleza da paixão nacional.

Primeiro deles: o placar esconde o jogo. Ora, o Náutico sempre esteve em desvantagem real. Mais até: o Náutico levava sufoco desde o primeiro minuto do primeiro tempo. Aquilo não era uma partida, era um massacre: o Leão reinava absoluto, devastador, inalcançável aos focinhos nervosos dos timbus atarantados. O Sport avançou não uma nem duas, mas duzentas vezes; parecia que só havia um time em campo. Eram onze jogadores contra Tiago Cardoso sozinho. Nunca um goleiro foi tão necessário em um jogo de futebol: era a solidão de um náufrago porfiando por fazer frente às intempéries da natureza.

No entanto o Náutico se mantinha de pé. O tempo passava e parecia que ele ia resistir: o primeiro tempo inclusive terminou em um a zero para o Timbu. Sofrera noventa e nove investidas e manteve o gol fechado; em uma única cobrança de falta conseguiu abrir o placar! Quem não faz, leva, outra máxima ontem representada. Não havia, diga-se de passagem, relação alguma entre o que se via no campo e o que o placar registrava; dir-se-ia que outro jogo era registrado nos marcadores da Ilha do Retiro.

E por noventa longos minutos foi isso o que aconteceu, o maior descompasso possível entre o que os jogadores faziam em campo e os gols que eram marcados, o time escancaradamente mais fraco sustentando-se como por milagre na frente do placar.

Aos noventa minutos de jogo o time alvirrubro ganhava por dois a um e já começava a comemorar a vitória. Pena que a tenha comemorado cedo demais: não cante vitória antes do tempo. A decepção foi tão amarga que chegou a dar pena: o Náutico parecia com a criança de olhos brilhantes diante de um pudim suculento que, no entanto, ao lhe enfiar com gosto a colher, percebe com tristeza que o manjar está estragado.

Foto: Aldo Carneiro

Foi aos quarenta e cinco do segundo tempo que a sobremesa do Náutico estragou. A persistência sempre é recompensada: mais um dito popular seguido à risca no jogo de ontem. Juninho entrou em campo para marcar dois gols em sequência e colocar finalmente o Sport na frente do placar -- na posição a que fazia jus desde o primeiro minuto de jogo, aliás. Nunca duvide do Náutico: outro brocardo muito a propósito na tarde deste domingo.

Vitória da técnica sobre o acaso, do profissionalismo sobre o time-de-várzea, do futebol de qualidade sobre os rompantes de sorte. Especialmente, o time alvirrubro não estava à altura daquela vitória, que estava acima de suas forças e de seus méritos, em cujas costas ele obviamente não a podia levar. Ontem diversas máximas foram postas à prova, mas talvez esta seja a mais importante delas: quanto maior o pudim, mais fácil de azedar.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Um gol à altura do manto rubro-negro

Ilha do Retiro, fim de tarde de um domingo chuvoso. Os torcedores rubro-negros se encaminhavam para o estádio cabisbaixos; parecia que não tinham lá tanta esperança assim na boa apresentação do elenco. O Sport, derrotado por 3 x 1 em Campina Grande, precisava agora vencer o jogo de volta a todo custo -- e com no mínimo dois gols de vantagem.

Não era muita coisa, porque dois a zero é placar que a gente alcança assim como quem brinca em um prado verdejante sob o céu azul de abril. Havia contudo um certo temor de que time metesse os pés pelas mãos mais uma vez; havia a imagem assombrosa dos maus resultados recentes a pesar sobre a cabeça dos dezoito milhões de rubro-negros que acompanharam ontem as quartas-de-final da Copa do Nordeste.

Mas o medo era vão. O Sport é na verdade um time que sempre se reinventa, que sempre surpreende; um time que não conhece má fase que dure mais do que umas poucas partidas de parca importância. O Glorioso estava ontem disposto a jogar com garra e coragem aquelas eliminatórias. A fera entrou em campo como verdadeira máquina assassina, sedenta por eliminar o adversário. Ontem até mesmo o céu carregado recifense abriu-se para ver o Sport jogar. E que espetáculo aquele céu de abril presenciou!

O Glorioso não deu descanso, e em quinze minutos já tinha enfiado dois gols no time visitante: a raposa assustada nem teve tempo de perceber a fera que se lançava sobre si. Não era chegada nem a metade do primeiro tempo e já a vantagem do time campinense estava revertida. Se o jogo acabasse ali, o Sport estaria já nas semifinais.

Mas aí seria pouco. Se o Sport houvesse metido apenas aqueles dois gols industriais dos primeiros minutos seria pouco, e os dezoito milhões de rubro-negros haveriam saído de casa por pouca coisa, e o céu de abril recifense ter-se-ia aberto por quase nada. Era preciso mais, um lance de genialidade, um arroubo de craque, uma jogada homérica, de deixar boquiabertas as musas do Parnaso. Era preciso, enfim, um lance à altura do sagrado manto rubro-negro.

E ele veio. Impávido que nem Muhammad Ali, tranquilo e infalível como Bruce Lee: Diego Souza parecia um Mercúrio alado divertindo-se em campo aberto.



O Sport subia. Rogério chutou. A bola desviou na zaga e, de repente, estava fora de alcance de Diego Souza. Mas ele não se importou com isso e nem sequer pestanejou ao ver a bola passando alta demais, longe demais dos pés dele. Em um lance de gênio Diego Souza voou de costas para o gol: se a bola não me vem às chuteiras, há de ter pensado o craque naquele momento inefável, minhas chuteiras vão buscar aquela bola. O corpo dele fez um movimento impossível e, qual acrobata experiente, sem nem olhar, mandou a bola milimetricamente para o fundo da rede do Campinense. Foi uma apoteose. Um golaço de bicicleta. Estava enterrada a raposa.

A partir daí foi só festa, aqueles pênaltis foram só protocolares. O Leão classificou-se naquele gol de Diego Souza, que há de ganhar desde já o troféu de gol mais bonito da copa, das copas do Nordeste todas. Sim, quem tem um gol daquele não precisa de mais nada. Agora é só levantar a taça.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Dentro em breve, quem haverá de o lembrar?

Nenhum exército é capaz de se manter permanentemente em pé de guerra, nenhum guerreiro luta com a mesma fúria sagrada invencível todas as batalhas de que toma parte. Até Lampião foi morto quando o pegaram desprevenido e mesmo Aquiles, por piedade, concedeu uma trégua a Tróia para os funerais de Heitor.

Ontem o Leão deu uma trégua à catita aflituosa, o Glorioso concedeu a si o luxo de encerrar a própria invencibilidade no campeonato. Não foi totalmente fora de tempo; afinal de contas, há quase três anos que um alvirrubro não ganhava de um rubro-negro nem no par-ou-ímpar. Afinal de contas, o Hexagonal já havia passado da metade. Até mesmo os grandes vacilam de vez em quando, mas isso pouco importa. Tendo sido surpreendido ao raiar da madrugada, Virgulino Ferreira ainda é o Rei do Cangaço; depondo -- temporariamente -- as armas contra Príamo, Aquiles ainda é o maior herói da Ilíada. Com muito mais razão, portanto, mesmo renunciando ontem à sua invencibilidade no Pernambucano, o Sport ainda é o maior time do Nordeste.

Foto: Blog do Torcedor

Há sem dúvidas irritações -- justas; há uma natural raiva contra o time -- razoável. Pois perder para um time pequeno é sempre motivo de raiva e irritação. O torcedor sai de casa para ver o time jogar; ou se reúne com os amigos para acompanhar a transmissão da partida. E o que vê? Um time fraco e apagado, como se o elenco estivesse testando novas estratégias, como se o clássico não tivesse toda essa importância. É verdade que a partida importava pouco e que o técnico estava, sim, realizando experiências com o elenco; mas é sempre frustrante quando a torcida é capaz de perceber isso.

Se ainda a derrota viesse pelas mãos de um time superior...! Se Aquiles fosse neutralizado em combate por uma defesa troiana irresistível, ou se Lampião tombasse em guerra honesta contra as forças policiais... talvez a história fosse mais bonita e interessante, talvez evocasse as imagens de grandiosidade a que faz jus. Mas não. As muralhas de Tróia recebem um descanso porque o próprio herói se recolhe à inação, e o cangaceiro quadragenário é alvejado ao raiar do dia enquanto, desarmado, rezava o Ofício. Se o Sport sucumbisse ante uma apresentação irrepreensível do adversário, talvez o domingo houvesse sido mais bonito. Mas nada disso: a invencibilidade rubro-negra cai perante um time fraco e desorganizado, cai como se não fosse nada, cai sem motivo e sem explicação. Não, não há como não se irritar.

A rataria não deixa de fazer a festa, e a minhoca do Canal celebra como se fosse ela mesma a abater o Glorioso. É engraçado: não deixa de lembrar os troianos celebrando o armistício unilateral do inimigo, ou as polícias comemorando o fim do maior grupo cangaceiro do sertão. Mas a história faz justiça. Porque Tróia pode ter muito exaltado as suas muralhas, mas o que ficou para a posteridade é que Aquiles as pôs abaixo. Lampião pode ter sido morto, mas o nome de Virgulino Ferreira é mundialmente conhecido -- enquanto ninguém sabe o dos seus executores. Ontem a catita venceu o Sport; dentro em breve, no entanto, quem haverá de o lembrar? Quando o Leão rugir com toda a sua majestade, as derrotas do passado se esvanecerão como brumas ao amanhecer. Quando o sagrado manto rubro-negro se impuser ufano e altivo, ninguém se lembrará do berreiro tricobarbie de hoje.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Domingo a caça foi farta

Domingo foi um dia extraordinário. Digo mais: domingo foi um dia que parecia não caber em apenas vinte e quatro horas. O que digo? Não foi nem o domingo inteiro. Aqueles noventa minutos no campo da Ilha do Retiro, as quase duas horas entre as cinco da tarde e as sete da noite poderiam preencher o domingo inteiro e ainda seria pouco.

Domingo foi um dia de festa para a torcida rubro-negra! Conquistamos ao mesmo tempo a permanência na Série A, a artilharia do campeonato brasileiro e a última vaga da Sulamericana. Parece muito para um jogo somente; mas não é à toa que o Leão é o rei dos gramados. A fera ao final não decepciona -- e com a força de suas garras sempre consegue providenciar uma caça farta e saborosa.

Foto: Globo Esporte
Primeiro, a Série A! Ela é nossa. É nossa porque compete ao Leão permanecer, altivo e majestoso, na elite do futebol brasileiro, fazendo a glória de Pernambuco e exaltando o sagrado manto rubro-negro. Houve quem temesse uma recuperação súbita do Inter. Mais: houve quem apostasse nisso. Dizem as más línguas que houve até quem pagasse para tanto... mas as torcidas, as apostas e mesmo os negócios escusos não lograram manter o Colorado na primeira divisão.

Eles se esforçaram. Primeiro, o Fluminense deu férias para mais da metade do elenco. Entrou em campo praticamente com a equipe dos juniores, com um time totalmente improvisado. Houve jogadores que nunca haviam passado tanto tempo dentro de campo -- nem mesmo no treinamento! Depois, o Fluminense perdeu um pênalti. De propósito. Bateu em cima do goleiro. Não fosse o bastante, na etapa complementar o time carioca substituiu o goleiro. O time de juniores do Fluminense, cujos atacantes perdiam pênaltis de propósito, passava a guarnecer as suas traves com o goleiro reserva! Era demais. Nunca se viu um arrumado tão grotesco; no entanto, nem mesmo assim a terceira força do Rio Grande do Sul conseguiu se segurar de pé. Não arrancou senão um vexatório empate no Rio de Janeiro -- é a prova cabal de que um barracão não se transforma jamais em palácio, ainda que seja coberto com os mais ricos tapetes que o dinheiro pode comprar.

Mas nem adiantaria. Aqui, na Ilha do Retiro, o Leão foi à desforra. Lançou-se sobre o Figueirense com a ferocidade de um caçador experiente: Florianópolis estremecia a cada vez que o ataque do Sport desbaratava a defesa do time visitante. Foram dois gols precisos, milimétricos, exatos: Rogério e Diego Souza liquidaram a partida. Com o gol, o meia rubro-negro alcançou a admirável marca de catorze gols na competição: não houve no Brasil inteiro ninguém que marcasse mais do que ele! E como se não bastasse, como se fosse preciso fechar o campeonato com chave de ouro, a surpresa ainda veio de graça, numa bandeja de prata, como um leitão assado de maçã na boca e tudo: o Coxa e o Vitória, perdendo, abriram espaço para que o Sport subisse na tabela até a décima-quarta posição, garantindo a sua vaga na Copa Sulamericana do próximo ano. Sim, senhoras e senhores, a vitória foi brutal: domingo não sobrou pedra sobre pedra.

Domingo a vitória foi completa. Caídos no chão, deitados em posição fetal, chorando como bezerros desmamados, estavam o Inter, o Figueira, o Coxa e o Vitória: sobre todos eles, de pé, altivo e majestoso, o Leão contemplava o estrago feito -- e o seu rugido vitorioso se fez ouvir pelos quatro cantos do Brasil.

Domingo o uniforme rubro-negro brilhou e mais: parecia que cada um dos torcedores do Sport refletia, no fim de semana, um pouco da glória do Leão da Ilha do Retiro. Foram dois gols e, de repente, dezoito milhões de rubro-negros experimentaram uma alegria como não tiveram o campeonato inteiro. Foi uma cena linda de se ver: o Leão vitorioso, com os adversários prostrados sob as suas patas poderosas e, ao redor dele, dezoito milhões de uniformes rubro-negros que chegavam a resplandecer na escuridão recifense.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

O luto verde que é devido aos meninos de Chapecó

As tragédias, como as alegrias, unem os homens. Dada a nossa triste condição, as primeiras costumam unir mais do que as últimas. É que a felicidade parece diminuir quando é compartilhada; a dor, não, a dor consome e se expande, e tanto mais cresce quanto por mais pessoas estende os seus dedos macabros. Nunca a alegria de uma conquista é tão contagiante quanto a dor de uma tragédia: é a nossa maldição. O sofrimento de perder o emprego costuma ser maior do que a alegria de ter sido contratado, e as lágrimas por um relacionamento rompido geralmente são mais abundantes do que o foram os sorrisos pela descoberta do amor verdadeiro.

Hoje esta maldição nos atinge e nos envergonha de um modo particularmente duro. Todos sabem da trágica queda do avião que levava o time da Chapecoense para a Colômbia, onde ia disputar a final da Copa Sul-Americana: amanhecemos com essas manchetes. E de repente todo o país se cobriu de luto -- um luto muito maior e muito mais generalizado do que a alegria que sentíamos pela final que os nossos conterrâneos heroicamente iam disputar. E de repente nos assustamos com a dimensão daquilo que perdemos sem perceber. E não mais que de repente, como no soneto, o nosso riso escasso transformou-se em farto pranto.

Foto: Folhapress

De repente uma tragédia, uma falha elétrica, uma pane, uma queda...! O time da Chapecoense estava no seu auge: saíra da série D do Campeonato Brasileiro em 2009 para a série A em 2014. Em 2016 chegara à final da Sul-Americana. É uma trajetória notável à qual poucos times terão podido fazer frente -- e o atleta assim abatido em seu apogeu provoca um sentimento estranho em quem acompanhava, deslumbrado, os seus passos. Ficamos nos perguntando até onde ele poderia ter chegado; e, pedindo licença ao poeta, sentimos uma falta enorme, desassombrada, da vida inteira que podia ter sido e não foi. Sim, tragédias assim nos fazem questionar se Neil Young estava certo e se é mesmo melhor queimar de uma vez do que apagar-se aos poucos. 

As tragédias unem os homens; as grandes tragédias, unem-nos por sobre os clubes de futebol. Hoje não somos senão brasileiros chocados com o acidente, perplexos com a catástrofe, emudecidos diante dos caprichos brutais e intransigentes do destino. Poderia ter sido conosco e de uma certa maneira foi: de um certo modo aqueles jogadores, jovens e deslumbrados com a vida, levaram consigo um pedaço da nossa própria alegria e do nosso fascínio esportivo. Todo mundo, independente da camisa que vista, está percebendo isso: é como se por debaixo dos uniformes estivéssemos descobrindo, com toda a clareza que a dor provoca, o pulsar de um coração igual ao daqueles jovens que não puderam chegar ao Atanasio Girardot. Nós também não chegamos; a nós, que ainda vivemos, cabe derramar as lágrimas que eles não podem mais derramar.

Hoje as arquibancadas estão silenciosas e o gramado dos nossos estádios se veste do luto verde que é devido aos meninos de Chapecó. Chegaram longe e nos encheram de orgulho, e são dignos de nosso reconhecimento, nossos pêsames e nossas orações. Hoje é preciso abrir uma exceção e o sagrado manto rubro-negro cede o seu lugar ao uniforme monocromático da Chape: é ele que deve tremeluzir mais alto, repleto de honras, fulgente de glória. Hoje Pernambuco expressa as suas condolências aos irmãos de Santa Catarina, e o Leão da Ilha abaixa a cabeça em muda saudação ao Verdão do Oeste que parte.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O toque de Midas

Midas foi aquele rei da antiguidade que, ganancioso, ávido por riquezas, conseguiu dos deuses, certa vez, o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse. A graça viu-se transformada rapidamente em maldição: Midas não podia comer, não podia beber, não podia abraçar a sua família sem que a comida, a bebida ou a filha se transformassem em ouro ao toque de suas mãos. Cercado de estátuas de ouro maciço, o velho rei sofria cada vez mais sozinho.

Há uma espécie de toque de Midas no futebol brasileiro. O Leão, que também é Rei e cuja juba é dourada, detém esse dom extraordinário: consegue transmutar qualquer pelada em uma batalha encarniçada, transforma qualquer passeio em uma Odisséia.

Diante do América foi o que foi. O time já estava rebaixado, era o lanterna do Brasileirão; o jogo não valia rigorosamente nada. Ou por outra: a vitória faria com que o Sport estivesse matematicamente livre do rebaixamento. Era um jogo tranquilo. Não era possível se complicar.

Mas eis que a pata dourada do Leão pisa em campo, eis tudo transmutado. A pelada transformou-se rapidamente em uma batalha cruel e assassina, eu não diria de dois campeões europeus porque o futebol europeu não está à altura dessa dramaticidade tão própria nossa, mas de dois finalistas de futebol de várzea. Sim, senhoras e senhores, aquele jogo contra o América adquiriu magicamente todos os contornos de uma revolução que desde a Inconfidência Minas não via tão sangrenta!

Foto: Globo Esporte

O Sport abriu o placar e a torcida ficou esperando o segundo gol que não veio. O time da casa empatou. Virou o jogo! Eis a pelada, a partida protocolar, o mero cumprimento de tabela, transformado em um clássico onde só interessava ao Leão vencer. Eis o Glorioso em desvantagem, saindo do acomodamento, precisando lançar-se sobre o adversário com um ânimo que até há pouco tempo atrás ele não tinha. Já dezoito milhões de rubro-negros xingavam o Sport, injustissimamente, com aquela injustiça com que a corte de Frígia talvez censurasse o seu soberano por estragar o repasto para ele preparado pela melhor cozinha da Hélade. Uma e outros, tolos, não eram capazes de admirar o corriqueiro transformado em extraordinário.

O jogo terminou em 2 x 2; disseram que, com o empate, o fantasma do rebaixamento estava se aproximando. Ora, só as crianças e as mulheres têm medo de fantasmas! O Glorioso ri-lhes em face. O manto rubro-negro não teme os seres malditos, ao contrário: senta-se tranquilo e sereno em meio aos terrenos baldios mal-assombrados, bastando um seu rugido para desvanecer os espectros da noite. É compreensível que os times medíocres fiquem com medo do azarão das tabelas ou tenham vertigens na beira do abismo. O Sport não. As suas garras estão preparadas para destroçar os azarões e, da beira do abismo, do alto do desfiladeiro, o rugido do Leão ecoa mais majestoso.

Qual toureiro que atrai a fera selvagem a si, qual atleta que desafia os limites da natureza, este é o Sport: nada nele é medíocre, nenhum jogo é protocolar. De repente, no penúltimo jogo do campeonato, o Internacional se aproxima; graças ao toque de Midas, o que poderia ser um jogo sem importância transformou-se na partida capaz de fazer com que o Sport fique na elite do futebol ou desça para a divisão do Náutico e do Santa Cruz. Quem poderia esperar algo tão emocionante?

Domingo, na última rodada do Brasileirão, o Sport jogará com toda a dedicação de um tudo ou nada. Se o Inter vencer poderá ultrapassar o Sport; era cavalheiresco conceder aos gaúchos essa gentileza, dar-lhes pelo menos essa chance, não lhes tirar a esperança até o último momento. O Colorado se aproxima furioso; domingo será o dia do Olé. Domingo, em Recife, a velha Figueira será derrubada, virará lenha na Ilha do Retiro. Lenha para o fogo! Sim, senhoras e senhoras, domingo será o dia em que dezoito milhões de rubro-negros vão se fartar de comer churrasco gaúcho.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Com muita sede ao pote

É a monotonia que nos leva longe; as caminhadas, mesmo as mais longas, são vencidas passo a passo, e os obstáculos mais difíceis são alcançados à custa da tenacidade e da paciência. Os judeus levaram quarenta anos para cruzar um deserto que, alguém poderá dizer, talvez pudessem ter cruzado em quatro; mas o afobamento talvez lhes custasse uma energia que não haveria como repor. Os desertos, é o que quero dizer, têm o seu tempo para serem atravessados: neles a pressa ou a apatia podem ser fatais.

O Sport, todos o sabemos, é dado a arroubos de grandeza. É um Leão majestoso e todo majestade tem os seus caprichos: é um defeito de todo rei, aliás, satisfazer as próprias vontades quando lhe dá na telha. Inclusive assim se perderam muitos povos e muitos reinos: foi por não querer esperar a viuvez que Henrique VIII rompeu com a Igreja; e, séculos antes, em Poitiers, um ataque açodado de João II tornou o rei de França cativo de um exército inglês numericamente muito inferior. A Guerra dos Cem Anos haveria que se consumir lentamente ao longo de todo o seu século: qualquer tentativa de lhe pôr fim antes do tempo só poderia ser catastrófica.

A espera melancólica é o segredo das vitórias ou, pelo menos, das vitórias colecionadas em sucessão. A sabedoria popular manda não ir com muita sede ao pode, e o adágio tem uma metonímia que não pode passar despercebida: não é sede e sim sofreguidão. Afinal ninguém tem controle sobre a sede que sente: o que pode fazer é, no máximo, decidir de que maneira vai se comportar uma vez que está morto de sede.



E o Leão estava sedento ontem -- também pudera. Lutava contra o fantasma do rebaixamento e recém saíra de uma vitória clamorosa. Em Porto Alegre massacrara o tricolor gremista, enfiando-lhe três gols cujos gritos ainda hoje assombram os gaúchos. Respirara fundo, mas a missão não estava ainda concluída. Havia o que fazer, e o time queria fazer depressa. Foi, no entanto, traído pela tabela.

O campeonato espaçou demasiadamente os dois jogos do Leão: goleou na segunda-feira e só foi chamado a entrar em campo novamente na quarta-feira da semana seguinte, dez dias depois. Todo um final de semana se passou em branco, sem que o Glorioso se apresentasse; são tristes e melancólicos esses fins de semana onde o sagrado manto rubro-negro é impedido de brilhar! O Leão, com gosto de sangue na boca, com os pedaços do uniforme gremista ainda presos nos dentes e nas garras, precisou esperar -- e Deus sabe como isso é difícil às feras selvagens, aos reis gloriosos! Mas o campeonato brasileiro é como a Guerra dos Cem Anos: impõe reveses aos que não sabem suportar o melancólico e lento escoar dos seus prazos e dos seus tempos.

Ontem o Leão entrou em campo já esbaforido: dir-se-ia em frenesi a fera, em verdadeira crise de abstinência, precisando desesperadamente marcar os gols que, após a goleada em Porto Alegre, por dez longos dias fora proibida de marcar. Sofreu o pênalti e foi a sua desgraça, porque se afobou e se precipitou, e dezoito milhões de rubro-negros chegaram até a gritar "gol!" em pensamento. Mas o time se lançou com muita sede ao pote: e naquela cobrança de Diego Souza o pote quebrou, e a água fresca derramou-se e se perdeu no gramado da Ilha do Retiro. Sim, forçado a esperar muito, preso e agrilhoado por dias a fio, o Glorioso, uma vez solto, foi com muito afã ao campo -- e por conta disso dezoito milhões de rubro-negros voltaram pra casa com sede naquela noite.