domingo, 3 de maio de 2026

O Leão que o destino havia prometido

Conta-se que Michelangelo, ao ser indagado sobre o segredo de suas esculturas, respondia com uma simplicidade desconcertante: a figura já estava ali, dentro do mármore, esperando — ele apenas removia o que era supérfluo. Dir-se-ia que o Sport Clube do Recife opera segundo essa mesma lei universal. A vitória não é conquistada; ela é revelada. Ela habita, desde sempre, o ventre daquela Ilha sagrada, e cabe aos rubro-negros apenas remover, pedaço por pedaço, tudo aquilo que insiste em ocultá-la.

E assim foi neste terceiro dia de maio de 2026, numa tarde em que a Ilha do Retiro cumpriu, como sempre cumpre, a sua vocação de templo. O Ceará chegou ao Recife com a compostura de quem não sabe, ainda, o que o aguarda. Não o culpemos por isso. Os desavisados não escolhem a própria ignorância. O destino os havia colocado no caminho do Leão, e o Leão, como convém a sua natureza, não os devorou com crueldade — apenas os consumiu com a elegância que lhe é congênita.

Chrystian Barletta foi o primeiro a ouvir o chamado. Aos cinquenta e três minutos, diante da oportunidade que a partida lhe ofereceu na forma de uma penalidade máxima, o jovem não hesitou. Digo não hesitou e poderia dizer mais: foi implacável, cirúrgico, inevitável. O chute com o pé esquerdo, colocado no canto inferior direito com a precisão de quem não conhece a dúvida, fez o que as esculturas de Michelangelo fazem: revelou o que já estava escrito. Um a zero. Vinte e um milhões de corações rubro-negros explodiram na mesma batida.

Mas a obra ainda não estava completa. O mármore ainda guardava mais beleza. E foi Mádson quem pegou o cinzel às setenta e um minutos, numa jogada que reuniu a geometria de Marlon Douglas na cobrança de escanteio e a destreza de uma cabeçada fulminante, enviada ao canto superior direito com a autoridade de quem sabe que chegou a hora. Dois a zero. Feita estava a escultura. Revelada estava a vitória que sempre esteve ali, esperando.

Não se diga que o Ceará foi fraco. Não é esse o ponto. O Sport manteve 44,8% da posse de bola — não o precisava mais — e disparou dezesseis chutes, cinco deles no alvo, com a tranquilidade de quem administra, não de quem desespera. Aqui um desarme no meio-campo, ali uma interceptação na entrada da área, acolá a organização coletiva de um time que sabe exatamente quem é e aonde quer chegar. O Glorioso não atropelou; o Glorioso ordenou o universo a seu favor, como sempre fez nos momentos que a história quis lembrar.

O Ceará partiu de volta para o Nordeste — e o Nordeste é grande o suficiente para os dois, convenhamos — carregando a dignidade de quem enfrentou algo maior que si mesmo. Não há vergonha nisso. Há até uma certa nobreza em ser a resistência que o Leão precisou superar para provar, mais uma vez, a sua inexorabilidade. A Série B, esse longo torneio de provações, vai se rendendo, passo a passo, à marcha do Sport.

E quando a noite fechou sobre a Ilha do Retiro, e as arquibancadas começaram a se esvaziar, ainda ecoava pelo ar aquela sensação que os rubro-negros conhecem tão bem — a sensação de que não havia sido diferente porque não poderia ser diferente. O mármore sempre guardou aquela escultura. Nós apenas viemos para vê-la nascer.

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